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Opinião Opinião

O homem que amava caixas

Por Gilson Luis da Cunha
Última atualização: 17.05.2020 às 13:30

(Data estelar 17052020)

No meio da pandemia, bilhões de pessoas em todo o mundo estão preocupadas. Seja com riscos à saúde, à economia, ou à própria sobrevivência. No entanto, por incrível que pareça, no mundo do entretenimento, grandes corporações como a Marvel, a Disney (isso foi um pleonasmo), a DC e a CBS/Viacom, inexplicavelmente, teimam em repetir os mesmos erros que as levaram à beira do precipício. A Disney teve suas ações desvalorizadas a ponto de custarem, no todo pouco milhões de dólares a menos que a NETFLIX. Sim, milhões, não bilhões. E isso se deve ao comportamento suicida dos departamentos de marketing dessas companhias, que teimam em oferecer, ou melhor, em empurrar ao público produtos que ele não quer consumir.

E, não satisfeitas, as grandes corporações de entretenimento contam com arautos fiéis na mídia, para dizer que a culpa é do público. É o que você leu. “E se você não gostou, a culpa é de você, seu retrógrado, ignorante!” Calma. Essa não é a minha opinião. Essa é a opinião dos departamentos de marketing dessas corporações que, atualmente, estão mais preocupadas em fazer proselitismo de política identitária do que entretenimento. Em nome, de “um mundo melhor”, essas corporações, nos últimos anos, têm contratado diretores, produtores, roteiristas e outros “profissionais” com capacidade e integridade mais do que discutíveis, dispostos a destruir a mitologia de filmes, séries e quadrinhos, sedimentada durante décadas, apenas para afrontar os fãs.

O que eles não sabem, ou não querem saber, é que a fabulosa “transição demográfica” que substituirá o público antigo, fonte de “todos os males do mundo”, ainda não chegou. Quem compra os encadernados de HQ, os livros, DVDs, e claro, as caríssimas action figures, maquetes, miniaturas e outros itens, são pessoas que querem ler/assistir uma história emocionante, não consumir panfletos políticos. Engana-se quem pensa que esse estado de coisas é fruto da última meia década. Não mesmo. As origens disso podem ser rastreadas há mais de quatro décadas, nos anos que se seguiram ao fim da guerra do Vietnã.

Os “intelectuais” dos campi de universidades americanas tinham ficado órfãos de causas pelas quais lutarem. Mas ainda nutriam aquele sonho de moldar a sociedade segundo sua imagem e semelhança. E assim, se lançaram a uma tarefa lenta, metódica, de ocupação de espaços, até o dia em que houvesse um número razoável deles e de seus simpatizantes em posições de controle na mídia. Há diversas histórias curiosas. Vejamos o caso de James Cameron. Entre os anos 80 e 90, ele era um verdadeiro carrasco no set de filmagens. Quase matou a atriz Mary Elizabeth Mastrantonio afogada durante as filmagens de O Segredo do Abismo. Fez até o ator Ed Harris, um marmanjo, chorar no mesmo set.

Ainda nos anos 90, Cameron dirigiu um dos maiores sucessos de sua parceria com Arnold Schwarzenegger*, True Lies*, filme que, se fosse feito hoje em dia, o colocaria na lista negra de Hollywood sob a pecha de “islamofóbico”. Esse mesmo diretor, machista e casca grossa, recentemente atuou como produtor de *O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio*, estrelado por sua ex-esposa, Linda Hamilton, um filme totalmente comprometido com o feminismo da terceira onda. Comprometido a ponto de desfazer tudo o que foi estabelecido nos filmes anteriores, principalmente o segundo, dirigido por ele mesmo e considerado, junto com o primeiro, um dos favoritos dos fãs.

