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Notícias | Região Anos 60

Netinho: os anos Incríveis do batera de Itariri

Sucesso nos Anos 60, "Os Incríveis" toca em Canoas com integrante da formação original

Por Jeison SIlva
Publicado em: 14.09.2018 às 15:18 Última atualização: 14.09.2018 às 15:18

formação originalNão tem nada a ver com a animação da Disney/Pixar, aquela da família de super heróis usando roupa vermelha, combatendo o crime. “Os Incríveis” da reportagem são, sem exagero, os adolescentes da banda mais “batuta” que apareceu por aqui nos Anos 60. E estarão hoje à noite em Canoas.

Por volta dos 18 anos de idade, os nossos Incríveis viveram tudo aquilo que um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones poderia almejar, um deles em especial: o baterista Netinho. O cara lembra bem de todo o sucesso, das turnês internacionais, da amizade com Jorge Ben e do comentado affair com a cantora Rita Pavone.

Mais de 50 anos depois do primeiro álbum, das fases The Clevers e The Increíbles, o rastilho de pólvora deixado por Mingo, Manito, Risonho, Nenê (depois Neno) e Netinho ainda é capaz de provocar uma explosão nos bailes pelo Brasil afora. Os “coroas” da plateia voltam no tempo. Mas não tem essa de saudosismo não. Álbuns fundamentais estão disponíveis no Spotify e muita gurizada redescobre as origens do rock brazuca. Nos aeroportos da vida, conta Netinho, são músicos reconhecidos na cena prestam reverência aos verdadeiros dinossauros do showbizz nacional. Com nova formação, Os Incríveis tocam nesta sexta-feira, às 23 horas, no CSSGAPA (Rua Tobias Barreto, 990). Os ingressos variam de R$ 30 a 50. Informações pelos fones 3785-5927 ou 3462-5191. Milionário, Czardas, O vagabundo, O vendedor de Bananas fazem parte do repertório.

Novo com capa psicodélica
.O nome de batismo de Netinho é Luiz Franco Thomaz. Está com 72 anos, é o único remanescente da clássica formação. No show, reserva um momento de jam para dividir as baquetas com o filho, Sandro Haick, produtor e também guitarrista dos “Novos Incríveis”.

Netinho conversou com o DC por telefone direto de São Paulo, empolgadíssimo com o lançamento em outubro de mais um álbum com inéditas do grupo. Se chamará “A Paz é Possível”, terá 14 canções e capa do “artista plástico mais psicodélico do Brasil” Antonio Peticov. Firme na batera com a voz já cansada das gravações e shows que ainda o fazem virar a noite, Netinho revelou o quanto a polêmica em torno de uma canção dos Incríveis pode ter contribuído para o fim da banda nos Anos 70. Contou o que achou da versão do Engenheiros do Hawaii para um arranjo dos Incríveis e de como uma viagem à Europa mudou a relação dos integrantes com o cenário musical. E ainda tem a história por trás da gravação de “O Milionário” e “O Vendedor de Bananas”. Confere aí a entrevista.

ENTREVISTA – Netinho, baterista original da Banda “Os Incríveis”
Vamos começar por 2018... Tem CD novo em outubro?
Pois é, rapaz. Depois de 36 anos a banda resolve fazer um disco inédito e autoral. Já vínhamos gravando há muito tempo com a turma nova. Mas estava complicado porque os empresários queriam que fizéssemos algo mais popular. Queríamos um trabalho bem primoroso, de gosto, fino, com orquestra e participações especiais. Foi aí que pediram uma música para mim para uma campanha da paz da comunidade japonesa, em 100 países. O nome é “A paz é possível”. Pedi ao Mário Marcos, irmão do cantor Antônio Marcos para me ajudar, o cara é muito bom. O refrão é em japonês. Serão 14 músicas, todas já gravadas. Compus seis. Não tem tudo a ver com Os Incríveis do passado. Se bem que o público sempre conheceu mais as versões pop italianas... mas sempre gravamos de tudo.

