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Notícias | Especial Coronavírus Entrevista exclusiva

'Sem restrição, casos podem dobrar a cada três dias', diz João Gabbardo dos Reis

Em entrevista exclusiva ao Jornal NH, número 2 no Ministério da Saúde afirma que casos podem dobrar a cada três dias sem a adoção de todas medidas restritivas possíveis

Por Ermilo Drews
Última atualização: 24.03.2020 às 07:05

Secretário executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo dos Reis analisou o avanço da doença para o Grupo Sinos Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Certamente quando aceitou o convite para assumir o cargo de secretário executivo do Ministério da Saúde, o médico portoalegrense João Gabbardo dos Reis não tinha ideia de que o mundo enfrentaria a pior pandemia da história recente. Reconhecido no meio político como um técnico e gestor público competente, o ex-secretário da Saúde do Rio Grande do Sul ganhou muito trabalho e visibilidade nacional nas últimas semanas.

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Como secretário executivo, Gabbardo é o número 2 na hierarquia do Ministério da Saúde. Figura frequente nas entrevistas coletivas para falar sobre o avanço da doença e as medidas adotadas pelo ministério, cabe à secretaria chefiada por ele coordenar todas as demais sub-áreas da Pasta no combate ao novo coronavírus.

Em entrevista ao Jornal NH, ele afirma que sem todas as medidas de restrição possíveis, os casos de Covid-19 podem duplicar a cada três dias.

Em que momento o governo brasileiro se deu conta de que o avanço do coronavírus na atual proporção era inevitável?

João Gabbardo dos Reis - O monitoramento da circulação de doenças no Brasil é muito bem estruturado. Estamos nos preparando desde que tomamos conhecimento da circulação do coronavírus (Covid-19) na China, sabendo que vivemos em um mundo globalizado e que a doença chegaria ao Brasil. A nossa resposta tem sido estruturada em fases. Junto com as secretarias estaduais e municipais de saúde construímos planos de contingência para organizar a rede pública de saúde em todo o País. Também nos antecipamos na aquisição de insumos e medicamentos e vamos continuar nos adaptando conforme a avaliação de novos cenários da doença dentro do País, garantindo o cuidado em saúde das pessoas.

Quais as diferenças da pandemia do coronavírus para a do Influenza H1N1 de 2009? Por que a atual pandemia exige medidas mais restritivas?

Gabbardo - A experiência com o H1N1 nos ensinou que é preciso adotar algumas medidas em casos de pandemia, como a que está ocorrendo no mundo agora pela Covid-19. O coronavírus é contagioso e tem se espalhado em grande escala mundo afora e é justamente para evitar que existam muitos casos que, desta vez, estão sendo tomadas ações mais restritivas. Além disso, os estudos apontam um maior risco para idosos e pessoas com doenças preexistentes. Por isso, estamos trabalhando para prevenir e evitar que a situação piore principalmente nesses públicos mais vulneráveis.

Quais os cenários vislumbrados pelo Ministério da Saúde para os próximos meses em relação à contaminação, mortes e sobrecarga do sistema de saúde?

Gabbardo - Se não adotarmos todas as medidas de restrição possíveis, os casos podem dobrar a cada três dias. As estimativas apontam que os casos devem continuar aumentando pelos próximos três meses. A nossa expectativa é que lá por julho comece a estabilidade dos números. Por isso, precisamos nos prevenir de todas as formas, adotar as ações de distanciamento social, higienizar bem as mãos, não compartilhar objetos de uso pessoal e evitar aglomerações. Estas são medidas simples, porém necessárias e eficazes.

A estrutura atual do Sistema Único de Saúde permite atender qual universo de infectados pelo vírus?

Gabbardo - Os estudos apontam que até 90% dos casos são leves. Caso necessitem de atendimento, as pessoas devem buscar os postos de saúde (nota da redação: algumas cidades, como Novo Hamburgo, criaram centro de triagem para este fim). O Ministério da Saúde está ampliando os horários de atendimento dessas unidades e também convocando médicos de forma emergencial para reforçar o atendimento à população. Também estamos adotando medidas para ampliar a assistência na rede hospitalar, onde os casos graves serão atendidos conforme a necessidade. Além dos leitos de UTI que já existem no Brasil, estamos locando, nesse primeiro momento, mais de 3 mil leitos de instalação rápida para os Estados. Já estão garantidos recursos para compra de equipamentos de proteção individual e insumos para usarmos especificamente no combate ao coronavírus. Conforme a necessidade do enfrentamento, também poderão ser adotadas medidas, como a realização de giro de leitos e reorganização de cirurgias que não são emergenciais.

Quais medidas estão sendo consideradas para evitar o avanço da doença numa proporção semelhante à Itália, onde os serviços de saúde não conseguem dar conta da demanda?