A que podemos atribuir essa miraculosa mudança? Será que o ogro misógino Cameron passou por um processo de renascimento espiritual, tornando-se um ser humano mais sensível, com mais empatia e amor ao próximo? Dificilmente. Mas, se depender de um bom rabo preso, ele, como muitos outros em Hollywood, é um *Godzilla*. Não um do primeiro time, como Harvey Weinstein, o famoso assediador/estuprador, cuja queda provocou uma reação em cadeia que está mudando a face de Hollywood, graças ao movimento “me too”. No máximo, um T-rex. Melhor, um velociraptor amestrado, alguém com o rabo preso o bastante para ser chantageado, mas não grande o bastante para ir para a cadeia.

Bom, o título desse artigo não se refere a nenhum desses senhores. Ele se refere, isto sim, ao sujeito que muito provavelmente foi o portador do cromossomo y mais beneficiado pelo “me too”, “time is up” e movimentos similares: Jeffrey Jacob Abrams, mais conhecido como JJ Abrams e, por motivos que veremos a seguir, quase tão conhecido pelo público como Jar-Jar Abrams. Vocês devem estar se perguntando como um homem como JJ pode se beneficiar de um movimento contra o assédio e a violência sexual praticado durante décadas contra as mulheres em Hollywood, por homens com um perfil muito semelhante ao dele.

Para isso, é preciso reconstituir os passos desse homem, citado como Diretor, produtor e, inexplicavelmente, escritor. E digo inexplicavelmente por que seus “argumentos” e “ideias” só têm prejudicado as franquias pelas quais ele passou, incluindo até mesmo LOST, série que ele criou para a TV. Junto com Katlheen Kenedy e Rian Johnson ele foi um dos responsáveis por transformar Star Wars, antes um verdadeiro mito moderno, em “apenas mais um produto”. No entanto ele continua sendo premiado, galgando cada vez mais posições rumo ao poder na Meca do cinema. Como é que ele consegue? Quem é esse cara? Onde vive? Do que se alimenta?

JJ Abrams é uma figura pitoresca. Filho de um produtor de TV e de uma produtora executiva, começou na indústria do cinema aos 16 anos, escrevendo músicas para o filme independente de terror *Nightbeast* de 1982. Ao fim do ensino médio, Abrams manifestou seu desejo de ir para uma escola de artes ao invés de uma universidade. Seu pai o dissuadiu com o seguinte conselho: “É mais importante você aprender o que fazer com filmes do que como fazê-los”. Ao que parece, o conselho foi posto em prática. Esse desapego pela própria obra, essa ânsia de estar sempre em movimento, semeando campos dos quais não colherá, se tornaria uma marca bastante evidente em sua carreira.

Abrams deu seu primeiro passo concreto rumo a Hollywood ao escrever um “tratamento”, junto com sua colega de faculdade no Sarah Lawrence College, Jill Mazursky, que “por puro acaso” era filha do então consolidado diretor Paul Mazursky (networking é tudo!). Esse esboço de roteiro seria a base para o filme *Taking Care of Business* (1990), da Touchstone Pictures, estrelado por James Belushi. A Touchstone é uma subsidiária da Disney, criada nos anos 80 para produzir filmes com conteúdo adulto demais para a linha principal da casa do Mickey Mouse. Já em 1991, ele seria roteirista e coprodutor de *Uma Segunda Chance* (1991), drama estrelado por Harrison Ford. Em 1992 ele se tornou produtor executivo e roteirista de *Jovem Para Sempre*, filme estrelado por Mel Gibson. Ele voltaria a trabalhar com Jill Mazursky em 1998, como coautor do roteiro de *Pescando Confusão*, com Joe Pesci e Danny Glover.

Em 1998 ele encontra aquele que seria seu guru, o mestre que mais marcaria sua estética e visão de cinema. Se você pensa que estou falando de Steven Spielberg ou Francis Ford Copolla, pode tirar o cavalinho da chuva. Eu me refiro a Michael Bay, com o qual ele trabalhou o roteiro de *Armagedon*, filme estrelado por Bruce Willis e grande elenco. Graças a Bay, Abrams se tornaria viciado no irritante recurso do “lens flares”, aquele brilho cegante cujo uso ele repete à exaustão em seus filmes. O filme, que oscila entre o sublime e o patético, é do tipo ame-o ou deixe-o, já revelando o que o futuro reservaria a Abrams (embora *Armagendon* certamente tenha muito mais méritos do que o final de LOST).

