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Notícias | Região Xô, estiagem

Aposentado cria sistema de reserva de água que funciona por gravidade

Administrador de empresas aposentado criou sistema de reservação de água que funciona por gravidade para estar preparado em caso de incêndio na propriedade rural. Incêndio nunca foi problema, nem estiagem. Para quem não consegue investir, governo oferece programas

Por Ermilo Drews
Publicado em: 24.11.2020 às 07:00 Última atualização: 24.11.2020 às 08:34

Seu Maurino instalou cinco reservatório que, somados, garantem 95 mil litros de água da chuva Foto: Ermilo Drews/GES-Especial
Nos últimos 30 anos, a Defesa Civil do Estado foi acionada mais de 3,6 mil vezes por problemas causados pela estiagem. Ou seja, o fenômeno climático é algo comum no Rio Grande do Sul, especialmente no verão, quando costuma chover pouco e as altas temperaturas fazem com que a água evapore mais rápido. Apesar disso, muita gente segue sofrendo com a situação por falta de investimento em sistemas de reservação de água e de irrigação. Cenas de lavouras perdidas e de caminhões-pipas abastecendo comunidades são corriqueiras em períodos de estiagem severa, como foi a última e deve ser a próxima. E isso é algo que incomoda Maurino Ferreira, um sujeito que já viveu 85 anos e que nas últimas décadas só conhece os efeitos da estiagem pelo jornal.

Seu Maurino construiu a vida como contabilista e administrador de empresas. Em 2000, comprou um sítio de dois hectares em Morro dos Bois, localidade de Lomba Grande, e voltou a relembrar o tempo que era guri e a família vivia nos arredores de Tubarão, em Santa Catarina, e sobrevivia daquilo que a terra dava. Só que lá a falta de chuva não era um problema. Mas no Rio Grande do Sul, sim. Assim, em 2005, ano que o Estado viveu uma das maiores estiagens recentes, Seu Maurino resolveu não depender mais de São Pedro, pelo menos não no verão. Foi então que, mesmo com três poços artesianos já perfurados na propriedade, ele teve uma ideia que parece banal, mas que muita gente ignora e que, no caso dele, funciona até hoje. "Vou guardar água da chuva, ora."

E assim foi feito. Ele instalou quatro reservatórios de água com capacidade para 20 mil litros cada e mais um de 15 mil litros que são abastecidos por um sistema de calhas e tubulação instaladas nas três casas da propriedade. Toda a transferência da água acontece por gravidade, já que o terreno fica num declive. Assim, quando chove, a chuva e a gravidade fazem todo o trabalho. "Cada uma das três casas têm suas calhas que abastecem uma respectiva caixa d'água. Além disso, os próprios reservatórios são conectados. Desta forma, quando tem excedente na caixa do meu filho, a água desce pra minha e o mesmo acontece até chegar ao campo de futebol, que é irrigado pela água reservada no último reservatório, que é um pouco menor", conta, com orgulho.

Além de irrigar o campo, estar disponível para a plantação de aipim, feijão e amendoim, molhar as árvores frutíferas e ser usado em serviços como lavar o carro, os quase 100 mil litros de água coletados da chuva estão à disposição do Corpo dos Bombeiros. Inclusive, a ideia do sistema não nasceu por causa da estiagem, mas pelo receio de não ter água disponível se acontecesse um incêndio na propriedade. "Andei por muitas empresas na minha vida e via a preocupação delas em ter um sistema eficaz para combater incêndios. Então pensei, e se der um aqui, como os bombeiros vão se virar. Daí usei a gravidade e o que aprendi na vida. Todos os reservatórios têm saída no tamanho certo para conexão com as mangueiras usadas pelos bombeiros." Prevenção que, felizmente, não precisou ser colocada em prática. "Nunca precisei dos bombeiros. Já dá água... O bom é que água nunca faltou aqui."

Depois que o sistema do Seu Maurino se mostrou eficaz, vizinhos do entorno começaram a implantar a ideia. "Sei de quatro aqui ao redor que fizeram. É algo que fica e evita este transtorno de falta de água tão comum no verão em muitos lugares", recomenda.

