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Abolição mentirosa

Por Cláudio Brito
Última atualização: 13.05.2020 às 10:17

Como perguntava o samba-enredo da Mangueira em 1988: "Será que já raiou a liberdade, ou se foi tudo ilusão?" Era o centenário da Lei Áurea, que agora sabemos, não foi o fim da escravidão. Houve um tempo em que muitos se iludiam e festejavam o 13 de maio como se fosse o "Sublime Pergaminho", outro samba até hoje muito cantado, da Unidos de Lucas, exaltando a abolição assinada pela princesa Isabel. Hoje, acho mais importante e significativo o 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, que chancela uma luta que ainda não terminou.

A discriminação e o preconceito continuam aí, amordaçando, espezinhando, fazendo muito mal. Outra vez me socorro do talento dos compositores Alvinho, Hélio Turco e Jurandir, que lembraram que os negros se livraram do açoite da senzala, mas restaram presos na miséria da favela. Agora mesmo, na quadra difícil que a pandemia nos impõe, vejo todos os dias imagens e informações de favelas como a Rocinha, onde a comunidade reclama atendimento na rede pública de saúde, pois há centenas de pessoas infectadas por coronavírus sendo apenas encaminhadas para recolhimento domiciliar. E como manter o indispensável isolamento? São moradores de casas ou barracos com pouco espaço para acomodar um doente e seus familiares.

A maioria desses casos envolve famílias negras. As mesmas que não mais se iludem com as comemorações para festejar a assinatura da princesa. As mesmas que hoje sabem de tudo que lhes foi negado. A própria abolição foi com longa espera. O Brasil foi o último país a libertar os escravos e, ainda assim, para que os senhores de engenho e donos de terras se livrassem das pessoas que já custavam caro para a precária manutenção. Os escravos libertos foram jogados em um mundo que lhes negava tudo. E então começou a dolorosa caminhada que até hoje se mantém, na busca difícil da igualdade e das oportunidades desfrutadas pelos brancos.

Valho-me do que escreveu Luanda Julião, mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo e professora de História na Escola Visconde de Itaúna. Segundo ela, 13 de maio é uma data para "denunciarmos o racismo, a pobreza, a falta de oportunidades e trabalho, a disparidade entre brancos e negros, em cargos de liderança, na política, na publicidade, na literatura, no cinema e na ciência".

Volto ao samba mangueirense: "Hoje, dentro da realidade, onde está a liberdade, onde está que ninguém viu? Moço, não se esqueça que o negro também construiu as riquezas do nosso Brasil". Bem assim, a abolição foi um embuste, uma farsa. Ainda há muito a ser conquistado.


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