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Opinião

Corre a Bolívia o risco de uma guerra civil?

Por Alexandre Aguiar
Última atualização: 11.11.2019 às 19:12

A renúncia do agora ex-presidente Evo Morales domingo à tarde mergulhou a Bolívia no caos, em um limbo jurídico e desestruturou o sistema político já fragilizado do país. O ano que começou com a expectativa que o presidente da Nicolás Maduro, principal aliado de Evo no continente, pudesse cair acabou por testemunhar sim o mandatário boliviano e não o venezuelano deixando o cargo.

Evo Morales e seu Movimiento al Socialismo (MAS) construíram sua própria ruína. Ao seguirem ipsis literis a cartilha chavista de perpetuação no poder, testaram os limites da institucionalidade e afrontaram a democracia. Em plebiscito, o povo boliviano disse não à proposta de emenda constitucional que permitiria a Evo buscar mais uma reeleição, mas, não satisfeito, recorreu ao Judiciário e obteve uma decisão favorável sob o argumento um tanto frágil que era seu direito humano concorrer. Evo detinha, assim, uma legitimidade tecnicamente legal que o fazia ser reconhecido pelos demais países, mas, internamente, o malabarismo jurídico desintegrou sua legimitidade aos olhos de parte da população.

O grande teste seria nas urnas na eleição presidente do último mês. Enfrentava o opositor Carlos Mesa, um ex-presidente e de perfil centrista, e Evo obteve exatamente os 10% de vantagem na apuração que garantiriam sua reeleição em primeiro turno. O processo foi de imediato colocado sob suspeita com a interrupção da apuração por horas e a retomada com resultados amplamente favoráveis a sua pretensão eleitoral enquanto proliferavam nas redes vídeos de fraudes em urnas e atas de seções eleitorais.

A eleição estava sob suspeição. E o que se seguiu, dia a dia, foi a derrocada gradual de Evo. As manifestações de rua tomaram corpo, a Organização dos Estados Americanos (OEA) começou uma investigação da eleição e a polícia se amotinou, juntando-se nas ruas aos protestos oposicionistas. Sua capacidade de liderar o país ruía.

Enquanto isso, em meio à oposição, a figura que mais crescia não era do candidato oposicionista, mas de um grande empresário radical de extrema-direita religiosa, católico e com laços com pastores evangélicos, envolvido no escândalo do Panama Papers de empresas off-shore, acusado de formar uma milícia em Santa Cruz de la Sierra com violações de direitos humanos, e se não bastasse tudo isso ainda de ter preconceito contra os povos indígenas originários. Seu nome: Luis Fernando Camacho Vaca, o “El Macho”.

Na manhã do domingo, o parecer da OEA sobre as eleições saiu. Confirmou-se a fraude. Imediatamente, os pedidos da oposição se avolumaram não mais por novas eleições e sim pela renúncia de Evo Morales. “El Macho” ingressou no palácio presidencial, ajoelhou-se sobre a bandeira boliviana com a Bíblia e uma carta de renúncia em cena patética. Só que naquele momento Evo já se preparava para anunciar pela televisão que deixava o poder para, alegadamente, restaurar a paz social. Evo havia perdido o comando do país depois de os comandantes da polícia e das forças armadas terem vido a público reforçar o pedido da oposição pela sua renúncia.

Imediatamente, o debate se instalou se houve ou não um golpe de estado na Bolívia. Sim, houve. Mais de um! Fraudar eleição é golpe e foi o que Evo fez. Veio o contragolpe com sua saída forçada do poder pela pressão das forças públicas. Respondeu-se a um atentado à democracia com outro. Ação e reação. Só há vilões entre os personagens desta crise. A única vítima, de fato, foi a democracia boliviana. E somente uma nova eleição, que a OEA já exige, mas de realização incerta, pode resgatar um mínimo de ar democrático.

Na origem de tudo, o desejo de Evo Morales perpetuar-se no poder. Tentar mais um ciclo no poder testou todos os limites da institucionalidade. De ignorar plebiscito contrário a mais um mandato a fraudar eleição. Esticou tanto a corda que ela se rompeu. Não tivesse havido fraude, a eleição acabasse em 40% a 40%, possivelmente a Bolívia não estaria mergulhada no caos de hoje.