Quem são os novos incríveis?
Somos seis, o saxofonista está na Holanda agora, ele é Wilson Teixeira. De primeira linha. Para essa banda, fui buscar músicos de jazz. Levou muito tempo para se adaptarem ao estilo dos Incríveis. É tudo fera, tocando para caramba. Antigamente os fãs eram muito ligados aos hits, havia certo desapontamento por não ser igual, por ter mais notas, mas já temos recebido mensagens elogiando. Tocam comigo o Sandro Haick, meu filho, produtor e guitarrista. Leandro W. é o baixista e vocal. Esse é gaúcho de São Lepoldo. Rubinho Ribeiro é vocal e guitarra. O Bruno Cardozo comanda os teclados.

Vamos para os Anos 60... o sucesso dos Incríveis foi gigantesco...
.Foi mesmo uma explosão inesperada. Eu tinha 17 anos quando entrei nos então “The Clevers”. Não existia informação de como tocar, era uma banda intuitiva, uma geração que parece que nasceu pronta. Meu apelido surgiu porque ganhei uma bateria do meu avô, ficavam brincando que eu era o netinho do vovô. Era bem diferente: tinha pele de animal, precisava molhar, esperar secar. Começamos tocando influenciados pelo Manito. Era de família espanhola, tocávamos nas festas música espanholas, mas transformava em Twist. Começamos a ouvir bandas norte-americanas, como a The Ventures. Foi isso que nos influenciou a gravar instrumentais. Parece que o público antigamente tinha gosto bem mais aprimorado, gostava de bons boleros, jazz, canções trabalhadas, solos instrumentais, cantores bons, o músico tinha que saber tocar de verdade. Tivemos o apoio do radialista Antonio Aguilar e através dele que gravamos. A nossa grande sorte era tocarmos por música, por partitura, sabíamos ler. Foi isso que fez com que fossemos escolhidos para acompanhar a cantora italiana Rita Pavone, em 1964. Ela nos convidou para fazer 40 shows pela Europa, ainda como The Clevers. Agradou muito. Trouxemos equipamento novo, mudou totalmente nossa carreira. Passamos a ter o maior cachê do Brasil, tudo aquilo era um diferencial. Comprei uma bateria Ludwig, os garotos, Fender. Tudo isso influenciou para virarmos sucesso. Aí ganhamos um programa, o Clever show na Record. Surge a Jovem Guarda e somos contratados pela TV Excelsior. Viramos “Os incríveis” para ser um nome brasileiro, similar a outras bandas da época. Éramos sempre confundido com bandas americanas. Fizemos uma grande turnê pela América do Sul.

A banda estourou com um clássico espanhol. E como decidiram gravar “O Milionário”?
Foi com “Relicário”, música instrumental que fomos para o topo das paradas. Gravamos “O Milionário” ainda como The Clevers. Algumas das versões que fazíamos tinha a influência da gravadora, mas tínhamos ótimos músicos produzindo conosco, o guitarrista Poly, não era só pensar em vender. No caso do Milionário, tínhamos comprado uma câmara de eco e queríamos testar. Deu aquele efeito bonito quando tocamos a música e decidimos gravar. A gente podia ficar no estúdio o dia inteiro. Comia, dormia, ficava lá. Não era como hoje, só duas horas. Ficávamos a semana inteira. Entrei na escola de música aos 8 anos. Não éramos uma banda de garagem, vínhamos de orquestras de outras bandas.

E a visita do Jorge Ben ao estúdio?
A gente estava no estúdio ensaiando e apareceu o Jorge Ben para nos visitar. Começou a brincar que tinha uma música para o Netinho que é de Itariri, a terra da banana. Vamos gravar já, eu falei. Aí surgiu o sucesso “O Vendedor de Bananas”. Sou do litoral de SP, tem um mar bonito. O nome Itariri significa “pedras que fazem barulho”, por isso, de certa forma, posso dizer que sou uma pedra que rola, tipo um “rolling stone”.