Gabbardo - O Ministério da Saúde orientou diversas medidas não farmacológicas para promover o distanciamento social, principalmente para que a população evite aglomerações e contato com o vírus. Estamos recomendando que quem puder ficar em casa com a família, trabalhando home office, que o faça. Antecipamos, também, a Campanha Nacional de Vacinação contra a Gripe em três semanas, para vacinar nesse primeiro momento o grupo mais vulnerável, que são os idosos e profissionais de saúde. A vacina não protege contra o coronavírus, mas contra os principais vírus da gripe em circulação em território nacional e ajudará os profissionais de saúde na triagem e identificação de pessoas com Covid-19, já que os sintomas são parecidos.

O fechamento de fronteiras, que chegou a ser negado inicialmente em entrevista pelo senhor, foi adotado posteriormente pelo governo. Por que esta medida foi revista?

Gabbardo - As ações do governo do Brasil para enfrentamento ao coronavírus são planejadas e adotadas conforme novos cenários da doença dentro do País. Assim, na última semana, o governo federal decidiu pela restrição, de forma excepcional, da entrada de estrangeiros pelas fronteiras do País, por rodovias ou meios terrestres. Essa medida vale por 15 dias e se aplica, até o momento, aos cidadãos de oito países: Argentina, Bolívia, Colômbia, Paraguai, Peru, Suriname, Guiana e Guiana Francesa (nota da redação: a entrevista foi concedida antes do governo federal fechar a fronteira com o Uruguai). O objetivo desta ação, que não se aplica a brasileiros ou imigrantes com residência fixa no País, é impedir a disseminação do coronavírus, aliada a outras ações que temos preconizado, como etiqueta respiratória e distanciamento social. Desta forma, conseguiremos ter uma curva de crescimento de casos de uma forma menos acentuada. Temos analisado o comportamento do vírus no Brasil e o cenário mundial, dia após dia, e vamos tomar novas medidas e dar novos passos sempre que for necessário.

Quais medidas restritivas o Ministério da Saúde defende?

Gabbardo - Para redução do risco de adquirir ou transmitir doenças respiratórias, o Ministério da Saúde orienta que sejam adotadas medidas gerais de prevenção, como realizar frequente higienização das mãos, principalmente antes de consumir alimentos; utilizar lenço descartável para higiene nasal; cobrir nariz e boca quando espirrar ou tossir; evitar tocar mucosas de olhos, nariz e boca. Além disso, não compartilhar objetos de uso pessoal, como talheres, pratos, copos ou garrafas; manter os ambientes bem ventilados e evitar contato próximo a pessoas que apresentem sinais ou sintomas da doença. A recomendação especial é para os idosos, que evitem sair de casa quando não houver necessidade para reduzir a exposição ao coronavírus.

Será possível diagnosticar todas as pessoas com suspeitas de terem coronavírus?

Gabbardo - Nós capacitamos todos os laboratórios públicos para diagnosticar a doença, garantindo resultados eficientes e precisos. Distribuímos 27 mil testes para todos os Estados do País e temos feito um grande esforço para adquirir o maior número de kits possível para testar mais pessoas, além dos casos graves. A nossa expectativa é adquirir 10 milhões de testes rápidos nas próximas semanas, sendo que 5 milhões já devem estar disponíveis na próxima semana.

O Rio Grande do Sul, assim como outros locais do País, adotou uma série de medidas restritivas para evitar a circulação de pessoas pelo menos até o começo de abril. Considerando que o inverno ainda nem chegou, a tendência é que medidas restritivas se estendam pelos próximos meses?

Gabbardo - Alguns Estados já estão adotando medidas mais restritivas. No momento em que a epidemia cresce é fundamental seguir as recomendações que temos dado para diminuir a velocidade de transmissão da doença. O isolamento social, a higiene e etiqueta respiratória são imprescindíveis para minimizar a transmissão, sobretudo em relação aos idosos.

A chegada do inverno pode tornar o Rio Grande do Sul um Estado mais suscetível ao coronavírus?

Gabbardo - O Rio Grande do Sul é um dos Estados que chamam a nossa atenção porque em outros momentos, como a pandemia de H1N1, foi o Estado do País que mais registrou casos. Agora, precisamos ver como será a circulação do coronavírus no País. É um vírus novo e que chegou mais recentemente no hemisfério Sul e estamos analisando de que forma ele se comportará em um País de clima tropical para que estejamos preparados.

O discurso e ações do presidente Jair Bolsonaro como cumprimentar manifestantes divergem da posição do Ministério da Saúde e isso influencia na tomada de decisão técnica no ministério?

Gabbardo - Não comentarei temas que personalizem as situações, principalmente na figura do presidente.

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