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Ivania trabalha na roça, faxina casas e corre 50 km montanha acima

Moradora de Feliz começou a correr há cinco anos. Hoje, incorporou na rotina ultramaratonas em altas altitudes. Ela tenta conseguir dinheiro para competir no mundial, em setembro, na Itália

Por Ermilo Drews
Publicado em: 06.08.2022 às 08:00 Última atualização: 06.08.2022 às 15:04

É da produção de morangos e da lida de faxineira que Ivania Rambo, 38 anos, paga as contas. As manhãs são dedicadas ao cultivo da fruta na propriedade da família na cidade de Feliz. Às tardes, faz faxina em dois locais. O serviço da casa fica para o meio-dia. Puxado, né? Mas no caso de Ivania, Rambo não é só um sobrenome. Está mais para cartão de visitas.

Com cinco anos de treinos, ela corre distâncias acima de 50 quilômetros em montanhas com mais de 2 mil metros de altura. E vence. É campeã gaúcha deste estilo de corrida e foi selecionada para competir no mundial da modalidade, chamada skyrunning (corrida no céu). Será na Itália, em setembro.

Ivania trabalha na produção de morangos, faz faxina em duas casas e participa de ultramaratonas em altas altitudes
Ivania trabalha na produção de morangos, faz faxina em duas casas e participa de ultramaratonas em altas altitudes Foto: Foco Radical e Arquivo Pessoal
Com salário contado e competindo num esporte que não atrai patrocínios vultosos, Ivania não tem os R$ 14 mil necessários para custear a hospedagem e a viagem à Europa, a primeira dela representando uma delegação brasileira. Por isso, amigos organizaram uma vaquinha virtual para tentar arrecadar o valor. Enquanto sonha acordada na esperança de competir fora do Brasil, Ivania dorme pouco.

Durante a semana, a atleta acorda às 4h30. Intercala corridas de 10 a 12 quilômetros com treinos de 40 quilômetros na bicicleta. "Isso é para evitar o desgaste que o impacto da corrida causa", explica.

Mas o dia está apenas começando. Pelas 7h, Ivania toma o segundo café da manhã para, em seguida, começar a labuta no cultivo dos morangos. "Atualmente, estamos na colheita." Ao meio-dia, faz almoço, limpa a casa. Depois, dedica-se às faxinas. "Ainda fico uma hora na roça e depois vou para musculação." E aos finais de semana, quase nada de descanso. Nas manhãs de sábados, os percursos da corrida aumentam, chegando a 30 quilômetros. Aos domingos, quatro horas de pedal pelas manhãs. "Só tenho folga nas tardes de domingo", resigna-se.

O INÍCIO

E o segredo de tanta disposição? "São os morangos", brinca. Churrasco com direito a um granitinho também entram no cardápio. Mas só eventualmente. Além da alimentação nem sempre balanceada e da tenacidade, Ivania tem outras credenciais que transformam o sobrenome Rambo em predicado.

O início na corrida é precoce, mas no esporte não. "Comecei a ir de bicicleta para escola aos 8 anos. Quatro quilômetros, todos os dias. Depois joguei futebol e segui na bicicleta", lembra. Há dez anos, ela entrou na academia porque tinha o sonho de ganhar músculos.

As corridas na esteira a levaram para uma rústica de 10 quilômetros há cinco anos. O segundo lugar no geral despertou o desejo de seguir em frente. Dez quilômetros viraram 21. Os 42,195 quilômetros da maratona ficaram mais fáceis. Veio a corrida em trilhas. E das trilhas, apareceram as montanhas. "O meu corpo se adaptou muito bem para este tipo de corrida. E o esporte tem disso. Quanto mais tu pratica, mais tu quer praticar. Eu faço por prazer. Chego acabada dos treinos, mas realizada."

PAISAGENS AJUDAM

E por mais que exija fisicamente, Ivania prefere correr morro acima do que ao nível do mar. "É bem mais desgastante, mas a conexão com a natureza faz com que a gente se sinta mais leve, não fica repetitivo. Pode fazer o mesmo percurso umas dez vezes, mas sempre vai encontrar uma coisa diferente no caminho. Vai ter água, lama, pedra, a paisagem muda. No asfalto, é tudo muito igual", afirma.

Ajuda profissional da comunidade

A atleta acredita que o histórico de atividade física facilitou a adaptação a corridas de longas distâncias, mas credencia a evolução nestes cinco anos ao suporte que tem recebido de profissionais da comunidade. Por meio de parcerias, ela recebe atendimento gratuito de nutricionista, massoterapeuta, quiropraxistas e fisioterapeuta. O treinador também não cobra pelo serviço. A academia também é parceira. "Foi a partir disso que realmente dei um salto."

Saiba como ajudar Ivania a viajar

O Mundial de Skyrunning será em setembro, no Vale de Ossola, Itália. Ivania compete no dia 10. Será a primeira prova internacional da modalidade e representando a seleção brasileira dela. Como não há apoio financeiro aos competidores, amigos lançaram a vaquinha virtual, que pode ser acessada em vakinha.com.br/2996456, com o objetivo de conseguir R$ 14 mil para passagem e hospedagem. A viagem será em 5 de setembro.

Entenda o esporte

Skyrunning conta com mais de 95 mil participantes no mundo
Skyrunning conta com mais de 95 mil participantes no mundo Foto: Trail Running Club Brasil/Divulgação
O ato de subir e descer montanhas existe há séculos. No entanto, a ideia de desenvolver um esporte a partir da prática é mais recente. Nasceu com a lógica de atingir o pico mais alto de uma cidade no menor tempo. Coube ao alpinista italiano Marino Giacometti criar a modalidade no começo da década de 1990.

Desde lá, o skyrunning decolou pelas cordilheiras do mundo em corridas que se estendem por locais como Himalaia, Montanhas Rochosas e até vulcões. Como o nome sugere, é o esporte onde a terra e o céu se encontram. Hoje, ocorrem 300 corridas oficiais em todo mundo, com 95 mil participantes de 65 países.

A International Skyrunning Federation (ISF) define o esporte como a modalidade de corridas na montanha acima de 2.000 metros O percurso deve apresentar uma série de características e condições, dependendo da quilometragem da prova. Pode ter trilhas, rochas ou neve, e não deve contar com mais de 15% de asfalto.

De acordo com a ISF, o skyrunning vai além do atletismo, já que não salienta apenas a corrida, mas também a distância, a altitude e o relevo, com inclinações e desníveis, o que exige muita técnica dos praticantes. "A gente chega no topo das nuvens correndo", resume Ivania.

Treinos adaptados para encarar altas distâncias e elevações

Para competir em altitudes elevadas, Ivania precisa adaptar seu treino. Ela costumar dirigir 25 quilômetros até morros nos arredores de Feliz para correr. "Especialmente nos sábados, quando os treinos são mais longos, fico subindo e descendo montanha. Cheguei a fazer isso oito vezes no mesmo morro na mesma manhã."

Na Itália, ela terá que correr 61 quilômetros numa elevação máxima de quase 3,8 mil metros. Trata-se de um altitude superior à capital boliviana La Paz. Ivania admite que este tipo de corrida exige fisicamente. "Já cheguei a ficar com muito enjoo pela exaustão." O maior percurso completado por ela em montanha com 2,9 mil metros foi de 55 quilômetros, feito em 6 horas e 9 minutos.

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