Além de Bay, o filme marca outra influência importante na carreira de Abrams: o início de sua amizade com Jerry Bruckheimer (Lembre-se, networking é tudo!), produtor do longa. No mesmo ano, Abrams lançaria sua primeira série de TV, *Felicity*, que duraria até 2002, na qual era diretor, roteirista, produtor, e compositor do tema musical. De 2002 a 2006 ele lançaria a sua segunda série de TV, o drama de espionagem *Alias*, estrelado por Jennifer Garner. Simultaneamente, de 2004 a 2010, Abrams dirige, escreve e produz aquela que pode ser considerada a obra que sintetiza sua carreira: LOST, o seriado sobre os sobreviventes de um voo caído em uma “ilha misteriosa” na qual tanto eles quanto o público tentam descobrir o que está acontecendo.

A série enrola a não mais poder. Nas raras vezes em que uma ou outra pergunta é respondida, dúzias de novos personagens aparecem, incontáveis flashbacks surgem e, no episódio seguinte, tudo se repete, numa ordem não linear. O início do episódio piloto já entrega a “mecânica” da ação típica de Abrams: Em meio aos destroços do avião acidentado na praia, sobreviventes atordoados correm de um lado para o outro, sem a menor ideia de como chegaram ali e, muito menos, de onde estão. Depois passam a ser perseguidos por um monstro de fumaça. E depois...numa espiral sem fim, que leva a um dos finais mais frustrantes de toda a história da televisão.

Depois de LOST, passei a ver *O Clone* e *Caminho das Índias* de modo mais generoso. Mas voltemos a JJ Abrams e *LOST*. Nessa seminal obra (isso não é um elogio), ele desenvolve ao máximo uma de suas mais importantes marcas: o início “pé na porta” (“vamos entrar batendo pra valer, muito sangue, gritos e explosões. O que faremos depois, eu não tenho a menor ideia”), recurso usado principalmente nos dois primeiros filmes da recente trilogia *Star Trek*.

De certo modo, se Armagedon foi o filme que o viciou na estética do “lens flares”, LOST foi o seriado que o viciou na escrita preguiçosa de cenas de ação estonteantes, um maravilhoso recurso de prestidigitação para enganar o púbico que, só depois de assistir o filme ou série, começa a se dar conta dos furos do roteiro. É claro que todo o chefe de quadrilha precisa de capangas fiéis. E foi em LOST que ele encontrou alguns dos seus mais fiéis, como o “roteirista” Damon Lindeloff, que assumiria também a função de showrunner, depois que Abrams se afastou da série que criou junto com ele e Jefferey Lieber.

Eu os pouparei de lembrar como terminou o seriado. Afinal, JJ seguiu em frente, com a reputação quase incólume. Já, Lindeloff, que ficou na reta, até hoje recebe tuítes furiosos e ameaças de morte, o que jamais o impediu de arrumar trabalho em Hollywood e, veja só, na indústria de quadrinhos. Na minissérie *Wolverine versus Hulk*, Lindeloff, que viria a ser um dos roteiristas do *Star Trek* de JJ Abrams, põe na boca do carcaju canadense: “Star Trek é pra babaca”. Networking é tudo.

Pois bem, voltemos a JJ. Em 2006 ele fez sua estreia como diretor no cinema com *Missão Impossível 3*, no qual foi coautor do roteiro, junto com Alex Kurtzman e Roberto Orci, que viriam a integrar a gangue, junto com Lindeloff, seu fiel escudeiro. Em 2017, Kurtzman, graças ao apoio de Abrams, consegue se tornar o produtor executivo e roteirista da aberração que é “Star Trek” *Discovery*, uma série de fantasia muito mal escrita, com roteiros imbecis e interpretações rasteiras, que se faz passar por ficção científica. E está no comando da franquia até hoje. Networking é tudo.