A carta de renúncia de Evo Morales entregue ao Poder Legislativo chamou a atenção, diante do debate que se instalou sobre um golpe militar. Evo acusa ter sido vítima de um “golpe político, cívico e policial”. Não há qualquer menção aos militares das forças armadas. Os militares pediram a renúncia, verdade, mas é importante sublinhar não foram além disso. Não houve tanque nas ruas. Militares não tomaram rádios e canais de tevê. Não cercaram Legislativo. Não tomaram palácio presidencial. Nem tampouco formaram uma junta de governo, assim como nos golpes militares clássicos da América Latina.

Protagonistas principais do movimento de reação golpista foram as forças policiais e as milícias do movimento cívico de Camacho que patrocinaram cenas de barbárie nas horas que antecederam a queda de Evo como jornalista amarrado em árvores, tomada de rádios e tevês, incêndios em casas de políticos ligados a Evo e até familiares de políticos feitos reféns. Em uma das cenas mais grotescas, selvagens e medievais, a prefeita da cidade de Cochabamba teve os cabelos cortados à força, foi suja com tinta na face e forçada a andar de pés descalços pelas ruas, ladeada por milicianos.

Hoje, a Bolívia é um país acéfalo, sem rumo e afundado numa espiral de violência. Está numa encruzilhada de interesses políticos e econômicos internos, e geopolítico externos. Não há somente uma disputa de poder político em curso. Há componente econômico. A principal face do golpismo de extrema-direita religiosa, Luis Fernando Camacho, perdeu fortuna quando Evo nacionalizou os hidrocarbonetos, principal interesse do Brasil no país devido ao gás que se soma ao interesse político de ver um governo ideologicamente não alinhado eliminado, como ocorre com os Estados Unidos. Venezuela, Cuba e outros que são governados pela esquerda, por óbvio, seguem caminho diverso. China, com grandes interesses de investimento no país, e Rússia que planejava construir uma usina nuclear na Bolívia, igualmente estão insatisfeitas com os rumos da crise.

É fácil sentenciar: não vai dar certo!

Ao tentar se manter no poder, Evo fragilizou a democracia já frágil. A oposição, como resposta, promoveu a ruptura.A Bolívia teve nada menos que 85 presidentes em 193 anos de independência. Só entre 2001 e 2005 foram cinco. Carlos Mesa, que pretende chegar ao poder no lugar de Evo, já foi presidente após renúncia do antecessor e durou somente um ano do poder, tendo também renunciado. Quem assumir na Bolívia não vai conseguir governar e o ambiente será de permanente crise e instabilidade com provável alternância de nomes no poder em curtos períodos.

O risco maior, entretanto, é de uma conflagração civil. Entre nossos vizinhos, a Bolívia é o país, seguramente, mais complexo. O que ocorre lá não pode ser interpretado apenas sob a tentação fácil e simplista de se enxergar cada crise por um simples embate entre direita e esquerda. Existem duas Bolívias. A do Altiplano e de Santa Cruz com diferenças geográficas, políticas, econômicas, sociais, étnicas, etc. Evo é o Altiplano indígena. Dos povos originários. Da cultura Pachamama. Camacho, o fanático religioso de extrema-direita, representa a elite empresarial e ruralista de Santa Cruz.

Santa Cruz jamais tolerou Evo Morales. El Alto e La Paz, no Altiplano, jamais toleraram o modelo proposto pelo establishment de Santa Cruz. Se os dois segmentos nacionais entrarem em confronto aberto, a Bolívia pode experimentar um banho de sangue. Seja por um conflito fratricida na forma de uma guerra civil ou pelo surgimento de guerrilhas. Em El Alto, na onda de violência que seguiu à queda de Evo, alguns de seus apoiadores já gritavam nas ruas “guerra civil”. Um péssimo sinal do que está por vir.

A Bolívia agoniza! Triste.

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