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Notícias | Região ESTIAGEM

Barragens podem ser a solução para o Rio dos Sinos?

Especialistas explicam que não há como construir no Baixo Sinos - onde São Leopoldo, Novo Hamburgo e Campo Bom estão localizados, por exemplo -, mas apontam outras alternativas

Por Priscila Carvalho
Publicado em: 29.01.2022 às 03:00 Última atualização: 29.01.2022 às 14:49

Quase todo o verão intenso, que traz consigo períodos de forte estiagem, o tema vem à tona. Os baixos níveis dos mananciais da região preocupam, agricultores têm a produção comprometida, a população se assusta com a possibilidade de racionamento de água e as opiniões sobre qual a melhor solução para evitar desabastecimentos se multiplicam. Entre eles, o questionamento que mais se observa é por que não construir uma barragem no Rio dos Sinos?

Para quem é leigo no assunto, a alternativa parece de fácil execução e propícia para São Leopoldo e arredores. Mas especialistas explicam que não é bem assim e apontam estudos que vêm sendo feitos para indicar outras alternativas para o nosso rio.

Imagem aérea do Rio dos Sinos, na altura de São Leopoldo
Imagem aérea do Rio dos Sinos, na altura de São Leopoldo Foto: Marcelo Collar/GES-Especial

Relevo

Um dos principais motivos que impede a construção de uma barragem no Baixo Sinos - que compreende a região de Campo Bom, Novo Hamburgo, São Leopoldo, Sapucaia do Sul, Esteio e Canoas, por exemplo - é o relevo.

Engenheiro do Serviço Municipal de Água e Esgotos (Semae) de São Leopoldo, Ronan de Jesus esclarece que para construção de barragens em regiões de planície, de baixas declividades, como é o caso do Berço da Imigração Alemã no País, seria necessário alagar uma grande porção de área, devido a pequena cota de alagamento possível, indo à área de alagamento além dos diques, inundando parte do município onde há bairros residenciais já constituídos, sendo uma alternativa inviável tecnicamente.

"Locais com relevos mais acidentados, com altas e médias declividades são mais propícios para serem instalados barramentos, onde há a possibilidade de alagamento de uma porção de área menor com cotas de alagamento maiores, tendo assim uma concentração de grande volume em uma pequena área. Como é o caso da porção do Alto Sinos", colocou o engenheiro.

Diques

Ronan também lembra que uma barragem teria interferência direta com o sistema de proteção contra as cheias do Rio dos Sinos, uma vez que boa parte de São Leopoldo é protegida por este sistema contra enchentes — como as históricas de 1941 e 1965, que deixaram a área central embaixo d'água. "A construção de barragem em São Leopoldo, caso fosse viável, ajudaria a resolver o problema em períodos de estiagem, porém geraria um problema maior que é o comprometimento dos diques, podendo causar um desastre de níveis maiores do que o da escassez de vazão do Rio dos Sinos", ponderou.

Alto Sinos

"Desta forma, para que o problema de escassez hídrica seja mitigado no Baixo Sinos, que englobam municípios que dependem diretamente do Rio dos Sinos para captação de água para tratamento e consumo humano no vale e região metropolitana, a opção por construção de barragens tem maior viabilidade técnica com implantação na porção do Alto Sinos, nas regiões de maiores elevações. Desta forma, estas estruturas ajudariam a regularizar as vazões nestas localidades", analisa Ronan.

Além disso, o engenheiro também salienta que qualquer construção que envolva alterações no Rio dos Sinos, bem como suas margens ou cursos de água que contribuem ao rio, deve primeiramente passar por análise do Comitesinos e pelos órgãos de controle, "uma vez que tais construções impactam de forma direta ou indireta todos os municípios localizados dentro da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos". "Não sendo desta forma, uma simples decisão do gestor municipal, devendo ser tomado de forma coletiva pelos integrantes do Comitesinos e chancelado pelos órgãos de controle", destaca o especialista.

Onde ficam as barragens do Alto Sinos

Estruturas existentes já contribuem para que a situação da estiagem não seja ainda mais devastadora para as cidades abastecidas pelo Rio dos Sinos. 

Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos
Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos Foto: Arte/Alan Machado

Projeto prevê a revitalização das bacias

Recentemente, conforme Hener, ainda houve o anúncio de um projeto de revitalização de bacias, focado nas bacias do Sinos e Gravataí, encabeçado pelos governos federal e estadual. O intuito é o de disponibilizar recursos para aumentar a segurança hídrica e melhorar qualitativa e quantitativamente a água desses mananciais, com soluções mais abrangentes e integradas entre solo e água. "Não prevê barragens, mas pensa em reter a água da bacia através do aumento de vegetação, e recuperação de mata ciliar e recomposição de áreas degradadas, por exemplo", disse Hener. A proposta do projeto, entretanto, seria a de recuperar e conservar as águas que retêm os aquíferos. "Seria uma medida para recuperar os aquíferos, mas não tenho certeza se ajudaria na necessidade que temos de abastecer a população", opinou Hener.

Redução dos banhados é um dos problemas

Representante do Comitesinos, o engenheiro agrônomo, ecologista e membro do Movimento Roessler para Defesa Ambiental, Arno Kayser, observa ainda as questões ambientais que fizeram o Sinos chegar ao que está hoje, e o que está ligado ao meio ambiente e também pode ajudar a retomar a conservação do manancial de forma mais barata e prática.

Kayser ratifica a ideia de que não podemos ter barragens no Baixo Sinos, lembrando que uma construção dessas acabaria com o resto de banhado que temos. "O grande problema do Sinos é que 70% dos banhados naturais foram secados nos últimos 30, 40 anos. Com isso, perdemos a capacidade natural de reter água", lamentou, citando que estamos, cada vez, mais devastando as áreas nativas, não só na região, como em todo o Estado. Tudo isso, prejudica o solo, principal agente para 'segurar' a água. "A melhor barragem, a melhor caixa d'água que podemos ter é o solo. Um metro quadrado de solo tem capacidade para reter até 500 litros de água."

Rio dos Sinos, em São Leopoldo
Rio dos Sinos, em São Leopoldo Foto: Marcelo Collar/GES-Especial

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