Em 2008, Abrams produz “Cloverfield”, mais um desses filmes de “filmagem encontrada”, basicamente uma “Bruxa de Blair” com mais orçamento. Abrams dirigiria ainda mais um filme de *Missão Impossível* para a Paramount (2011). Não foi uma bilheteria extraordinária, mas foi boa. Entretanto foi suficiente para que o estúdio da montanha se animasse e pedisse a ele, mais ou menos isso daqui: “Sabe como é. Nós temos essa propriedade aí, esse tal de *Star Trek*. Você gostaria de *revitalizá-la*, como fez com essa outra velharia dos anos 60, *Missão Impossível*? Você tem carta branca. Pode fazer o que quiser com ela.” E assim nascia a linha temporal Kelvin, criada por Abrams para apagar décadas de história sem se preocupar. Afinal, muito mais fácil do que entender o seu material de trabalho é mutilá-lo para deixa-lo do jeito que você quiser.

A indiferença e total falta de respeito de Abrams com o legado de *Jornada Nas Estrelas*, tardiamente rebatizada de Star Trek no Brasil para “reforço de marca” (reforçar o que, cara-pálida?) foi demonstrada por Abrams numa entrevista com o apresentador de talk show Jon Stewart. Abrams, falando sobre o projeto, disse: “Sabe, eu não sou fã de Star Trek. Nunca assisti a um episódio. Eu achava *muito filosófico*. Eu gostava mais de *Star Wars*”.

Abrams continuou a falar sobre seus planos para a “nascente” franquia e foi interrompido por Stewart: “Eu confesso que estou vendo seus lábios se mexerem, mas parei de ouvir a uns cinco minutos, depois que você disse que nunca viu Star Trek”. O primeiro filme, por conta do investimento do estúdio em publicidade, jovens astros em ascensão e cenas de ação no estilo “atire primeiro, pergunte depois”, rendeu uma bilheteria animadora. O Marketing era agressivo: “Esse não é o *Star Trek* de seus Pais”, dizia o slogan, que vendia o filme para jovens *millenials* entediados. Star Trek (2009) teve pontos positivos, com Leonard Nimoy, o Spock da linha de tempo original, agora conhecida como prime, e uma trilha sonora primorosa de Michael Giacchino (*Up! Altas Aventuras*), aparentemente o único cara da equipe de Abrams que realmente entendeu o que é *Star Trek*.

E teve também momentos gratuitos e forçados, como o uso da canção *Sabotage*, dos anos 90, vendida como “clássica”, numa cena que não contribui em nada para a trama, abuso de lens flares, ou a destruição de Vulcano e a morte de Amanda, mãe de Spock. Não chegou a ser unanimidade entre os fãs, mas usou o bastante do material clássico para agradar a boa parte de seu público. A continuação, *Star Trek Além da Escuridão* por uma série de fatores, só sairia em 2013. Com o sucesso do primeiro filme, o nível de exigência subiu. Mas a coisa desandou. O tempo passava e Não havia roteiro. No ultimo momento, ficou óbvio que o vilão do filme seria Khan Noonien Singh, um super humano geneticamente modificado, congelado desde o século 20, junto com um grupo de seguidores como ele. Os fãs subiram num porco.

