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Cultura antivacinal

Por Cristiano Santos
Última atualização: 14.11.2019 às 05:00

O brasileiro é avesso a vacinas - e isso há tempos. Se forçar um pouco a memória, irá se lembrar da campanha sanitária do presidente Rodrigues Alves, lá no início do século passado, e que resultou na Revolta da Vacina, no Rio de Janeiro. Aquele tempo não tem e, paradoxalmente, tem a ver com o que vivemos hoje. O projeto de saúde pública de Alves era violento e incluía invasão de residências pelo exército para cravar à força a agulha da seringa no lombo do povo. Com este presidente, que fora conselheiro do Império - outro paradoxo -, não havia muita conversa. A população não entendia por que era necessária a imunização, e boatos pelos becos e pelas vielas levavam a mensagem de que, na verdade, as vacinas iriam causar mortes - pensamento bem distorcido para uma população vítima, aos milhares, de doenças como febre amarela, varíola e peste bubônica.
Se o autoritarismo de Alves destoa das campanhas de conscientização atuais, a falta de informação continua imperando entre as principais desculpas para que os pais ou responsáveis legais não vacinem seus filhos. Inconsequentes? Se analisarmos pela obrigação de quem possui a tutela de uma pessoa incapaz de responder por si pela idade, sim. Mas, se observarmos pelo viés histórico, veremos que só estamos reproduzindo a nossa mais ingênua ignorância há décadas, independente da classe social.
Viramos reféns de um pensamento cultural que ignora a importância das vacinas. Isso ficou claro na pesquisa encomendada pela Secretaria da Saúde do governo do Estado, divulgada na terça-feira, que aponta o descaso e a desinformação entre as razões para quem não vacinou seus filhos. Subestimamos tanto o poder da imunização que, em 2019, estamos vivenciando a reintrodução da circulação do vírus do sarampo no Brasil. A razão são as baixas coberturas vacinais. O medo é que estas atitudes tragam outras doenças erradicadas há anos no País. A nossa memória curta é outro ingrediente para a falta de consciência sobre a vacinação. Muitos não conheceram doenças como a paralisia infantil.
Essa cultura antivacinal só mudará com investimento de governos federal, estaduais e municipais em longo prazo, repetindo inúmeras vezes as consequências da não imunização. Longe de reviver a imposição de Alves, fica para os nossos governantes pensarem as medidas contemporâneas para contornar esta situação.

 

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