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Em área de assentamento, cooperativa produz o maior volume de arroz orgânico da América Latina

Longe do asfalto, local também tem produção de pão caseiro e carne de porco Reportagem: Jeison da Silva

Pelas mãos do assentado Gabriel de Oliveira, de apenas 19 anos, flui uma porção ínfima do arroz integral recolhido direto de uma saca de 30 quilos, armazenada ao lado do engenho da Cooperativa de Produção Agropecuária Nova Santa Rita, a Coopan. Por sua vez, a saca é apenas outra pequena fração das 40 mil produzidas todo ano por lá. Some-se a isso mais 40 mil sacas vindas de pequenos produtores da região, que contam com a moderna estrutura da entidade para o beneficiamento dos grãos que cultivam.

Os números são estes - e impressionam. Todos os anos, um total de 80 mil sacas de arroz passam pelos silos da cooperativa criada dentro de um dos quatro assentamentos de agricultores “sem-terra” que fica no município de Nova Santa Rita, ao lado de Canoas (mas que ficam mais perto de Capela de Santana e Portão do que exatamente às margens da BR-116).

Agora em novembro, a época é de preparação do solo para o plantio da lavoura. A colheita do arroz no Assentamento Capela, que tem 2,1 mil hectares, ocorrerá entre fevereiro e março. Só depois é que se parte para o polimento da safra e, a partir disso, se determina quais grãos serão integrais, ou não. Se repetir os números, e tudo indica que repetirá, a Coopan se consolida como a maior produtora de arroz orgânico da América Latina.

O Capela é um dos quatro assentamentos de agricultores só em Nova Santa Rita.

A área total da Coopan, dentro do Assentamento Capela, é de 560 hectares. Uma verdadeira “cidade verde” vive ali: 75 associados atuam na entidade e moram nos assentamentos do entorno. Outras 600 pessoas da região orbitam o empreendimento. A especialidade dos antigos sem-terra, já enquadrados na legislação da Reforma Agrária, em 1994, é a produção de orgânicos.

Todo mês, a Coopan exporta 30 toneladas de arroz para o Uruguai. Dois milhões de quilos por ano seguem para as escolas da Prefeitura de São Paulo. Números que refletem a grandeza da economia que brota na terra e serve de referência para outros assentamentos país afora.

Produção diversificada

Se o arroz oferece números expressivos, equiparando-se ou superando qualquer outra indústria privada, a produção de pães caseiros, cucas e bolachas abastece boa parte das escolas públicas da Região Metropolitana de Porto Alegre. E enche os olhos. No terreno da Coopan existe também uma pequena produção de hortifruti, de leite, e uma robusta venda de suínos vivos e carne de abate.
A política da Coopan é fugir dos agrotóxicos, além de garantir um manejo de animais dentro das normas sanitárias e um trabalho de panificação que mantenha viva a tradição artesanal herdada das antigas gerações. O título “verde”, no caso dos animais, se refere principalmente à criação livre de antibióticos, hormônios sintéticos, sem ração à base de transgênicos ou pastagens com química.

“No engenho de arroz, eu chego todos os dias às 7 horas e já começo com as calibragens dos equipamentos”, explica o Gabriel, lá do início da reportagem. A Coopan trabalha com duas variedades: o arroz cateto (redondinho) e o agulha (compridinho). “Eu antes trabalhava no chiqueiro, mas não gostava do cheiro. Prefiro carregar uma saca de 30 quilos de arroz nas costas, e quero me formar em administração”, conta ele.
O grão de arroz sai dos silos para a pré-limpeza, vai para a secagem e só depois segue para ser beneficiado. O ruído das engrenagens é ensurdecedor, o que exige proteção a quem quer que fique ali por perto, no caso, o Gabriel.

Os animais são gigantes

Mesmo bem cuidado, o lugar tem aquele “aroma” peculiar de ração. Os porcos chafurdam na lama para regular a temperatura do corpo. São limpos: não vão ao banheiro no mesmo lugar que comem e dormem. Para quem conhece do metier, é apenas um cenário comum nos viveiros desse tipo de animais. O “chiqueiro”, com muito orgulho, é o local de trabalho do médico veterinário Juliano Zanetti, 27 anos. É ele quem trata da saúde dos porcos da Coopan.

Com dois frigoríficos, a cooperativa chega a 25 mil abates suínos ao ano. São vendidos 4,8 mil animais vivos a cada 365 dias. Na chamada “maternidade” estão 200 matrizes, gerando 11 leitões por parto. Os animais gigantes chegam a 270 quilos. “Os suínos permanecem confinados e por isso não se pode dizer que é uma criação orgânica”, esclarece. “Durante a gestão, as matrizes recebem quase três quilos de ração por dia.” Até virar atração do churrasco, a criação de suínos tem lá suas peculiaridades (que podem fazer com que muitos optem pelo veganismo): antes do desmame os dentes dos porquinhos e o rabo são cortados, explica o profissional. “Após 25 dias ocorrerá o desmame, os filhotes são castrados e vacinados, os devidos cuidados com a saúde e a ética são tomados nos procedimentos.”

Quem mora na cidade se beneficia da produção

296 famílias vivem, hoje, em assentamentos de agricultores em áreas cedidas pelo programa de Reforma Agrágria do Incra em Nova Santa Rita Foto: Paulo Pires/GES
Ao lado de Canoas, Nova Santa Rita ostenta seu ar bucólico e mantém as raízes fincadas na terra. Um cenário interiorano que contrasta com a vizinha Canoas. Conforme a Secretaria de Agricultura, a população é de 29 mil habitantes, sendo 1,2 mil famílias rurais (296 famílias assentadas e o restante não-assentada). “A maior parte da população não planta, mas acaba consumindo o que é produzido aqui”, ressalta o secretário Marli Castro. “A população tem acesso a orgânicos, bom para a saúde e para ajudar esse sistema em torno do pequeno produtor rural.” Nova Santa Rita possui quatro assentamentos: o mais antigo é o Itapuí (1988); além do Capela e do Sinos (nasceram juntos há 25 anos) e o Santa Rita de Cássia (o mais próximo da área urbana, que tem 13 anos).

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