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Lily Safra

Garimpando o passado canoense da bilionária Lily "Dourada"

Doadora de R$ 88 milhões para a Notre-Dame, Lily Safra teria mesmo nascido por aqui?
13/05/2019 11:06 13/05/2019 11:07

Divulgação
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Há uma frase famosa no jornalismo: “Siga o dinheiro”. Foi seguindo uma montanha dessas verdinhas que dois repórteres do Washington Post conseguiram juntar as peças de um quebra-cabeça escandaloso no Caso Watergate nos Anos 70. Os rastros que os dólares e a ambição dos políticos deixados pelo caminho resultaram na queda de ninguém menos que o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, em 1974.
Dinheiro, aliás, é o que não falta para Lily Safra, de volta às manchetes por ser uma das mecenas que ajudarão a reconstruir a Notre-Dame de Paris após o incêndio de 15 e 16 de abril. Logo depois da tragédia, a bilionária brasileira anunciou uma doação nada modesta de 88 milhões de reais, após o traumático episódio que destruiu a estrutura da “Nossa Senhora de Paris” - e boa parte da história francesa.
Além de ficarmos sabendo pela imprensa internacional que Lily é conhecida como “Gilded Lily”, algo como “Lily Dourada”, retornou à pauta o episódio da censura à biografia da viúva do banqueiro Edmond Safra, ocorrida em 2013. Todo mundo queria saber e falar mais sobre ela, e a socialite de 84 anos não é de dar entrevistas. O livro era a grande fonte. Nosso bairrismo também falou mais alto, após a menção de que Lily é gaúcha, ora citada como nascida em Porto Alegre, ora como canoense. A questão é que a passagem de Liliy por nossa região não possui registros e a infância dela por essas bandas esteve longe de ser documentada, ao que parece. Nascida “Watkins”, Lily era filha de um empresário estrangeiro do ramo ferroviário e é o pouco que se sabe desse passado humilde.

A biografia tornou-se quase uma busca pelo Santo Graal. A Justiça proibiu aos brasileiros o livro da jornalista canadense Isabel Vincent, “Gilded Lily: Lily Safra, The Making of one of the world´s wealthiest widows” (Editora Harper Perennial, 2011). A tradução é algo assim: “Como se fez uma das viúvas mais valiosas do mundo”, título com direito a um duplo sentido na expressão “making of”, que tanto quer dizer “bastidores” quanto insinuar “como Lily teria se construído como viúva ricaça”. A sutileza linguística não passou despercebida, mas o descontentamento da família foi além. A obra acabou não circulando por aqui pela Editora Harper Collins. Há cinco anos uma juíza da 7ª Vara Cível de Curitiba vetou a comercialização, sob pena de os editores terem que pagar R$ 100 por exemplar.
A menos que você recorra ao site da Amazon, leia em inglês, pague os R$ 61,00, você não terá acesso a esse livro. Porque é um livro proibido? O pano de fundo dessa novela judicial é a informação (com ares de fofoca) da escritora que trabalha do tablóide New York Post de que Lily esteve mais envolvida na morte do marido banqueiro do que se acreditava (seu irmão Artigas Watkins, mais ainda). Conforme o jornalista Luciano Trigo, que escreveu a respeito, na época da censura, Lily também é apontada como uma “alpinista social”, a partir dos seus vários bons casamentos. A jornalista canadense não pouparia elementos para apresentar Lily como uma verdadeira “viúva negra” e, claro, que não acabaria bem para o livro. “Se fez uma insinuação à época da morte do empresário Alfredo Monteverde (1969) de que ela teria participado”, ressalta a historiadora do RJ Mary Del Priore. “Foi uma especulação sem fundamento, pois era notório no RJ o quadro depressivo do empresário pelos que o conheceram.”
Trigo transcreveu trecho da sentença: “A suposição de que Artigas possa ter contribuído para a morte do cunhado em contrariedade à investigação policial efetivada é grave, mormente porque sequer há demonstração de que se trata de material elaborado após detida pesquisa ou mesmo autorização do biografado”; (…) “A situação, não obstante o falecimento de Artigas, atinge seu filho e atinge a honra subjetiva deste”; (…) “[a liberdade de expressão] não pode afetar o direito à honra e à imagem”.
Lily foi criticada por não ter destinado o dinheiro da Notre-Dame para os pobres. Mas, justiça seja feita, ela fez muitas doações polpudas para causas sociais e para pesquisas ao longo dos anos, basta recorrer à internet, nem é preciso reportagem investigativa.
Ir atrás dessas histórias é mania de jornalista. Por curiosidade, por masoquismo e para levar um pouco mais de informação ao leitor a gente acaba embarcando nessas pesquisas que nem sempre levam a algum lugar. Talvez seja saudade daquelas gincanas de colégio quando alguém dava uma tarefa e a gurizada saia ensandecida para conseguir concretizar.
Eis aqui, então, a (ou uma) história (talvez não-história) da canoense-portoalegrense Lily Watkins Cohen Monteverde Safra dos tempos em que a família não tinha tanto glamour e Lily nem sonhava em ser proprietária da Villa Leopolda, conforme a revista Forbes, mansão situada na comuna francesa de Villefranche-sur-Mer, na Costa Azul (Riviera Francesa) e que foi comprada por ela por módicos 500 milhões de euros.


