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Segurança

Curso na Pecan é criado para melhorar o atendimento de diversos grupos na penitenciária

Penitenciária Estadual De Canoas (Pecan)
15/05/2019 10:52 15/05/2019 10:57


Paulo Pires/GES
Pela melhoria no trabalho: servidores da Pecan reunidos debatendo as diferenças entre grupos na penitenciária
“É preciso entender que pessoas diferentes têm mentalidades diferentes.” Essa frase foi dita por um agente da Penitenciária Estadual De Canoas (Pecan), na manhã de ontem, durante o circuito “Debatendo a Educação em Saúde no Complexo da Pecan.” O curso foi criado pensando justamente nas diferenças citadas na frase que abre este texto. O objetivo é que não só os agentes penitenciários, mas também técnicos e outros profissionais que trabalharam na carceragem observem com um outro olhar os presos com deficiência, idosos, grupos LGBT, etc.

Tendo iniciado no começo do mês, o curso foi dividido em quatro módulos que abrangem a identidade de gênero e sexual, o envelhecimento e as dificuldades referentes a acessibilidade. A ideia foi do diretor-geral da Pecan, Jorge Carlos da Silva. A iniciativa partiu da vontade do servidor da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe) de ver um atendimento diferenciado dentro da penitenciária. “Nossa ideia é resociabilizar, certo? Então para isso nós precisamos entender e melhorar constantemente o diálogo com cada grupo que convive na Pecan”, explica. “Porque é preciso entender bem a situação de um cadeirante, um idoso e um transexual dentro da penitenciária.”

Um dos palestrantes convidados para trabalhar no curso, o médico da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) Carlos Alberto Azevedo elogiou bastante uma iniciativa que pode ser classificada como inédita no Estado. “Nunca houve antes este interesse pelas diferenças. Esta tentativa de esclarecer o que é cada um destes grupos”, ressaltou. “Isso denota um respeito muito grande da Pecan por cada uma das pessoas que está aqui dentro e um olhar atento para as mudanças que estão acontecendo fora dos muros da penitenciária”, continua. “Acho que essa iniciativa deve servir do modelo para outros complexos prisionais no Estado.”

“O direito instituído não é suficiente para derrubar o preconceito", argumenta assistente social

Assistente Social da Secretaria de Saúde, Eduarda Bernardo Nunes está ligada ao setor do Município que dá Atenção Integral à Saúde da População LGBT. A jovem palestrou junto ao médico Carlos Alberto sobre “Identidade de gênero e identidade sexual” nesta terça-feira, dizendo estar muito feliz por tratar o tema com pessoas que lidam com grupos muito diversos todos os dias. “É muito bom saber que a Pecan está se preocupando em atender a cada grupo de forma diferente, dando a atenção que ele necessita”, elogia. “Porque a pessoa deve ser tratada e respeitada pelo nome que ela quer. Os transexuais e transgêneres garantiram este direito.”

Embora com o direito garantido, Eduarda salienta que ainda é preciso quebrar a enorme barreira do preconceito. “O direito instituído não é suficiente para derrubar o preconceito. Pelo menos não ainda”, argumenta. “Isso é algo que foi instituído, mas a maioria das pessoas não entende e dá de ombros. Por isso, é tão importante este tipo de política que valoriza as diferenças e tenta garantir o tratamento igual a todos”, defende a assistente social, lembrando que a vulnerabilidade dentro de uma penitenciária é ainda maior. “Lá fora cada um decide o que vai fazer, mas não aqui dentro. O encarceramento deixa qualquer um mais vulnerável.”

Entrevista - diretor-geral da Pecan Jorge Carlos da Silva

O Sr. teve a iniciativa de criar um curso para atender melhor a população carcerária da Pecan. É possível dizer que hoje se pensa nesta população de forma diferente?

Jorge Carlos da Silva - Dá para dizer sim, que não se pensa mais em carceragem como se pensava quando comecei a trabalhar para a Susepe, lá em 2007. Hoje se tem um olhar muito mais atento para questões humanitárias, no entanto a reincidência de crimes ainda é um problema muito grande. O preso sai, comete um novo delito e volta à cadeia. E contra isso ainda é preciso fazer muito mais, trocando as políticas de repressão pela de resociabilização. Os investimentos do Estado se concentram na Polícia Civil e Brigada Militar como se não fosse necessário trabalhar na garantia de que o preso não retorne a combater crimes. É preciso focar mais em questões humanitárias. É preciso se preocupar mais com o que detento vai fazer logo que for solto.

Existe uma preocupação muito grande das autoridades quanto a transferência de criminosos de alta periculosidade para a Pecan. Isso já aconteceu ou está acontecendo?

Jorge Carlos da Silva - Não. Temos na Susepe a Departamento de Segurança e Execução Penal (DSEP), que é o órgão responsável por encaminhar os presos de forma mais adequada possível a cada penitenciária. Então não recebemos lideranças de facções aqui. A Pecan nasceu como uma penitenciária moderna cuja meta é a resociabilizar os detentos. E isso não seria possível caso tivéssemos bandidos coordenado galerias. Trabalhamos com um convívio de bastante respeito entre os profissionais responsáveis pela carceiragem e os presos. E queremos que continue assim.

Há alguns anos a mentalidade era de que “só pobre vai para a cadeia”, porém hoje vivemos um momento em que dois ex-presidentes estão presos, além de ver vários outros políticos e empresários algemados rumo à cadeia. Isso ajuda no processo resociabilização?

Jorge Carlos da Silva - É claro que sim. Hoje se tem ao menos a percepção que a impunidade não é mais a mesma. Então a população carcerária tem sim este entendimento que seja rico ou pobre, o sujeito vai para a cadeia. E não vamos nem falar em Odebrecht, que é algo distante da nossa realidade, mas aqui mesmo, a pouco tempo, ficamos sabendo de empresários altamente conceituados da saúde sendo presos em operações da Polícia Civil.

Além da presença de profissionais ligados à administração municipal, notamos que a igreja também se faz presente junto ao detentos. O Sr. gostaria de ver mais gente se envolvendo com a Pecan?

Jorge Carlos da Silva - Com certeza. Nós gostaríamos que as universidades se fizessem mais presentes na Pecan, afinal de contas há três na cidade. Já estamos em contato com a UniRitter para desenvolver alguns trabalhos juntos, mas queremos mais. Estudantes e professores de áreas como saúde, direito, assistência social, além de áreas específicas como culinária são muito bem vindos para conhecer a Pecan quando quiserem. Porque o trabalho desenvolvido por eles aqui terá um retorno lá adiante, quando estas pessoas voltarem às ruas. Ninguém vai ficar preso aqui para sempre.

E quanto aos empresários? É preciso mais envolvimento?

Jorge Carlos da Silva - Muito mais. Em primeiro lugar, o empresário tem que vir conhecer a Pecan. Entender e se sensibilizar com o que acontece aqui dentro. Só assim vai ser possível desmistificar a figura do detento. As pessoas que estão aqui fizeram escolhas que não são as mesmas que nós fizemos. Portanto, estão pagando por seus crimes após serem julgadas e condenadas. Quero dizer com isso que são pessoas. Seres humanos. Não são monstros, não são bichos e nem nada das besteiras que a gente ouve dizer por aí. Temos uma população de desempregados, operários, mecânicos, eletricistas, engenheiros e médicos. E buscamos tratar a todos com a dignidade que merecem. Queremos o nosso empresariado entendendo essa realidade. E ao mudar a mentalidade e deixar o preconceito de lado, estas pessoas terão nova chance quando saírem em liberdade.


Diário de Canoas
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