Rendimentos irreais

Polícia Federal rastreia dinheiro da Unick em paraísos fiscais

Em meio a milhares de queixas de clientes, que se dizem lesados, investigação tenta encontrar bilhões possivelmente ocultados no exterior por sócios da empresa
23/09/2019 05:00 23/09/2019 07:15

Foto por: Reprodução
Descrição da foto: FESTA: observado por Leidimar Lopes, Danter Silva faz discurso triunfal na inauguração da nova sede da Unick, na cobertura em área nobre de São Leopoldo, na noite de 27 de março
Meu dinheiro sumiu, não estão pagando os rendimentos prometidos, não devolvem minhas aplicações, não cumprem a palavra, o site está fora, não dão retorno, não sei mais o que fazer.

Enquanto borbulham queixas contra a Unick Sociedade de Investimentos, a Polícia Federal tenta rastrear supostas remessas bilionárias dos donos para paraísos fiscais na Europa e América Central. Nascida em Novo Hamburgo, a empresa transferiu sede para São Leopoldo, abriu escritórios pelo País e já tem clientes do exterior que se dizem lesados. A suspeita é de pirâmide financeira, o que é crime. A reportagem não localizou os diretores. Em vídeos institucionais, eles afirmam que é tudo legal.

Uma das rotas do dinheiro seria Mônaco, principado no Sul da Europa conhecido pela pompa e riqueza, onde até iate de luxo teria sido comprado pela cúpula da Unick. Outros destinos apurados são Luxemburgo, Panamá e Belize. O escoadouro, conforme a investigação, seria por meio de empresas offshore, possivelmente do Uruguai, especializadas em transações para países onde a privacidade das contas é lei. Os chamados paraísos fiscais.


Investigação é mais complexa que a da InDeal

A PF não fala sobre a investigação, que começou há pelo menos sete meses. A reportagem apurou que o inquérito da Unick está dando muito mais trabalho que o da InDeal, outra empresa hamburguense suspeita de explorar pirâmide, fechada em maio com dez presos e milhares de clientes lesados. “O caso da Unick é muito mais complicado, pois, ao contrário da InDeal, os diretores não colocaram praticamente nada no nome. As transações fraudulentas são mais sofisticadas e em quantias absurdamente maiores. Descobrir o paradeiro e sequestrar esse patrimônio envolve complexas relações de cooperação internacional”, conta uma fonte ligada à investigação.

As queixas não param de aumentar. No site ReclameAqui, especializado em denúncias de consumidores, a Unick é a sétima empresa do País com mais menções nos últimos 30 dias. Eram 5.248 até ontem, num total de 8.761.

De forma tímida, começam a aparecer os primeiros boletins de ocorrência e processos criminais. “Eles dizem que quem procurar a Polícia não vai receber o que investiu, mas acho que vou mesmo assim, pois só enrolam e já perdi uns R$ 100 mil”, conta uma hamburguense de 34 anos.

Presidente nega estelionato

O presidente da Unick, Leidimar Bernardo Lopes, 39 anos, chegou a prestar depoimento na 1ª Delegacia de Polícia de Novo Hamburgo em outubro do ano passado. Ele começou negando as acusações de estelionato e crime contra a economia popular, argumentando que “não há qualquer indício de vítima em prejuízo”.

Leidimar declarou que a Unick é “utilizadora do sistema de marketing multinível de forma legítima” e disse que ela paga os clientes por três maneiras. “Venda direta, que é quando o cliente indica outro; venda indireta, quando o novo cliente atrai outro e o primeiro da rede ganha uma porcentagem sobre a sua carteira de indicação; e a terceira forma, de marketing e publicidade, em que a empresa dedica parte de seus ganhos para remunerar todos os clientes, pois, ao final, todos divulgam a empresa e seus produtos.”

Segundo o delegado da 1ª DP, Tarcísio Kaltbach, que começou as investigações da Unick e também da InDeal, repassadas à Polícia Federal, ainda não há ocorrências de vítimas no órgão. “A Polícia Civil de Novo Hamburgo está atenta a crimes dessa natureza e pede que vítimas procurem a delegacia para o registro.”