UMA FUTURA SAFRA PELAS MACEGAS DE CANOAS

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Não fomos para Mônaco, nem para Londres, tampouco para a Riviera Francesa ou Nova York para entrevistá-la. Buscamos sem sucesso contato com a “The Edmond J. Safra Foundation” (com financiamentos relevantes para a pesquisa do Mal de Parkinson) e o Instituto Internacional de Neurociências de Natal - Edmond e Lily Safra (IINN - ELS).
Descobrimos que o município fluminense de Mesquita, com 168 mil habitantes, metade da população de Canoas venera o pai de Lily, Wolf White Watkins. Há um centro cultural chamado Mister Watkins (financiado por Lily) e uma rua com o mesmo nome. Não foram poucas as tentativas telefônicas de encontrar um especialista naquela localidade, ou mesmo um registro público que ajudasse a puxar o fio da meada. A distância, recorrer às repartições públicas, tornou-se uma tarefa ingrata e infrutífera. Duas informações auxiliaram: as histórias de Canoas e Mesquita estão intimamente ligadas à linha férrea.
Para um jornal local, a menção do nome de Canoas em reportagens mundo afora acende uma luz. A ordem do dia é cavar essa história, e ter certeza de que a bilionária é mesmo de onde dizer ser. Mas o primeiro banho de água fria vem em seguida: Canoas completa 80 anos de sua emancipação em 27 de junho. Lily completa 85 anos em 30 de dezembro. Ou seja, a bilionária, se realmente viveu por aqui, é de uma época em que Canoas era distrito de Gravataí. Lily nasceu em 1934 e Canoas nasceu em 1939.
Se a ordem do dia era seguir “o dinheiro”, sabe-se que o dinheiro de Lily Safra não respingou por aqui para homenagear suas origens, nem há monumentos ou coisa parecida. Isso pode indicar uma total falta de vínculo entre Lily e Canoas. Fotos não eram comuns como hoje. Nem as crianças eram tão paparicadas como hoje.
O historiador da Prefeitura de Canoas, Edison Barcellos, auxiliou a garimpar uma pepita que fosse por aqui. Não encontrou, porém, nenhuma menção aos Watkins como primeiros moradores de Canoas. Voltemos ao trem. A estação de Canoas foi inaugurada em 1874 pela “The Porto Alegre and New Hamburg Brazilian Railway”, nas terras da Fazenda Gravataí. Canoas era apenas uma área de veraneio. Mas a cidade cresceu, e, em 1934, foi inaugurada uma nova estação, maior que a original, que era de madeira. 

