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Notícias | Região Papo de Líder

"Liderar é caminhar junto, é viver a luta do outro"

O maestro Carlos Augusto Pinheiro Souto deixou sua terra Natal, Belém do Pará, para encontrar em Canoas sua missão de vida à frente do projeto Trilhos Sonoros

Por Adriana Zottis
Última atualização: 01.01.2020 às 14:51

Carlos Augusto Pinheiro Souto: "Muitas famílias do projeto Trilhos Sonoros já relataram como a música mudou suas histórias de vida" Foto: Paulo Pires/GES
Doutor em música, o maestro Carlos Augusto Pinheiro Souto foi chamado, recentemente, de militante da educação musical. "Acredito que esse é o meu ideal", confirma. Ele trocou Belém do Pará por Canoas há nove anos e não pretende voltar. Desde 2011 está à frente do projeto Trilhos Sonoros - que atende cerca de 60 crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social - ele diz que encontrou aqui seu propósito. "Já entendo, plenamente, que essa é minha missão: por meio da educação musical promover o cuidado e proteção às nossas crianças e adolescentes. Sei do que a música é capaz, bem como sei que foi ela que me aproximou da Verdade, do Incondicional, da Vida".


1 - Desde quando está à frente dos Trilhos Sonoros?
Carlos Augusto Pinheiro Souto - Em outubro de 2010 fiz a seleção para o mestrado em educação da UFRGS e fui aprovado na seleção. Imediatamente informei minha família e, juntos, começamos a planejar a nova fase. A questão mais desafiadora era deixar os familiares, (pai, mãe, irmãos, tios, tias e amigos). Além do que, naquela época, coordenávamos um trabalho com crianças e adolescentes da periferia de Belém do Pará. Foi uma decisão muito difícil: largar tudo e partir para um novo tempo. Finalmente, depois de muita conversa e orações resolvemos aceitar o desafio e, no dia 17 de fevereiro de 2011, chegamos à Querência Amada.


2. Como foram os primeiros tempos por aqui?
Carlos Augusto - Inicialmente, acreditávamos que após os dois anos de mestrado tudo voltaria à normalidade com nosso retorno a Belém. Contudo, não foi isso que aconteceu. Fomos morar no bairro Mato Grande, onde encontramos uma vila que ainda hoje é utilizada para o descarte de lixo. Trata-se da Vila Araçá. Ali, percebemos a presença de várias crianças que corriam e brincavam próximas daquele lixão. A partir de então, resolvemos iniciar um trabalho de educação musical por meio da flauta doce para crianças e adolescentes da Vila Araçá. Começamos com 11 flautas doces que eu havia trazido de Belém. Iniciamos os trabalhos no primeiro sábado de 2011 em uma igreja cedida aos sábados para as aulas de música. Iniciamos o projeto Trilhos Sonoros, portanto, no dia 12 de março de 2011. Completaremos, em 2020, nove anos à frente do Projeto Trilhos Sonoros.

3. O que te mobiliza neste projeto?
Carlos Augusto - O que me mobiliza no projeto é exatamente poder contribuir com a felicidade de crianças e adolescentes por meio da música. Costumo dizer que a educação musical é capaz de ressignificar a história de vida de crianças e adolescentes. Foi exatamente assim que aconteceu comigo: nasci em uma família humilde em Belém do Pará, mas, com muito esforço de meus pais, consegui meu primeiro instrumento: um trompete. A partir dalí minha vida tomou um rumo que eu jamais imaginei que fosse tomar. As histórias se repetem. Muitas famílias do projeto Trilhos Sonoros já relataram como a música mudou suas histórias de vida. Recentemente, em nosso recital de encerramento, a aluna destaque do projeto disse: a música uniu minha família. É nisso que eu acredito enquanto coordenador do projeto Trilhos Sonoros: não se trata, apenas, de desenvolver a habilidade técnica em um instrumento musical, mas, sobretudo, contribuir com o desenvolvimento das diversas dimensões que compõem o ser humano: cognitiva, afetiva, psicológica, social e espiritual. Isso me motiva a continuar investindo nesse trabalho. No futuro teremos uma cidade com cidadãos sensíveis ao próximo, dispostos a ajudar àquele que precisa, engajados na justiça social, comprometidos com o bem estar social e acima de tudo, cidadãos justos e fraternos.

