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Opinião Opinião

O palhaço que riu dos tomates (e ainda pisou neles!)

Por Gilson Luis Cunha
Última atualização: 13.11.2019 às 09:59

Data Estelar 27102019

Demorou, mas eu assisti. A primeira coisa que você deve saber sobre CORINGA é que ele é um tremendo filme, certamente um dos melhores do ano. Sim, apesar dos protestos histriônicos de Martin Scorcese e Francis Ford Copolla, CORINGA, de Todd Philips, vagamente inspirado nos personagens da DC Comics, é cinema da melhor qualidade. Mas esqueça do arqui-inimigo de Batman que você está acostumado a ver nas páginas dos quadrinhos. O Coringa de Joachin Phoenix (num desempenho que deve abocanhar, no mínimo, o Globo de Ouro) é e, ao mesmo tempo, não é o sujeito retratado em A Piada Mortal graphic novel de Alan Moore e Brian Bolland.

Da HQ o filme preserva o conceito de que basta um único dia ruim para transformar alguém num criminoso insano. Mas nada é tão simples e, como o próprio morcego afirma no final daquela história, “talvez homens comuns não quebrem tão facilmente”. O coringa de Joachin Phoenix é uma história de origem. Senão do vilão mais famoso das histórias em quadrinhos, ao menos, de um lunático que poderia estar andando por qualquer grande cidade do mundo. E é aí que começam as diferenças.

No filme, acompanhamos a atormentada jornada de Arthur Fleck, um sujeito com sérios problemas físicos e emocionais, que vive com a mãe idosa em um apartamento num prédio caindo aos pedaços. Ele precisa de pelo menos sete medicações diferentes e, sob circunstâncias estressantes, tem ataques de riso incontroláveis, condição que frequentemente o coloca em apuros.

Arthur vive mergulhado em depressão e ansiedade, esmagado pela pobreza, pela falta de perspectivas, pela solidão e pela violência e indiferença da cidade grande, no caso, Gotham City. Em meio a seu calvário diário, ele tenta manter um fiapo de sanidade trabalhando como palhaço em eventos, enquanto busca uma carreira como comediante stand up à noite.

Ao fazer publicidade de uma loja, Arthur tem o cartaz que carrega roubado por uma gangue de jovens e corre atrás deles, tentando recuperar a propriedade da loja. É espancado pelos marginais e tem a placa de madeira quebrada contra seu corpo. De volta à agência de palhaços em que trabalha, ele é convencido por um de seus colegas a portar uma arma para se proteger. Tudo sai muito errado quando, numa performance em um hospital infantil, a arma cai de seu bolso. Para piorar essa receita de catástrofe, ele é demitido por não ter devolvido a placa à loja que ele estava anunciando na calçada. O resultado desse efeito bola de neve é, em resumo, uma sucessão de desgraças que acabará transformando Arthur Fleck no lendário maníaco homicida. E os spoilers acabam aqui (praticamente tudo isso aparece no trailer).

Coringa

O longa de Todd Philips tem muitas virtudes. O uso da trilha sonora, a paleta de cores, o design dos títulos, as canções, tudo remete a musicais antigos e felizes, num contraste brutal com o cotidiano desumano de Arthur Fleck. No mundo criado pelo diretor de Se Beber, Não case (2009) Gotham City ainda é uma cidade arruinada pela crise econômica, varrida pela violência e entregue a própria sorte. Mas a pobreza, por si só, não é o gatilho que leva à transformação de Arthur. Ao contrário de vilões célebres, como Walther White, do seriado Breaking Bad, a jornada de Arthur não se trata da opção pelo mal. Arthur tem tanto poder de escolha quanto uma folha seca tem de escolher onde a ventania a levará. Há quem diga que esse filme é um híbrido de “O Rei da Comédia” com “Taxi Driver”.

Pois bem, ouso incluir mais um filme nessa mistura explosiva: A Conquista do Planeta dos Macacos (Não me peçam para dar spoilers, por favor). Estamos em tristes tempos, numa época em que tudo, até a flatulência, pode ser politizada. Pessoas das mais diferentes orientações políticas tentaram, e falharam miseravelmente em usar CORINGA como cavalo de batalha em suas cruzadas particulares. Pois bem, não deu certo.

O palhaço é bicho xucro, uma força caótica e incontrolável, brutal, aleatória, impiedosa. Se essa turma lesse os quadrinhos, saberia disso. Num primeiro momento, os justiceiros sociais tentaram associar a imagem do bilionário Thomas Wayne, pai de Bruce, o futuro Batman, com a de Donald Trump. Não deu certo. Depois, face ao sucesso do filme, aclamado pelo público e pelo júri do Festival de Veneza, no qual ganhou o prêmio máximo, tentaram fazer do personagem a voz dos oprimidos. Também não deu certo. O sujeito é, por conta de múltiplas circunstâncias, um louco assassino que está pouco ligando para causas políticas ou visões de mundo. Um ser que perdeu qualquer laço com a humanidade.