Não bastasse isso tudo ainda teve o namoro com a cantora mais cobiçada da época...
sA Rita Pavone fazia sucesso com “Datemi Un Martello”. Ela queria vir com a orquestra dela par ao Brasil, mas a Record não tinha condição de pagar. Os Clevers liam partituras, fomos chamados e saímos tocando. Pintou um flerte e isso saiu no jornal. Foi um boom no mundo inteiro. Durante a turnê na Europa eu não podia sair na rua na Itália. Tinha sempre um outdoor meu em todas as cidades. Da banda só tinha o nome. Rita era uma sapeca. Brincava muito com os músicos foi uma turnê maravilhosa, um sonho. Nunca imaginaria que chegaríamos tão longe. Subíamos num palco gigante como em Roma Milão e Veneza. Rita pulava em cima do Manito no palco, muito divertida. O engraçado é que eu tinha uma namorada aqui no Brasil e o pai dela uma vez me expulsou da casa dela porque soube dessa história com a Rita Pavone.

E como foi estrelar um filme?
Foi o primeiro filme colorido do Brasil: “Os Incríveis neste mundo louco”, de 1965. Foi antes dos Beatles. Não tivemos influência dos Beatles. Mas a gente conheceu o som deles na Argentina, quando ninguém conhecia ainda no Brasil. Em Buenos Aires éramos Los Increíbles. Era um show só lá e ficamos nove meses. Participamos no Canal 9, do Sábados Continuados, um programa de nove horas de duração, um dos maiores do mundo.

“Era um garoto” foi regravada pelos gaúchos do Engenheiros do Hawaii, o que acharam?
Na época a gente encontrou com eles em Recife, ficamos no mesmo hotel. Disseram que tinham simpatia pela música, pela nossa versão, aí pediram autorização para regravá-la. A gente até foi no show deles. Modificaram muito pouco o arranjo da gente, ficou bom, não tinha muito o que transformar mesmo.

E a história dos fãs enlouquecidos em Porto Alegre?
Era 1963 ou 1964. A nossa primeira apresentação em Porto Alegre não ocorreu, não teve show. Tudo porque o povo ficou em volta do nosso hotel e não deu para sair nem com escolta da polícia. Joguei uma camiseta do quarto lá para baixo, o povo parecia formiga tentando pegar. Ela foi feita em picadinho. Quando voltamos a cidade uma outra vez eu estava no restaurante. Venho um homem e pediu para eu autografar num pedacinho de pano. Perguntei se não era melhor num papel. Foi aí que ele me disse que era um pedaço daquela camiseta e que tinha pago uma grana por aquele retalho.

A música “Eu te amo, meu Brasil”, em determinado momento, foi associada à Ditadura Militar. O que tem de verdade e de lenda nisso?
A música não tem tem nada a ver com política. Aliás, brasileiro também não entende porra nenhuma de política. A música fala do sol, de mulher, das praias, não fala uma única palavra sobre política. Era para a Copa dos 1970. O que aconteceu é que alguns políticos sacanas passaram a usá-las nas campanhas. Na época não ocorriam muitas críticas. Essa questão veio depois, pois alguns jornalistas começaram a levantar o assunto e espalhar. Os incríveis chegavam nas cidades e a primeira pergunta era sempre essa. Deixamos até de tocá-la por causa disso. Posso dizer que a banda terminou por causa disso, em 1972. Ela ajudou a vender muito disco, aí os produtores queriam que a gente gravasse outra igual. Eu e o Manito saímos fora. Montei a banda Casa das Máquinas. E o Manito “O som nosso de cada dia”. Continuei muito amigo do nenê e do manito, a gente não se separava. Três arianos, muito unidos, companheiro de quarto.

O que o Netinho curte de som hoje em dia? Quais os maiores bateristas da história?
Sigo na música instrumental. No carro é difícil ouvir alguém cantado. Ouço muito jazz desde o tradicional ao fuzzion contemporâneo. Oscar Peterson é meu ídolo no piano. Na bateria tem uma porrada de gente. Dos mais novos, sou fã do pianista Chick Corea.

O que o pessoal de Canoas vai ver dos Incríveis versão 2018 hoje à noite?
Vamos fazer um pouco mais dos trabalhos antigos. Tem uma hora do show que vamos para a batera eu e meu filho. Seguimos fazendo música, sou empresário também e sempre temos agenda a cumprir.

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