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Notícias | País Quem ama protege

''Somos o único país da América Latina que tem sarampo. Isso é vergonhoso!''

Maria de Lourdes Sousa Maia é médica, especialista em Saúde Pública, mestre em Pesquisa Clínica e coordena a Assessoria Clínica de Bio-Manguinhos/Fiocruz

Por Débora Ertel
Publicado em: 13.11.2021 às 06:20

Coordenadora da Assessoria Clínica de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Maria de Lourdes Sousa Maia
Coordenadora da Assessoria Clínica de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Maria de Lourdes Sousa Maia Foto: Divulgação/Fiocruz

O Complexo Tecnológico de Vacinas do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio- Manguinhos/Fiocruz) é responsável pela autossuficiência em vacinas essenciais para o calendário básico de imunização do Ministério da Saúde. No local, são produzidas dez vacinas que garantem a proteção da população contra diversas doenças. Maria de Lourdes Sousa Maia é médica, especialista em Saúde Pública e mestre em Pesquisa Clínica, e coordena a Assessoria Clínica de Bio-Manguinhos/Fiocruz. Além disso, ela coordenou o Programa Nacional de Imunização (PNI) de 1995 a 2005. Em entrevista, ela fala sobre a cobertura vacinal do País e a importância da proteção.

Qual o risco que representa para a sociedade a diminuição da cobertura vacinal?
O risco é o que já aconteceu. Tivemos a reintrodução do sarampo no Brasil. É um sinal de que a gente corre o risco da volta de outras doenças se não tivermos uma ação contundente de recuperação vacinal.
Não há falta de vacinas, elas existem e estão disponíveis. Infelizmente a pandemia teve uma parte nisso, mas precisamos observar que é uma situação observada nos últimos cinco anos. Então o risco, em resumo, é o seguinte: a volta de doenças que nós já nem lembrávamos que existiam.

Por que a meta de cobertura é de 95%?
Esse índice vem da própria Organização Mundial de Saúde (OMS), pois se sabe que para algumas vacinas a cobertura necessária para controlar ou eliminar a doença é 95%. No caso da BCG, sabemos que é 90%. Mas para garantir a segurança de todos, foi determinado 95%. Mas isso tem que ocorrer de forma homogênea, com pelo menos 70% dos municípios do Estado dentro da meta de cobertura. Lembrando que o ideal seria que todas as cidades alcançassem 95% de cobertura.

A nossa sociedade perdeu o medo da doença. Olha o caso do sarampo, não viu mais gente doente e esqueceu como é. Sarampo mata!

Como superar esse cenário de diminuição de vacinados?
A nossa sociedade perdeu o medo da doença. Olha o caso do sarampo, não viu mais gente doente e esqueceu como é. Sarampo mata! Pólio aleija! Meningite deixa necrose! O povo esqueceu que hepatite pode dar câncer de fígado. O êxito do Plano Nacional de Imunização é tão grande que ele acaba sendo vítima do próprio sucesso. Nós precisamos dar uma sacudida na sociedade e lembrar que não é só a vacina de Covid importante. Se deixarmos de fazer as outras vacinas, as outras doenças vão ressurgir. O pessoal precisa perder o medo de ir até o posto e os vacinadores precisam estar preparados para aplicar todas as vacinas, não somente de Covid.

As campanhas de incentivo à vacinação que existem hoje são suficientes?
Falta educação para a vacina. Precisa ter comunicação na escola, dos alunos para os pais, na igreja, nos postos, nas rádio comunitárias, enfim, em todos os lugares que possam alcançar as pessoas. Eu bato muito nesta tecla de que é preciso fazer com essa informação chegue até a população. Existem as doenças que estão controladas, mas corremos o risco de que voltem. Nós perdemos o certificado de país livre do sarampo. Somos o único país da América Latina que tem sarampo! Isso é vergonhoso!

Nós temos um dos melhores calendários de vacinação do mundo, com todas as vacinas gratuitas.

Os movimentos antivacinas têm atrapalhado?
Alguns anos atrás eu diria que eles não tinham peso nenhum. Mas com a ascensão das redes sociais, eu digo que precisamos trabalhar nisso, com comunicação e informação. Mais do que nunca são necessárias campanhas para tirar dúvidas e informar com dados reais. Nós temos um dos melhores calendários de vacinação do mundo, com todas as vacinas gratuitas.

Qual o principal ganho que o mundo teve com a vacinação?
A vacina aumentou o tempo de vida, diminuiu a mortalidade infantil e controlou um monte de doenças. Depois da água, o que tem de melhor no mundo é a vacina. Por fim, eu queria fazer um apelo aos secretários municipais de saúde. Não vamos nos descuidar das outras vacinas. A vacina Covid e todas as outras são importantes, tanto para adultos como para adolescentes. Não podemos deixar que o nosso País venha a sofrer com aquelas doenças que já se foram.

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