Percebendo a sinuca de bico em que se meteu, a access media (a mídia de acesso, os formadores de opinião com acesso franqueado a grandes corporações, aos caras que, literalmente, mandam no mundo. Algo vagamente traduzido como “mídia chapa branca”) mudou de estratégia e passou a demonizar o filme. Sim, por incrível que pareça, esses “gênios” da comunicação começaram uma campanha contra o filme, inicialmente alertando sobre sua violência (ai meu Deus! Que horror! Um filme sobre um maníaco assassino que tem violência!). Isso lembra demais o incidente da morte de Santiago Andrade, cinegrafista da Rede Bandeirantes de TV em 2014.

Os blackblocks são como o Coringa. Nas manifestações saem semeando o caos e a destruição. Durante os protestos de 2013-2014, personalidades da mídia os apoiavam cinicamente. Eles eram “a voz das ruas”, “heróis do povo”... Até dispararem covardemente um rojão contra a cabeça de um profissional de imprensa que só estava fazendo seu trabalho. Dali em diante, toda a essa rapaziada engajada, moralmente superior e que é “só amor no coração”, começou a olhar para cima, assoviar, e sair de fininho. Bom, nem todos. Eu vivi para ver uma “influenciadora digital” orientar seus seguidores a obedecer aos blackblocks, há pouco mais de um ano. E chegamos aos tomates podres mais fedorentos da mídia do entrentenimento: O site Rotten Tomatoes.

Fundado em 1999, esse site, junto com o IMDB e outras fontes sobre cinema, era uma boa ferramenta de pesquisa sobre o cinema mundial. Infelizmente, tudo mudou nos últimos dois ou três anos. O site tem se transformado em um fantoche das grandes corporações de entretenimento e dos justiceiros sociais que as controlam, com a premissa de que o entretenimento precisa ser politicamente engajado, desde que, é claro, seja engajado nas causas deles.

O Rotten Tomatoes funciona através da média de aceitação pelo público e pela crítica de um filme ou seriado de TV. Produções que atingem pelo menos 60% de aceitação no “tomatômetro” são consideradas “frescas” ou “boas para o consumo”, indicadas por um tomate vermelho e viçoso. Pontuações abaixo desse valor são consideradas podres e representadas por um tomate verde esmagado. O período 2018-2019 parece marcar o pior momento da história do site, num divórcio nunca antes visto entre público e crítica.

Na semana de estreia, Coringa obteve uma cotação de 44% dos “top critics”, ou seja 22 de cinquenta críticos gostaram. 28 detestaram, alegando que o filme é racista, misógino, que apenas caras sem namorada, de preferência brancos, podem gostar dele, que é um incentivo à violência esse tipo de coisas. Já, em relação ao público em geral, num universo de 36.663 frequentadores de cinema, 90% gostaram do filme. Há um padrão aí.

O coringa é o blackblock que eles não conseguiram controlar. As patéticas tentativas de alienar o público desse filme saíram pela culatra. Numa cotação de 22/10/2019, até mesmo a crítica especializada se rendeu: de 493 críticos 68% deles agora consideram o filme de boa qualidade, enquanto 89% do público acha o mesmo. E isso é muito interessante, levando em conta que esse é o mesmo Rotten Tomatoes que deu 72% de aceitação para o primeiro episódio de Batwoman, enquanto o público em geral deu 8%. Situação similar aconteceu também com os seriados “Star Trek” Discovery, e com a última temporada de Doctor Who. O que todas essas produções tão amadas pela crítica têm em comum? Priorizam uma agenda política ao invés de entretenimento. E quem não gostar vira racista, misógino, homofóbico, feio, bobo, com caspa e mau hálito.

O que o Rotten Tomatoes e outros luminares da falsa virtude não entenderam é que o povo quer se emocionar. O povo quer liberdade de escolha. O povo quer entretenimento, nem que sejam por míseras duas horas. Se o povo quiser panfleto, ele entra num diretório acadêmico, não em um cinema. Mas, acima de tudo, o que eles não entendem, é que não é impondo seus valores de cima para baixo que eles conquistarão a massa que deseja apenas se divertir um pouco após uma semana pegando busão lotado e ralando para pagar as contas do mês. A crítica e seus “mecenas” vivem numa bolha, numa torre de marfim, seguros, isolados da “plebe” que dizem representar, mas da qual, na realidade, querem mais é distância. O que eles não conseguiram entender é que o filme fala sobre a falta de empatia e compaixão, as mesmas qualidades que eles tanto arrotam, mas que dificilmente demonstram sem que isso lhes conceda alguma vantagem política ou econômica. Todd Philips, diretor do filme, foi categórico: "a comédia está morta. É impossível rir impunemente nos dias de hoje."

No fim das contas, assim como seu protagonista, o diretor não teve escolha. E o resultado foi que ele transmutou o patético em trágico. Coringa é uma sátira a esses tempos insanos em que vivemos, nos quais famílias vivem enjauladas e monstros andam à solta. Uma sacudida brutal, mas necessária, da qual saímos aliviados, quando as luzes se acendem na sala de cinema. Resta agora saber se será o suficiente para desentocar essa intelligentsia (ou ignorantisia?) de sua torre de marfim e fazê-los olhar de verdade para o mundo que ajudaram a criar. Vida longa e próspera e que a força esteja com você. Até outra hora. Fui!

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