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A fadiga da quarentena existe. E tem explicação

Especialistas apontam fatores que podem estar ocasionando relaxamento do distanciamento social , como questões econômicas, políticas e sociais Reportagem: Bianca Dilly

Se antes observar a rua pela janela era sinônimo de segurança e alívio em meio à pandemia, hoje o vidro e as grades já passam uma sensação diferente para quem consegue manter o isolamento social. Olhar para a vida lá fora, através dessa moldura, assume formas diferentes com o passar das semanas e há quem resolva "tomar um ar", não apenas abrindo uma fresta, mas relaxando nas medidas de distanciamento.

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A típica cena de filme, quando um pedaço de papel voa sozinho pelo asfalto, sem obstáculos, já existiu aqui. Em 22 de março, o índice de isolamento atingiu 69,5% no Estado, segundo monitoramento da In Loco, empresa de geolocalização que usa uma base de dados de dispositivos móveis. Nesta sexta-feira, baixou para 43,6%. Hoje, a bolinha de papel briga por espaço com os veículos e pedestres que voltaram a circular.

A queda, de 23% pontos percentuais (que já foi ainda maior), pode ter algumas explicações. E isso não ocorre só aqui. O termo "fadiga da quarentena" tem se popularizado mundo afora. Para tentar explicar o que pode estar ocasionando esse cansaço de manter o afastamento social prolongado, especialistas nas áreas da Sociologia, Psicologia e Neurociências buscam identificar os fatores que levam a "destravar os cadeados".

Entre os possíveis motivos, o pós-doutor em estudos latino-americanos e professor de Sociologia na Unisinos Carlos Gadea, a pós-doutora em Psicologia Social e Institucional e professora da Universidade Feevale Carmem Regina Giongo e a pós-doutora em Educação em Ciências, com foco em neurociências e educação, além de professora do ensino superior no Instituto Ivoti, Fernanda Antoniolo Hammes de Carvalho, citam a questão econômica e de empregos, aversão ao pânico generalizado, politização da pandemia, estratégias e discursos contraditórios entre os poderes, falta de informação clara, ausência de apoio à saúde mental da população, diferentes estilos emocionais e aspectos comportamentais.

Paciente ficou cinco dias internada no Hospital Schlatter, na cidade de Feliz Foto: Reprodução

Para Gadea, no início da pandemia no Brasil, as informações foram muito impactantes e, perante à incerteza, todos começaram tentando se resguardar. "Até ali, todo mundo apostava perder alguma coisa - relacionamentos, poder aquisitivo, se arriscar com relação ao seu emprego. Apostavam no custo-benefício, priorizando a saúde", inicia. Porém, o tempo foi passando e começou a se perceber os efeitos. "O isolamento teve consequências econômicas e implicações muito fortes. E, para muitas pessoas, já se perdeu muito", justifica. Por isso, a balança do "custo-benefício" começou a ganhar novos pesos. "Não era mais só sobre perder determinadas coisas, mas também sobre não morrer de fome. Aqui não é um esgotamento psicológico, mas uma necessidade concreta. Saio porque tenho que sair", pontua, reforçando ajudas emergenciais mais rápidas e eficientes.

Carmem também frisa a questão econômica. "Em uma pesquisa que li recentemente, mostra que a maioria dos brasileiros concorda com o isolamento, vê ele como necessário, mas existem condições para isso", diz. Aqui, cita como exemplo pessoas que vivem em más condições de moradia, que possuem baixa renda e precisam sair para trabalhar. "Elas têm mais dificuldade de cumprir o isolamento. No Brasil, há desigualdade social, também um fator que dificulta", diz.

Mas há quem não precisa se preocupar com a necessidade financeira de sair para se sustentar e, mesmo assim, insiste em escapar do isolamento. Como explicar? Na análise de Gadea, aqui há um efeito mais psicossocial. "O clima gerado pelas informações que foram chegando, de grande medo constituído, resultou em uma reação não racional de aversão a esse pânico generalizado", avalia. Para o estudioso, é uma atitude que busca aliviar uma realidade incômoda. "Quando se mantém, durante muito tempo, uma sociedade em situação semelhante durante quatro, cinco meses, monotematicamente, submetida a um mesmo tema, a um mesmo grupo de pessoas, chega um momento em que cansam e querem se libertar", analisa.

Ideias do que pode ser feito agora e ações para o futuro

Sobre o que fazer a partir de agora, os especialistas têm ideias distintas. Na visão de Carmem, quanto maior for o índice de isolamento agora, mais rápido se colherá os frutos disso. "Manter esse comportamento significa controlar a disseminação do vírus, reduzir o tempo e poder voltar às atividades antes", pontua. Já para Gadea, manter distanciamento e menor contato é a melhor solução, mas sem que isso seja levado ao extremo. "Não se sabe qual é a receita, mas o lockdown agora me parece contraproducente, pois já passou do tempo", avalia. Fernanda destaca a relação entre neurociências e aprendizagem - seja por meio da família, escola, mídia ou até ações na área da saúde. "Acredito que a educação pode ser repensada nos contextos formais e informais, não só para lidar com a Covid-19, mas para preparar as pessoas a agir imersas nas emergências", conclui.

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