JJ iria, simplesmente, desfazer *Jornada Nas Estrelas II- A Ira de Khan*, considerado o favorito dos fãs. Foram meses negando: “Não. Nosso vilão não será Khan. O nome dele é John Harrison”. No final, John Harrison era o nome usado por Khan, numa versão que, no que pese o talento de David Cumberbatch (Sherlock), nada tinha a ver com o vilão de Ricardo Montalban. O filme é recheado de bobagens, soluções mágicas, *Deus ex machina*, e marca a primeira aparição dos Klingons fajutos da Bad Robot (produtora de Abrams, chamada pelos fãs de “Bad Reboot”), com um visual ridículo que abriu a porta para que Alex Kurtzman transformasse os maiores rivais da Federação em orcs de *O Senhor dos Anéis,* vestindo e tripulando alegorias carnavalescas em uma lamentável nova série de TV.

Segundo Scott Mendelson, da Forbes, o filme falhou por espantar os fãs tradicionais com a novela Khan/ John Harrison e por não atrair a atenção do “público casual” ao qual se destinava. A “revitalização” da franquia teria ainda outro filme, dirigido por Justin “Veloz e Furioso” Lin. Mas essa é outra história. Abrams pretendia ser o dono de Star Trek. Queria comandar todos os derivados, séries de TV, merchandising, tudo, bem de acordo com o conselho de seu pai. Mas foi tudo em vão. A Paramount rachou e Star Trek foi retalhada, metade com direitos na TV e metade no cinema. Abrams deixou seu fiel capanga, digo, escudeiro, Alex Kurtzman no leme de Discovery e, mais recentemente, de Picard (nem quero falar desse).

Sabendo que era o senhor de uma terra arrasada e que nada poderia lucrar, JJ levantou acampamento. Ele tinha um alvo: Star Wars. O diretor multitarefa (?), reza a lenda, teve uma conversa com Steven Spielberg (networking é tudo), que o apresentou a todo mundo que importava. Na época a Lucasfilm estava sendo vendida para a Disney. Foi seu pulo do gato. O plano era entrar de sola na nova trilogia. Star Wars ainda era um mito moderno. Mark Hamill, Carrie Fisher e Harrison Ford estavam todos vivos e bem, prontos a voltar, nem que fosse para uma última reunião do grupo, antes de passar a tocha para jovens heróis de uma nova geração. E aí começou uma das piores reações em cadeia já surgidas em Hollywood. A culpa, em si, não pode ser atribuída unicamente a Abrams, verdade seja dita.

Mas ele teve sua parcela no desastre. Seu *Star Wars, Episódio VII: O Despertar da Força *foi uma refilmagem do episódio IV Uma Nova Esperança. Requentado, sem criatividade, mas redondinho. O filme quase engana. Mas, como toda a nova trilogia, é acima de tudo uma expressão dos desejos de Katleen Kennedy a toda-poderosa sucessora de George Lucas. E ela põe tudo a perder. Mistura decisões criativas com ideologias pessoais, convida os nomes errados para o projeto e, pior, numa entrevista, mostrou que não tem a menor ideia do que é Star Wars. Ela tem uma agenda: destruir “O Velho” Star Wars, na visão dela, algo feito para gente de “cinquenta e tantos”, e trazer um novo público jovem, com um elenco renovado e “cheio de diversidade”.

Como parte de seus planos, Han Solo, personagem clássico amado pelos fãs, é morto no altar da política identitária. Mas antes, é mostrado como um fracasso, tanto como pai como marido. John Boyega, o ator britânico que faz Finn, um storm trooper que “sente o chamado do bem” e resolve juntar-se aos heróis, na luta contra os remanescentes do império, é incensado pela mídia chapa branca a serviço de Kennedy como “o primeiro ator negro a fazer um personagem importante na franquia”, mostrando que nem Kennedy nem seu séquito ouviram falar de Lando Calrissian, interpretado pelo ator Billy Dee Williams em dois filmes da trilogia anterior. O pobre Finn vira um personagem raso, caricato, subutilizado, e que é menos que um alívio cômico. Chega a ser humilhante. Mas ao menos não o matam. O objetivo de kennedy é simples: ridicularizar e matar qualquer homem que tivesse alguma relevância nos filmes anteriores. Luke (Mark Hamill) aparece numa cena de poucos segundos no final, sem dizer uma única palavra.

