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Crônica

Narciso e o WhatsApp

A fixação pelos smartphones e redes sociais não é, apesar dos críticos, um descaminho das novas gerações ou uma deficiência cultural. É algo muito mais profundo, arquetípico
19/02/2019 23:58 19/02/2019 23:59

Foto por: Pxhere/Creative Commons
Descrição da foto: A flor Narciso, batizada a partir do mito grego, e cujas interpretações modernas têm muito a ver com a comunicação atual
É bem conhecida a expressão “narcisista”, para descrever alguém patologicamente centrado em si mesmo. Você conhece o tipo. Egocêntrico, egoísta, ególatra – merecedor de algum adjetivo que seja uma variação etimológica começando por “ego”. Ambas as palavras, ego e narcisista, por sinal, vêm da teoria de Sigmund Freud, o pai da Psicanálise. Sua definição do narcisismo vem do mito grego de Narciso, o jovem vaidoso que ficou embevecido pelo próprio reflexo na água e, travado no ato de contemplar a si mesmo, foi transformado pelos deuses em uma flor que nasce à beira dos córregos.

Menos conhecida, porém modernamente tão importante talvez quanto a de Freud, é a leitura do mito de Narciso feita por Marshall McLuhan, um dos primeiros gurus da Comunicação. Para o ensaísta canadense, a visão de Narciso congelado não tem a ver com vaidade, mas com uma espécie de processo mental externalizado, quase como uma fiação exposta. Para McLuhan, Narciso e o espelho d’água formam um conjunto. A compreensão que o jovem tinha de si próprio passou para fora de seu corpo e foi centralizada no artefato – no caso, a água – que produzia o reflexo. Quem olha de fora pensa que Narciso paralisou no reflexo, mas, na verdade, o reflexo e Narciso passaram a ser uma coisa só. O que se enxerga é só o fio que vai de um para o outro. O jovem efebo é algo que transita lá dentro e que, de fora, pode não mais ser atingível, uma vez que não interage e não responde.

O que tudo isso tem a ver conosco, aqui nesta conturbada segunda década do século 21, milhares de anos depois dos gregos e décadas depois de McLuhan? Você só precisa sair de casa – e em muitos casos nem isso – para ver multidões de Narcisos à beira do córrego. O reflexo foi substituído pela tela touchscreen com WhatsApp ou Facebook, e o espelho d’água virou um smartphone, mas de resto a visão é a mesma. Alguém aparentemente embevecido em si mesmo, fechado para o mundo, e que só tem existência em um circuito fechado entre o aparelho, os olhos e os polegares.

Quem costuma reclamar dos Narcisos digitais tende a repetir a apropriação psicanalítica do mito grego e creditar o solipsismo à vaidade e ao egoísmo. Faz sentido, certamente, uma vez que são tão comuns nas redes sociais aqueles fascinados por si mesmos, ostentando on-line o próprio reflexo na forma daquela neoinstituição contemporânea, a selfie. Porém, apesar da postura hierática de qualquer um absorvido no celular, os novos Narcisos estão mais para McLuhan do que para Freud. Porque os smartphones são muito mais do que espelhos nos quais se contemplam curtidas ou likes. Ali, muitos estarão no home banking, olhando notícias, jogando ou, mesmo, lendo textos. Se uma poça bastava para que o Narciso de McLuhan se fechasse em um loop infinito de informação, os modernos Narcisos têm ao seu dispor uma mescla de cornucópia e caixa de Pandora, um tentador abismo ali, na ponta dos dedos.

Tão facilmente criticados como um descaminho das novas gerações ou dos novos tempos, os onipresentes celulares e suas redes sociais não devem ser levianamente confundidos com caprichos da moda ou um daqueles deslumbres consumistas efêmeros. O fenômeno que os produz não é uma falha de caráter de seus portadores nem uma deficiência cultural. Os Narcisos digitais vêm de uma dimensão mais profunda, arquetípica, não por acaso tão adequada à metáfora dos mitos. Como diria Sam Spade, são o material do qual os sonhos são feitos.

Permanece válido, contudo, o mesmo alerta codificado lá no mito grego original do qual tanto gostavam Freud e McLuhan. Inacessível ao mundo exterior, ensimesmado em seu mundo invisível, Narciso eventualmente foi transformado em planta pelos deuses. Que não seja este o nosso destino, nesta era de Narcisos à beira dos córregos on-line.

Um pedido. Se você estiver lendo este texto em um celular, faça um favor ao cronista. Levante os olhos do aparelho, olhe para a pessoa mais próxima de você e interaja. Sorria, fale qualquer coisa, reclame da boçalidade do articulista. Faça como os bons heróis mitológicos. Desafie a maldição dos deuses.

Recuse-se a virar um vegetal.


Diário de Canoas
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