FOTO 1 – (Fonte http://www.estacoesferroviarias.com.brA estação original de Canoas, foto sem data, extraída do livro Caminhos de Ferro do Rio Grande do Sul, J. R. Souza Dias, 1987)
Foto 2 - ACIMA: Porteira na estação de Canoas, supostamente para impedir a entrada de animais. A foto parece ser do início do século XX. Reparar na plataforma coberta da estação de então. Ver a fotografia da estação ao pé da página (Autor desconhecido). (Fontes: http://www.estacoesferroviarias.com.br. Ralph M. Giesbrecht, pesquisa local; Alexandre L. Giesbrecht; Jorge Luís Stocker Jr.; Revista Ferroviária, 08/2000; J. R. Souza Dias: Caminhos de Ferro do Rio Grande do Sul, 1987; IPHAE: Patrimônio Ferroviário do Rio Grande do Sul, 2002; Guias Levi, 1940-1981; Guia Geral das Estradas de Ferro do Brasil, 1960; Mapa - acervo R. M. Giesbrecht)

ELEMENTAR, MR. WATKINS
.As hipóteses sobre a família Watkins em Canoas estão ligadas ao trem. Mr. Robert Wolf Watkins era tcheco, apresentava-se como inglês e usava até um perfil anglo-saxônico, “Bobby Ganz”. Veio ao Brasil em meados do século XX tentar a vida. O tempo, contudo, apagou as pegadas em Canoas: não há amigos, parentes nem escritos. Sabe-se que Lily nasceu em 1934 e teria ficado por aqui na primeira infância e portanto num período que coincide com as obras da nova estação. O pai dela, em 1949, seria diretor-técnico e chefe técnico das oficinas da Sociedade Nacional Reconstrutora Limitada (Sonarec) lá em Mesquita. Fazia manutenção e construção de peças para trens. Uma coisa pode estar ligada a outra. Ou não. O que se especula é que Mr. Watkins era do tipo articulado e posudo, sabia bem circular nos altos meios ainda que demorasse bastante para chamar esses círculos de seu. Em uma pesquisa no acervo do jornal Estadão dos Anos 30 encontra-se um imbróglio envolvendo 100 mil reais entre a empresa que Watkins tinha no RS e uma do RJ. Seria exatamente o mesmo Watkins? Havia muitos ingleses no Brasil com sobrenome parecido atuando em ferrovias. Impreciso.


BATISTÉRIO DA CÚRIA METROPOLITANA
Lily poderia ter sido batizada em Canoas (na época distrito), em Gravataí ou em Porto Alegre. A Cúria Metropolitana de Porto Alegre tem um acervo que é um tesouro. Acionada pela reportagem a supervisora de arquivo do Batistério, Ivete Bampi, foi mais uma vez garimpar sobre os Watkins. “Sempre pesquisados dois anos e dois anos depois do nascimento mencionado, fomos para 1932 a 1936”, conta. “Canoas só tinha a Paróquia São Luiz e Gravataí a dos Anjos, mas a família Watkins não aparece em nenhum registro ou livro.” Em Porto Alegre, não foi diferente. “Os registros eram precários, o padre ia nas casas, anotava em pedaços de papel, depois ia para o livro”, aponta. “Nem sempre o padre passava o registro do papel para o registro oficial.” Se Lily tivesse casado aqui pela região, lá estaria os registros do batismo, mas isso não aconteceu e tampouco tivemos acesso à carteira de identidade da milionária. Se tivesse ficado por aqui, teríamos hoje o registro preciso dos primeiros dias de Lily Safra, mas ela possivelmente não teria se tornado a bilionária que se tornou, e os jornalistas talvez nem tivesse interesse em sabê-lo. Notre-Dame também ficaria sem os 88 milhões de reais que serão fundamentais para resgatar a história consumida pelas chamas francesas. A esperança é que Lily Safra leia esta reportagem e nos envie as passagens para que possamos fazer uma longa entrevista, de preferência na Riviera Francesa. Quem sabe?


Diário de Canoas
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