Mesmo a assim o filme é a maior bilheteria da história. Star Wars, apesar de tudo, ainda era um mito. Há uma grande expectativa em relação ao personagem Rey. Quem seria essa misteriosa e poderosa jovem, que vira uma jedi autodidata, de uma hora para outra? Seria uma filha perdida de Obiwan kenobi? Ou do próprio Luke Skywalker? Contudo, no filme seguinte, Kennedy dá liberdade total para que Rian Johnson faça o que quiser. E o resultado não poderia ser mais grotesco. O mistério plantado por Abrams em relação a Rey é abandonado. O “vilão” Kylo Ren revela que ela é apenas uma ninguém, sem nenhum destino especial, uma menor abandonada pelos pais que calhou de ser poderosa com a força. Só isso.

Luke é morto, mas só depois de ser retratado como um velho imbecil, ranzinza e irracional, que praticamente conduziu o sobrinho ao lado sombrio da força e que vive como um ermitão, ordenhando criaturas que dão leite verde para sobreviver, babando (verde, ainda por cima) na barba. No filme seguinte, novos personagens são introduzidos, mas ninguém quer nada com eles. Um deles, Rose Tico, colocado no filme apenas para agradar o mercado chinês, possui literalmente toneladas de bonecos em balaios em lojas nos estados unidos.

O tal “líder Snoke”, mostrado no filme anterior, é morto sem que o público entenda o que diabos ele faz na trama. Mas Kennedy não desiste. Para concluir a trilogia, Johnson é posto para escanteio e JJ Abrams é chamado novamente, agora com o ônus de desfazer as bobagens de Johnson no filme anterior. O filme teve a mais baixa bilheteria da trilogia e não conseguiu agradar nem aos fãs nem à crítica, com raras exceções. Entre as mudanças de curso introduzidas por Abrams, Rey, de menor abandonada num lixão espacial, vira neta do imperador Palpatine, que (O horror! O Horror!) sobreviveu à queda no reator da Estrela da Morte e à explosão da mesma no episódio *VI, O Retorno de Jedi.

*Não é piada. O sujeito sobreviveu a uma explosão cósmica e passou três décadas tramando, enquanto esperava que uma série de acontecimentos casuais fizessem seu plano funcionar, entre eles, o nascimento e a descoberta da força por sua neta. Sério, gente? Seria como ver Hitler surgir do nada, com mais de cem anos, todo carcomido, ainda com a marca da Luger na têmpora, e dizendo que ele planejou a pandemia que agora acomete o planeta. O resultado foi uma meleca monumental e o fim de semana de abertura mais baixo de todos os tempos para a franquia, além, é claro, do total desinteresse dos fãs pelos colecionáveis do filme.

Durante a produção, que chegou a ter SEIS versões diferentes e “n” roteiros vazados (um pior que o outro), JJ, não o cineasta, mas o homem de negócios, entrou em contato com a Warner para uma negociação secreta: sua mudança de mala e cuia para a gerência do DCEU, o universo cinematográfico DC, com a missão de “revitalizar” mais uma franquia. O acordo de 500 milhões de dólares, aparentemente, deve ser uma pechincha para um estúdio que nos últimos anos só teve um grande sucesso, *AQUAMAN*, e dois filmes com resultados “bons”: *Mulher Maravilha* e *Shazam*.

Com um histórico de criação, abandono, e fuga de empreendimentos, seria de se imaginar que qualquer estúdio com um mínimo de bom senso não poria suas fichas em alguém como Abrams. É aí que entra Kate Mcgraath, esposa de Abrams, atriz pouco expressiva, mais conhecida como a Lena Luthor do seriado *Supergirl*. McGraath é bem mais conhecida como uma das líderes do movimento “me too” que tem revolucionado Hollywood ao expor casos de assédio e abuso sexual por parte de atores e produtores da Meca do cinema. Um dos membros dessa elite, Kevin Tsujihara, CEO da Warner Bros foi obrigado a se demitir em 2019, por causa de alegações de assédio.