"Eu confiava muito e agora estou em depressão"

Foto por: Reprodução
Descrição da foto: RESSACA: a frente do prédio virou ponto de protestos de investidores, como o anônimo que foi cobrar a empresa na tarde de 2 de setembro
“Devolva meu dinheiro.” Com um cartaz na frente da sede da Unick, em São Leopoldo, um anônimo fazia protesto solitário na tarde do último dia 2. Não foi o bastante para sensibilizar a cúpula da empresa, na cobertura do 20ª andar, mas chamou a atenção do trânsito. “Eu passava de carro por ali e resolvi fazer a foto. Já fui convidado para entrar nesse negócio e sempre desconfiei”, relata um comerciante de 56 anos. Uma auxiliar de escritório de 34 anos, moradora de Novo Hamburgo, é só decepção. “Eu confiava muito e agora estou em depressão, à base de remédios por causa dos R$ 100 mil que perdi na Unick.” A inquietação de investidores já gerou abertura de processos em outros Estados, como São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, além da mobilização de clientes da Argentina e Uruguai.

“Eles iludiram pessoas humildes como nós, desfilando com carrões e ostentando nas redes sociais. Era o modo que eu e minha irmã vimos para mudar de vida. Olhava a conta no computador, via que estava rendendo e fui reinvestindo. Perdi tudo”, lamenta a hamburguense.

Depois de atrair várias pessoas ao negócio, um motorista de aplicativo de 21 anos, de Lindolfo Collor, desistiu de defender a Unick. “O pessoal está desesperado. Já nem dou mais esperança. Também perdi.”

Segundo CVM, sempre esteve ilegal

Foto por: Alan Machado/GES
Descrição da foto: Destinos apurados
Não é só em relação à investigação criminal que a Unick tem problemas. Administrativamente, ela está irregular e não poderia estar operando, segundo a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), autarquia do governo responsável pela fiscalização das operadoras do mercado de capitais.

O órgão proibiu a Unick de oferecer pacotes de investimentos em março de 2018 e fixou multa diária de R$ 1 mil em caso de descumprimento da medida. A última movimentação do processo foi no dia 16 do mês passado, quando a Unick apresentou uma proposta de termo de compromisso, que é analisada pela Procuradoria da CVM.

No CNPJ, consta até venda de bebidas

O Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) foi criado em 9 de outubro de 2013, mas o nome comercial passou a ser Unick somente em 2017. Antes era Phoner, com negócios parecidos, porém mais modestos. O quadro de cinco sócios sempre foi o mesmo, com Leidimar Bernardo Lopes, parentes e amigos. O endereço, em Novo Hamburgo, nunca mudou no documento, assim como as atividades registradas, nenhuma relacionada ao mercado financeiro.

A principal é “marketing direto” e há seis secundárias: “comércio varejista especializado de equipamentos e suprimentos de informática; portais, provedores de conteúdo e outros serviços de informação na internet; comércio varejista especializado de eletrodomésticos e equipamentos de áudio e vídeo; comércio varejista de cosméticos, produtos de perfumaria e de higiene pessoal; comércio varejista de produtos alimentícios em geral ou especializado em produtos alimentícios não especificados anteriormente; fabricação de cosméticos, produtos de perfumaria e de higiene pessoal; comércio varejista de bebidas”.

Novo nome e produtos

A empresa começou como Unick Forex em junho de 2017, quando passou a oferecer pacotes de investimentos com promessa de rendimentos de até 3% ao dia. Os ganhos seriam por meio de investimentos em criptomoedas, principalmente bitcoins. “Não há como garantir ganhos estratosféricos em nenhuma aplicação, ainda sobre esse tipo de ativo, de desempenho volátil e imprevisível”, frisa um investigador. Em março deste ano, a empresa mudou-se da Rua 25 de Julho, bairro Rio Branco, em Novo Hamburgo, para a Rua São Joaquim, no Morro do Espelho, em São Leopoldo. No fim de julho, passou a ser a Unick Academy, com o discurso de que agora está focada em educação. Os novos produtos seriam cursos sobre mercado financeiro,com rendimentos a quem os compra. Cosméticos e vestuário também entraram no rol de ofertas.