4. Quantas crianças participam? Quais as principais atividades/apresentação que realizam?
Carlos Augusto - Atualmente, atendemos em torno de 60 alunos, entre crianças, adolescentes e jovens. São de diversos bairros de Canoas, mas, sobretudo, do bairro Mato Grande. Nossas principais atividades se concentram na realização de aulas e ensaios. No entanto, não são apenas atividades que priorizam o desenvolvimento da competência técnico-instrumental, mas no desenvolvimento de habilidades sociais que oportunizem uma inserção social satisfatória. Para isso, nossas atividades são, sempre, conjugadas com reflexão sobre grandes temas sociais. Acreditamos que nossa missão é: Contribuir, a partir da educação musical, com o desenvolvimento de habilidades sociais de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social oportunizando uma participação cidadã que favoreça a construção de uma sociedade fundamentada no amor fraterno, solidariedade, justiça e paz. Já lançamos dois gibizinhos intitulados a Turma dos Trilhos, onde trabalhamos com a temática do bullyng e descarte irregular de lixo. Em geral, fazemos várias apresentações na comunidade com o objetivo de divulgar o grupo e democratizar o acesso ao aprendizado musical.

5. Quais os maiores aprendizados nesta trajetória?
Carlos Augusto – Os maiores aprendizados são a constatação de que não precisamos de muito para ajudar o próximo. Às vezes condicionamos essa ajuda a condições ideais com recursos abundantes e muitos colaboradores. Não! Temos aprendido que o pouco que temos podemos dar aos outros e multiplicar a abrangência daquilo que fazemos. Em termos práticos, quero dizer que nossa música tem sido compartilhada com outras pessoas. Mesmo em meio a tantas dificuldades é possível reunir no pátio de casa, três, quatro crianças e dividir com elas aquilo que temos. Acredito, também, que esse comprometimento não precisa estar vinculado a uma agenda social institucional, mas, motivada por um coração solidário e comprometido com o próximo.

6. Na sua opinião, quais as questões mais importantes a serem encaminhadas nas áreas da educação e cultura em Canoas?
Carlos Augusto - Acredito que o encaminhamento mais assertivo que a educação de Canoas precisa dar às suas ações é a compreensão de que a educação musical é imprescindível no currículo. A educação musical, assim como prevê a lei 11.769/2008, tem caráter obrigatório na escola. Contudo, das 84 escolas do município, apenas cinco têm educadores musicais com formação específica em música. A pergunta que se faz é a seguinte: por que tanta resistência em implementar no currículo aquela disciplina que alimenta a alma, educa os sentidos, potencializa a criatividade e contribui com a fraternidade e paz? Quanto mais arte, mais educação musical, menos violência, menos intolerância, menos injustiça. Não somos, apenas, seres cognitivos. Possuímos várias dimensões que só são manifestas, em estado pleno, a partir da arte. Nesse sentido, não há transformação social que não passe pela arte, pela educação musical. Uma educação comprometida com a formação integral do ser humano, precisa contemplar em seu currículo a música. Só assim teremos uma sociedade mais ajustada. No que diz respeito à cultura canoense é importante enfatizar sua diversidade e beleza, bem como a falta de investimento na área. Apesar de termos tantos grupos das mais variadas expressões artísticas, há pouca valorização e investimento na área.


