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Notícias | Canoas Ação social

Barbeiros Solidários ajudam a recuperar a autoestima de moradores de rua

"Quem não é visto não é lembrado", repete o "faz-tudo" que trabalha num ferro-velho da Carazinho. "Sou um morador de rua." As visitas dos Barbeiros Solidários RS ajudam na autoestima e combatem a invisibilidade

Por Jeison Silva
Publicado em: 24.11.2020 às 03:00 Última atualização: 24.11.2020 às 08:04

Perda de um filho e de outros amores "desgostou" o idoso. Hoje ele vive em paz sozinho, sem contato com parentes Foto: Fotos PAULO PIRES/GES
A casa do "faz-tudo" Naruê Santos, 60, fica em frente a um ferro-velho na Rua Carazinho, no Mathias Velho. Um portão metálico de grandes proporções foi apoiado na parede do estabelecimento, formando um triângulo na parte interna, um tipo de casulo, onde Naruê acomoda seu colchão e dorme há 17 anos.
"Meu roupeiro é esta geladeira velha", brinca.

Por alguns anos, Naruê foi dono de um bar no Paquetá que vendia cerveja e bolinhos de peixe. Mas perdeu a esposa para outro homem e encontrou na rua um lugar, diz ele, "para viver em paz". "Eu sou morador de rua, tive outra namorada depois, mas ela morreu há quatro anos. Eu também perdi um filho para a violência", explica de forma franca, com lágrimas nos olhos, sem rodeios. "Tive uma questão com bebida, hoje tenho outra namorada e um caderno velho onde escrevo alguns pensamentos."

Naruê diz que se afastou dos familiares para não incomodar, mas não tem briga com ninguém. Vive sozinho. "Quem não é visto, não é lembrado, na rua nunca tive problemas." É no ferro-velho que arranja uns trocados para se manter, ajudando na solda e em tudo o mais que o serviço pedir.

Naruê se comunica muito bem e faz questão de deixar o seu espaço bem organizado para não deixar ninguém na vizinhança com receio da presença dele ali. "Vim do interior, tenho o Ensino Médio, em Canoas, estudei na Escola Ceará e na Bento Gonçalves", recorda. "Meu pai era PM e acabei saindo de casa porque as coisas funcionavam como se fosse um quartel."

A barba e o cabelo estão bem aparados, graças ao trabalho do projeto Barbeiros Solidários. "A gente ficou amigo do pessoal", lembra. "Quando a gente corta o cabelo e faz a barba a gente fica se achando!"

Autoestima

Há cinco anos, o barbeiro Ivan Kramer, 31, decidiu usar suas habilidades para levar autoestima aos moradores de rua, quando completava a formação. "Eu fazia o curso técnico para barbeiro e os colegas de curso apoiaram a ideia", recorda. "Eu já atendia moradores de rua com alimentação, alguns eu já conhecia." Hoje os Barbeiros Solidários atendem nos fins de semana, na parte da tarde.

"A gente percebe a mudança no olhar", diz Ivan

ENTITY_quot_ENTITYO poder público esqueceu essas pessoasENTITY_quot_ENTITY, afirma barbeiro Ivan Foto: PAULO PIRES
“Temos cadastradas 350 pessoas em situação de rua em Canoas”, explica o barbeiro. “Conforme vão chegando a gente atende, em geral, entre 50 e cem pessoas num fim de semana.” Quando há um evento em praças ou ações de distribuição de almoços, o número de cortes de cabelo pode ser maior. “O profissional percebe: quando eles estão na cadeira viram gente de novo, são tratados como clientes, a gente percebe a mudança no olhar”, diz Ivan. Hoje Ivan é professor no ofício que escolheu, mas segue auxiliando o grupo que se reúne em frente ao Hospital de Pronto-Socorro de Canoas (HPSC). “O poder público nunca forneceu apoio”, afirma. “É uma experiência que a gente leva para o resto da vida. Sempre fica a questão: muitos eram alguém dentro da sociedade e hoje estão em uma situação bem diferente.” São 46 voluntários. Manicures atendem o público feminino. “O poder público esqueceu essas pessoas.”

Albergue e outras políticas públicas

O Albergue Municipal voltou a funcionar no local original, Na Avenida Rio Grande do Sul esquina com a Rua Caçapava, após o período de reforma. “Atendemos 25 pessoas por noite, se há superlotação o Grupo de Inclusão Social, Giseda, recebe essas pessoas”, aponta a secretária de Desenvolvimento Social, Luísa Camargo. “Nosso diagnóstico é que essas pessoas têm fragilidade de vínculos com as famílias ou doenças psiquiátricas que dificultam o convívio.” Há ainda a luta contra as drogas, que nem todos conseguem vencer.

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