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Notícias | Canoas

Aulas de karatê estão tirando as crianças das ruas no Guaju

Por Leandro Domingos
Publicado em: 21.07.2021 às 03:00 Última atualização: 21.07.2021 às 07:58

As Olimpíadas de Tóquio começaram com o karatê brasileiro de fora da disputa. O sonho olímpico do esporte no Brasil foi adiado ainda durante as eliminatórias. Só que o karatê não se resume a competições. A milenar arte marcial japonesa tem uma doutrina capaz de mudar vidas.

Preparação no Galpão da Luta é projeto social criado pelo sensei Jerri Navaes. De 3 a 15 anos, não há cobrança Foto: FOTOS PAULO PIRES/GES
É o que está acontecendo no bairro Guajuviras, onde um projeto social, criado pelo sensei Jerri Navaes beneficia mais de 150 alunos que treinam no batizado Galpão da Luta. São meninos e meninas que tiveram o cotidiano transformado graças à filosofia que alia o bem-estar do corpo e da mente.

Jerri Navaes conta que o projeto teve início há cinco anos, no Condomínio Guajuviras 2. Na época, o professor de artes marciais, apenas por brincadeira, começou a dar aulas gratuitas para as crianças que viviam no local. O que era uma brincadeira, de repente ficou sério. "A turma de alunos não parava de crescer," recorda.

Foi quando surgiu o convite da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Paulo Freire para que ele começasse a dar aulas no ginásio da instituição. "Explodiu meu número de alunos", lembra. "Como as aulas eram gratuitas, todo mundo queria aprender karatê, o que para mim era motivo de muito orgulho".

Colaboração

O projeto, no entanto, teve que deixar a instituição durante o fechamento das escolas em meio à pandemia. Há dois anos, o sensei conseguiu comprar um terreno próximo ao Condomínio Guajuviras, onde criou um espaço que atendia à perfeição o treinamento dos pequenos caratecas.

Atualmente, o espaço é ampliado para atender a uma demanda que só cresce. "Como continuo dando aula para os adultos, me permito manter as aulas gratuitas para crianças", observa o lutador de 49 anos.

Ele afirma já ter conseguido tirar uma dúzia de adolescentes que estavam no "mau caminho" das ruas. "Digo que se conseguir tirar três, de dez que estiverem pelas ruas, está bem bom", defende. "Eu bato de porta em porta, perguntando se as crianças querem treinar karatê."

O Galpão da Luta precisa de ajuda. Conforme o sensei, as crianças precisam de auxílio, principalmente, para a compra de kimonos e material de proteção, como caneleiras, joelheiras e luvas.

"Da ampliação do Galpão, a gente cuida organizando galetos e vendendo rifas", explica. "O que eu queria mesmo era que o pessoal pudesse colaborar com as crianças. São elas a parte mais importante deste projeto."

Mudança

A dona de casa Vanessa Ribeiro, 40 anos, tem os filhos Eduardo, 12, e Wellington, 15, treinando com o sensei. "O comportamento deles mudou completamente", conta. "Eram meninos tímidos e que quase não se expressavam com ninguém. Hoje andam soltos e felizes. São lutadores em todos os sentidos."

Silvana Sukenski, 35, também defende que a filha teve o comportamento alterado completamente graças às aulas de karatê. "Ela era tão quietinha que não abria a boca para nada. Hoje é uma outra criança", avalia. "Acho que toda esta questão da disciplina e do autocontrole faz bem demais para a criança. É tudo muito positivo."

Para ajudar

Quem quiser colaborar com a criançada, pode entrar em contato para o sensei Jerri Navaes no (51)99898-4197. O Galpão da Luta fica na Rua Acadepol, bem próximo à caixa d'água da Corsan, pela Estrada do Nazário, no bairro Guajuviras.

Bebê no colo e clima de Cobra Kai

Já com 152 crianças cadastradas, o Galpão da Luta teve que organizar horários para que ninguém ficasse sem treinar. Filha do sensei Jerri, a faixa preta Monique de Lima, 25 anos, dá aulas de karatê com o filho Joaquim, de apenas dois meses, entre os braços.

Monique de Lima leva o pequeno Joaquim a tiracolo Foto: PAULO PIRES/GES
É claro que nem sempre é possível estar com o pequenino no tatame, razão pela qual a professora conta com o auxílio das senpai, que são "quase faixas pretas." "As gurias estão preparadas para dar aulas e dão a maior força com os menores", elogia.

Quem visita o Galpão da Luta, nota que as comparações com as crianças vistas na série Cobra Kai, da Netflix, são inevitáveis. "Aquela série ajudou demais", afirma Jerri. "Há pais levando as crianças para a academia graças ao programa."

Gratidão de pais e alunos no projeto

Paula Raquel Lopes é hoje senpai no Galpão da Luta. Ela conta que só começou a treinar caratê por causa da filha. "Na época, eu andava meio em depressão. Meu médico disse que precisava de exercícios", lembra. Coube à pequena Ana, de 12 anos, leva-lá à prática.

Paula Raquel é senpai e ajuda crianças no Galpão da Luta Foto: PAULO PIRES/GES
"Ela só aceitou praticar se eu começasse a participar das aulas também", revela. "Convencemos o sensei Jerri a nos deixar participar juntas", brinca. "Foi a melhor coisa do mundo. Hoje somos muito gratas e doamos tempo ajudando as crianças a aprender também."

Embora treinando crianças com sede de competir, o sensei Jerri quer antes vê-las treinando com melhor estrutura. "O karatê é um esporte caro. Temos que caminhar com um passo de cada vez."

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