7. Com defines liderança e como exerce a sua?
Carlos Augusto - Acredito que liderar é amar, sempre. Sim, liderança, nesse sentido, não se reduz a uma ação decorrente de uma atribuição institucional. Digo isso porque a instituição e seus (des)caminhos não possuem coração e nem cérebro. Não podem amar. Seu abarrotamento burocrático é capaz de prescindir de qualquer relação afetiva para resguardar a instituição. Liderar excede essa relação patrão/empregado, professor/aluno, coordenador/coordenado. Liderar é caminhar junto, é viver a luta do outro, estar junto na alegria e tristeza. Liderar, nesse sentido, é pisar no mesmo chão e viver os mesmos sonhos. Tenho procurado viver isso na prática. Apesar de minha titulação acadêmica de doutor, não gosto do título. Ele costuma separar as pessoas. Gosto que me chamem pelo meu nome; gosto de comer e estar junto daqueles que resolveram caminhar comigo. Gosto de estar entre aqueles que ainda não têm títulos ou posições sociais elevadas. Quero que me vejam como um deles, como uma pessoa que podem contar. Gosto de entrar nas vilas onde atuamos. Não acredito numa liderança de gabinete. Não tem essência e nem vigor. A verdadeira liderança, a meu ver, desce do gabinete e se instala entre o povo.

8. O que é a música para você?
Carlos Augusto – Martinho Lutero diz que “ a música é uma dádiva de Deus”. É nisso que acredito. Nenhum bom pai presenteia seus filhos com algo sem valor. Em geral, um bom pai procura dar o melhor para seus filhos. Deus, como nosso eterno e bom pai, nos presenteou com a música. Um grande presente que precisa ser distribuído para mais crianças e adolescentes de Canoas. Esse presente costuma mudar a direção de nossas vidas. É um baita de um presente!!!

9. Que momento considera que foi mais difícil em sua trajetória profissional e como o superou?
Carlos Augusto – O momento mais difícil de minha trajetória foi, por conta de compromissos profissionais assumidos, cogitar a ideia de ter que encerrar as atividades do Projeto Trilhos Sonoros. Ainda bem que tive a minha família que, nas minhas ausências, assumiu o projeto e deu continuidade junto com um grupo de amigos. Nesse sentido, ter minha família junto comigo no projeto, foi essencial para que o mesmo tivesse continuidade. E a decisão mais desafiadora que tive que tomar foi a de deixar minha terra e meus familiares para me dedicar ao cuidado e proteção de crianças e adolescentes por meio da música.

10. Um erro que poderias compartilhar? Uma vitória?
Carlos Augusto – Um erro é exatamente ter demorado para compreender minha missão aqui no sul. Já entendo, plenamente, que essa é minha missão: por meio da educação musical promover o cuidado e proteção às nossas crianças e adolescentes. A maior vitória que posso compartilhar é ver a consolidação desse trabalho na sociedade canoense. O projeto Trilhos Sonoros não é mais um projeto, mas um programa de educação musical para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social.

11. Podes compartilhar algo que lhe inspira e pode inspirar outras pessoas?
Carlos Augusto - Nada me inspira mais que as crianças. Trabalhar com elas é ver a vida se renovar a cada dia, é presenciar a capacidade criadora do ser humano, é entender o que significa amar. A música inspira as pessoas, mas crianças que fazem música é bem mais inspirador. A força indômita da música junto com a pureza da criança transcende qualquer realidade material, é arrebatador. Por isso insisto em promover a música entre as crianças. Como diz Gonzaguinha “ Eu fico com a pureza da resposta da criança, é a vida: é bonita e é bonita”. Por fim, o Projeto Trilhos Sonoros, muito mais que uma ação de educação musical, é minha vida, minha missão. Fui chamado, recentemente, de militante da educação musical. Sim, acho que é isso mesmo. Esse é o meu ideal. Sei do que a música é capaz, bem como sei que foi ela que me aproximou da Verdade, do Incondicional, da Vida. Por isso, continuo acreditando que vale a pena, sempre valerá a pena.

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