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Notícias | Região História de vida

As memórias do morador de Novo Hamburgo que foi soldado no canal de Suez

Filho de imigrantes sírios, Gilberto Abrão integrou batalhão da ONU na década de 1960. Aos 78 anos, é professor de inglês e árabe e escritor

Por Matheus Chaparini
Publicado em: 30.03.2021 às 05:00 Última atualização: 30.03.2021 às 12:03

Aos 78 anos, o ex-soldado guarda a boina azul da ONU, dois certificados militares e muitas histórias do Oriente Médio Foto: InÉzio Machado/GES

Por meio de emissoras de TV internacionais, Gilberto Abrão logo ficou sabendo do encalhe do navio Ever Given no canal de Suez, na terça-feira (23) passada. Por hábito, quando não está trabalhando, acompanha os noticiários árabes. De imediato, vieram à mente memórias do tempo em que viveu naquela região.

Filho de imigrantes sírios, Gilberto Abrão nasceu brasileiro, em Curitiba, passou boa parte da infância na Síria, e depois retornou ao país natal. Aos 20 anos, voltou ao Oriente Médio. Dessa vez, fardado.

Como soldado, serviu durante um ano e quatro meses, entre 1963 e 1964, no chamado Batalhão Suez, que integrou a Força de Emergência das Nações Unidas. Atuou principalmente em Rafah, na Faixa de Gaza.

Por falar inglês e árabe, ficou em um pelotão equivalente à Polícia do Exército. Por ser um brasileiro bem-humorado, ganhou a confiança dos nativos.

"Foi um dos períodos mais gostosos da minha vida. Eu era convidado para casamentos e até festas de circuncisão."

Aos 78 anos, Abrão vive em Novo Hamburgo, é professor de inglês e árabe e escritor. Prepara o lançamento de seu quinto romance, Mussurumim. Do tempo de soldado guarda a boina azul, dois certificados da ONU na parede e boas histórias.

Anti-herói

Abrão faz questão de começar a conversa derrubando o mito do soldado-herói.

"Muitos dos pracinhas de Suez dizem que voltaram como heróis. Aqui entre nós dois – e o público em geral – não eram heróis nada. O pracinha de Suez herói combatente não existe. Não havia combate, éramos uma força de paz", recorda.

Ele descreve um alto padrão de vida. Uísque escocês, cigarros americanos, loção pós-barba de marca cara e cafés da manhã muito bem servidos.

Morte em passeio até as pirâmides

Nos dias de folga, os soldados aproveitavam para passear. O principal destino era a capital, Cairo. Abrão conta que muitos soldados, boa parte de origem humilde, tiveram oportunidade de conhecer a Europa durante a missão.

Abrão lembra de um companheiro de missão que voltou ao Brasil como herói – talvez o único. De folga, um grupo foi visitar as pirâmides, no Cairo. Havia uma tempestade de areia e o guia os orientou a não subir. Um dos soldados decidiu subir.

"Ele foi empurrado pelo vento e caiu pirâmide abaixo. Morreu. Voltou com a bandeira brasileira em cima do caixão: herói. Como se tivesse morrido em combate, morreu de burrice, de teimosia."

 

No trem, um bebê quieto demais

Em um dos episódios mais tensos no Oriente Médio, Abrão foi destacado para uma missão de investigar o tráfico de haxixe. Pegou um trem da Faixa de Gaza ao Cairo, acompanhado de um sargento dinamarquês.

Ao longo da viagem, desconfiou de uma senhora, que carregava um bebê de colo. A criança não chorava, não se mexia e não ganhava "mamá". Ficou desconfiado.

"Nós alertamos a polícia e eles vieram. O nenê estava gelado. Abriram a roupa, tinha um buraco na barriga, mal costurado, estava morto. Dentro, encontraram dois ou três quilos de haxixe."

 

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