Como resultado, foi substituído por Ann Sarnof, a primeira CEO da história da empresa e, “por puro acaso”. Grande amiga de McGraath. E assim, Jar jar Abrams, o sujeito conhecido por plantar em terra seca e sair correndo com a grana da colheita, tornou-se o maior beneficiado pelos movimentos de libertação da mulher em toda a história da sétima arte. Qualquer questionamento sobre ele e suas “decisões criativas”, acaba, por tabela, sendo uma manifestação machista, misógina e, até, racista. Isso o torna virtualmente imune a críticas. Resta saber se conseguirá enganar o público mais uma vez.

Você deve estar se perguntando o que o título desse artigo tem a ver com JJ Abrams. Pois bem. Em LOST, um dos personagens mais importantes da série, John Locke, trabalha em uma fábrica de caixas de papelão. JJ tem um grande fascínio por caixas, especialmente as tais “mystery boxes” ou caixas misteriosas. Abrams pode ser visto neste link, no Youtube, explicando seu conceito. É nítido que ele não tem NADA a oferecer e que está apenas ganhando tempo. Assista se tiver estômago:



Nesta palestra no TED, Abrams mostra que o conceito de “Caixa Misteriosa” é essencialmente, vender o nada. Sim, é isso mesmo. O diretor mostra que, em seu estilo de *storytelling*, o importante não é o final e, muito menos, que o final faça algum sentido. O que importa é gerar curiosidade, expectativa, público pagante e, na hora H, sair correndo com a grana. É basicamente a mesmíssima mecânica desenvolvida por Renato Aragão em esquetes televisivos de *Os Trapalhões, *a mais de quarenta anos e vistos, mais recentemente, nas pegadinhas do SBT: O sujeito ouve um coro vindo de uma caixa enorme. O coro repete: “Sete! Sete! Sete!”.

Curioso, o sujeito se aproxima, olha através de um buraco na caixa, e leva uma tapão no rosto ou uma torta na cara. O coro muda: “Oito! Oito! Oito!”. Há sutis diferenças entre Renato Aragão e JJ Abrams. A intenção do primeiro é ser engraçado. O esquete do humorista brasileiro faz sentido no final. E, acima de tudo, o esquete de Aragão é honesto e despretensioso.

No fundo no fundo, a Mystery Box de Abrams é como aquelas lojas da China que vendem produtos que não pretendem entregar (e que, muito provavelmente, nunca tiveram). E essa é a terrível história do homem que amava caixas. Encarem-na como um conto de advertência. Duvidem de quem fala muito sem nada a dizer. Duvidem de quem se esquiva com frases de efeito tentando ganhar tempo. Não se deixem enganar. Não percam seu suado dinheirinho e, principalmente, seu precioso tempo.

Abrams é apenas um entre tantos safados, verdadeiros empreendedores de palco que vivem da boa fé alheia e que pululam no mundo do entretenimento. Duvida? Veja outra palestra do TED, dessa vez, uma honesta, mostrando que o provérbio de P.T. Barnum, “nasce um otário a cada minuto”, ainda vale, em pleno século XXI:

JJ é só mais um que vive de tempo emprestado. A diferença é que ele é MUITO BEM relacionado. E graças à proteção e ao favorecimento dados pela cruzada de sua esposa, e de suas amigas, estrategicamente posicionadas, ao que parece, ainda terá tempo de destruir mais uma ou duas franquias. O aviso foi dado. Agora é com você. Vida longa e próspera e que a força esteja com você. Até um domingo desses aí. Cuide-se!


O artigo publicado neste espaço é opinião pessoal e de inteira responsabilidade de seu autor. Por razões de clareza ou espaço poderão ser publicados resumidamente. Artigos podem ser enviados para opiniao@gruposinos.com.br
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