''As pesssoas não precisam ficar reféns do tempo''

Maurino Ferreira atesta que investimento vale a pena Foto: Ermilo Drews/GES-Especial
O "homem das caixas d'água" não sabe precisar quanto investiu em 2005 para tirar a ideia do papel, mas em lojas especializadas e sites de compras na Internet, reservatórios de 20 mil litros semelhante aos instalados na propriedade dele são vendidos entre R$ 6 mil e R$ 10 mil. Na época, ele fez todo o investimento com a reserva que tinha de anos de trabalho.

Apesar de saber que nem todo mundo tem capacidade financeira para realizar tal investimento, Seu Maurino garante que quem pode, deveria pensar em formas de reservar água. "Vale a pena porque tem a segurança que vai ter algo vital. Se um dia houver um problema de energia elétrica aqui e não tiver acesso à água dos poços, tenho alternativa. Há filtros em todas as calhas e com um tratamento simples ela é potável", atesta, frisando que recebe "consultoria" da filha, que é química, em relação ao tratamento. "Com um pouco de investimento, as pessoas não precisam ficar reféns do tempo", defende.

La Niña fez a estiagem chegar mais cedo

Com o fenômeno La Niña já agindo, alterando o volume e a distribuição de chuva no Estado, a estiagem chegou mais cedo neste ano e deve afetar também a região, com algumas localidades podendo ficar sem acesso à água potável.

O prognóstico aponta que o fenômeno atingirá o Estado especialmente entre novembro e janeiro, mas os seus efeitos serão sentidos por mais tempo, com diminuição dos efeitos do La Niña somente ao longo do próximo outono. Atualmente, 63 cidades gaúchas decretaram situação de emergência por causa da estiagem, especialmente na região noroeste, que deve sofrer os maiores danos agrícolas.

Estado carece de cultura de irrigação

Agrometeorologista da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr), Loana Cardoso admite que, de maneira geral, os produtores gaúchos não costumam se prevenir para tempos de estiagem, como Seu Maurino faz. "Aqui no Estado ainda se tem aquele pensamento de que no ano passado a safra foi boa e vai se deixando para depois este tipo de investimento. Falta uma cultura de produção irrigada."

Nem todos conseguem investir

Além de uma questão cultural de investir em algo que talvez não se mostre necessário, muita gente que precisaria de reservação de água e irrigação, especialmente no interior, não o faz por questões econômicas. De janeiro de 2019 a outubro de 2020, por exemplo, a Secretaria Estadual da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr) distribuiu 339 kits de irrigação a pequenos produtores gaúchos. O montante investido foi de R$ 3,2 milhões, o que representa pouco menos de R$ 9,5 mil por kit. Um valor que pode pesar a produtores descapitalizados.

Ainda assim a Seapdr afirma que quase triplicou o número de poços perfurados no último ano e desde janeiro de 2019 já construiu 1.397 microaçudes em propriedades de agricultores familiares. Outros 150 estão previstos até dezembro.

Programas de redução do déficit hídrico

O governo do Estado desenvolve uma série de programas para redução do déficit hídrico. Confira abaixo os principais.

Redes de Água: tem por objetivo ampliar e qualificar o acesso e o uso da água. Neste ano, sete obras estão sendo licitadas para poços e rede de distribuição de água, totalizando R$ 6,5 milhões, beneficiando 500 famílias assentadas da reforma agrária. Ainda foram liberados recursos para construção de duas redes de adutoras no valor de R$ 1 milhão. A licitação está em fase de instrução.

Água para Todos: desenvolvido em convênio com o Ministério da Integração Nacional, está em fase de conclusão de um sistema de abastecimento de água em Hulha Negra, que vai beneficiar 200 famílias. Está prevista também a conclusão de duas adutoras no município de Iraí e instalação de um poço na Aldeia Missão.

Mais água mais renda: de 2019 até setembro de 2020 foram aprovados 377 projetos, equivalendo a um acréscimo de 9.632 hectares de novas áreas irrigadas, atreladas a um total de 244 hectares de área alagada, envolvendo a construção, ampliação e regularização de 314 reservatórios hídricos. Desde o início do programa, a área irrigada de sequeiro no Estado foi duplicada.

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