Esquema entra em colapso

Toda pirâmide financeira, conhecida como esquema Ponzi, acaba ruindo. Isso porque o dinheiro dos que entram não é mais suficiente para sustentar a remuneração de todos e a maioria acaba perdendo tudo. Uma minoria sai ganhando muito com o prejuízo da base. O precursor da fraude, o italiano Charles Ponzi, fez fortuna na década de 1910 na região de Boston, nos Estados Unidos, ao oferecer rendimentos fantásticos com a compra e venda de selos estrangeiros. Mas ele nunca investiu no que dizia. Apenas pagava os clientes com o dinheiro dos que entravam, até a estrutura ruir. Ponzi foi preso, deportado à Itália e mudou-se para o Brasil, onde morreu em 1949, aos 66 anos, no Rio de Janeiro, como indigente, cego e vítima de infarto.

A Unick vem atrasando pagamentos e prometendo regularização desde julho. Nos últimos comunicados pelas redes sociais, a empresa tem tirado os comentários do ar. O que antes eram declarações de amor dos investidores se tornaram xingamentos e cobranças por pagamento. As palestras quinzenais em Novo Hamburgo e eventos em São Paulo foram suspensos. Já circulam em redes sociais até ameaças de invasão ao escritório. “Basta de promessas, vídeos, áudios. Queremos 100% do nosso dinheiro”, diz um conteúdo criado e compartilhado por clientes enfurecidos.

Multiplicadores influentes

Com a promessa de dinheiro fácil, a Unick ficou conhecida como espécie de corretora popular de investimentos. Coleciona exemplos como o do pedreiro do bairro Canudos, em Novo Hamburgo, que vendeu um carro por R$ 26 mil para aplicar na empresa. Mas classes privilegiadas também entraram. Em cidades da região como Estância Velha, Ivoti, Dois Irmãos, Campo Bom e Sapiranga, advogados, professores e empresários chegaram ao patamar de líderes na hierarquia da organização.

Já foi notícia

Em 27 e 28 de março deste ano, o Jornal NH publicou matérias exclusivas sobre suspeitas de que a Unick praticava crimes financeiros. A reportagem resgatou a história da D9 Trader, pirâmide fechada em 2017 com milhares de vítimas no Vale do Sinos, e revelou que um dos réus é o atual diretor de Marketing da Unick, Danter Navar da Silva, 23 anos. Espécie de garoto-propaganda da empresa, ele não quis se manifestar.

Natural de Sapiranga, Danter seria aprendiz do conterrâneo Márcio Rodrigues dos Santos, 37, líder da D9 no Estado, que autoproclamava-se “piramideiro”, em tom de deboche, para os amigos. Márcio foi brutalmente assassinado na noite de 12 de setembro do ano passado em Balneário Camboriú, Santa Catarina. O corpo foi incendiado no porta-malas do carro dele, um Audi A4. O crime teria sido encomendado por investidores lesados pela pirâmide.

As matérias também revelaram profundas semelhanças entre a D9 e a Unick, como a venda de pacotes de aplicações com a promessa de rendimentos estratosféricos, irreais no mercado; palestras motivacionais para atrair clientes, ostentação nas redes sociais e prêmios para líderes, como carros e viagens.

“As pirâmides se renovam”, declarou o delegado de Sapiranga, Fernando Branco, que há dois anos indiciou 34 envolvidos com a D9. O líder da pirâmide, Danilo Santana, o Baiano, juntou milhões e fugiu para os Emirados Árabes. A Polícia suspeita que seja o plano dos diretores da Unick.

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Descrição da foto: Edição de 27 de março

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Descrição da foto: Edição de 28 de março

Diário de Canoas