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Dia dos pais

Mais fortes do que nunca

Não é fácil ser pai nesta época de crise financeira, violência e internet, mas é sempre recompensador
10/08/2018 13:47 10/08/2018 13:47


Diva do Marais/Divulgação
Emerson Petro sempre quis ser pai e hoje se diverte com o casal de filhos Joaquim e Alice
Lá pelo meio da peça Hamlet, de William Shakespeare, o personagem Polônio aconselha o filho Laerte, então de viagem marcada. São aquelas dicas de pai bem básicas, mas que se fossem seguidas à risca, qualquer um viveria melhor. "Ouve a todos, mas fala com poucos", diz. Pensa que o rapaz escuta? Claro que não. A peça do bardo foi escrita por volta de 1600. Quer dizer, já não era fácil ser pai naquela época. Aliás, como não deve ter sido em qualquer período da história da humanidade.

É claro que cada um lida com a paternidade do seu jeito. Para alguns, demora um pouco um pouco mais para cair a ficha do que para outros, mas a responsabilidade é a mesma para todo mundo. Só que não há dúvidas que ser pai hoje não significa o mesmo que há três ou quatro décadas. Estudos feitos por americanos, ingleses, brasileiros e gaúchos embasam esta tese. A presença paterna nunca foi tão necessária na educação de crianças e adolescentes quanto na atualidade. Também pudera. Aquele modelo de família no qual o pai saía para trabalhar enquanto a mulher ficava só em casa cuidando dos filhos já saiu fora de moda faz tempo.

Às vésperas do Dia dos Pais, ouvimos três pais para saber um pouco mais do "ofício" nestes tempos de crise financeira, violência extrema e uso excessivo da internet. Aproveitamos para saber também o que pensa uma especialista no assunto. Afinal, uma pesquisa recente da  Associação Brasileira de Terapia Familiar (ABRATEF) apontou os pais de crianças e adolescentes cada vez mais afastados do ensino dos filhos. Gilca Lucena Kortmann explica os perigos desta ausência. Afinal, todo mundo precisa de um pai. É mais importante do que nunca, conforme ela diz. Então, neste Dia dos Pais, não deixe de dar uma abraço bem apertado no seu. 

Exigindo os cuidados especiais

Quarentão, Emerson Petro se diverte lembrando que o pai não sabia nem o que ele comia e nunca trocou uma frauda sequer. "Se a mãe saía de casa, o pai ficava perdido", brinca. Uma realidade bem diferente da vivida pelo trabalhadorcom a Alice, 7 anos, e o Joaquim, 4. Petro confessa que sempre quis ser pai, porém sabia bem que os tempos mudaram e ajuda em casa seria bem diferente de quando era só filho. "Desde que a Alice nasceu, fosse para levar no médico ou ajudar com o tema do colégio, estive sempre pronto", garante. Só que a responsabilidade cresceu quando o pequeno Joaquim, no segundo ano de vida, foi diagnosticado com autismo.

Petro e a esposa, Diva de Moraes, precisaram se adaptar rapidamente à realidade. É que o Joaquim necessita sim de cuidados especiais. "A atenção é extra seja com as idas dele ao banheiro ou nos conflitos em casa com a irmã", aponta. "É que briga entre irmãos é normal, mas com o Joaquim pode se tornar uma crise séria", explica. Se desde então a atenção em casa com as duas crianças foi triplicada, o que não mudou foi o carinho e atenção do pai mesmo com o menor dos detalhes. "Quero que eles enxerguem em mim sempre o amigo a quem eles sempre podem contar."

A lição que o papai Emerson Petro ensina: "Antigamente a gente tinha a mãe como porto seguro, mas não acho que agora tenha que ser assim. A integração em família é importante para dar a mesma medida para o pai e para a mãe."

Pronto para viver tudo de novo

Régis Carvalho vive, às vésperas do Dia dos Pais, um verdadeiro turbilhão de emoções. É que o bancário de 36 anos pode ser pai novamente a qualquer momento. Pai da pequena Rafaela, 5 anos, ele aguarda - ansioso - a chegada do Ramiro. "São dois sentimentos. Em primeiro lugar vem a felicidade por ser pai de um menino, que era algo que eu não esperava. E em segundo lugar, há uma responsabilidade muito grande de criar e educar duas crianças. Tenho medo de ficar desempregado como todo mundo", fala. "Tenho receio de não conseguir dar tudo que eles precisam."

Como todo pai, Régis um dia foi filho. Porém, ele observa que mudaram muito as relações entre pais e filhos nas últimas décadas. "Os nossos pais eram mais rígidos com a gente porque vinham de uma educação no qual os pais deles também eram bastante severos", opina. "Só que hoje não é assim. Eu mesmo, o máximo que fiz foi dar um puxãozinho de leve no braço da Rafinha", revela. "Não critico a forma como outros pais educam as crianças, mas acho que é preciso tentar ser o melhor pai possível para quem sabe ser amado no futuro. Não acredito que a criança deixe de corresponder ao receber amor e carinho. Até porque não tem sentimento maior do que o amor dos pais pelos filhos."

A lição que o papai Régis Carvalho ensina: "Acho que hoje não dá para sair de perto das crianças. A violência é tão grande e se tornou tão banal no nosso cotidiano que todo o cuidado com os pequenos é pouco."

Lidando com a fase da adolescência

Tendo se tornado pai com 20 e poucos anos, o professor de Português Tiago Martini Wedman, 37 anos, lida diariamente com a adolescência em tempos ditos "modernos." Wedman é pai do Matheus, 13 anos, e da pré-adolescente Laura, 11. Para ele, a principal diferença entre a juventude que viveu e a atual é a falta de limites que impera hoje. Os menores não têm medo das consequências. E isso é preocupante, segundo o professor. "Sou até criticado por ser bastante enérgico. E aqui em casa tem horário para comer, para dormir, etc. Isso é algo que era comum quando eu era piá. Só que a gurizada de hoje não quer mais saber disso", bronqueia. "Muitos pais apenas têm os filhos e deixam que o mundo eduque. Não concordo. Sem orientação, eles não têm limites e acabam não entendendo as consequências de seus atos."

Afirmando ser participativo em praticamente todas as atividades do Matheus e da Laura, Wedman vive uma fase em que precisa se preocupar principalmente com a internet. "Quando eu era guri, o pai precisava me puxar pela orelha para me levar para dentro de casa. Senão, eu passava o dia na rua. Só que em 2018 é diferente", frisa. "Se deixar, eles passam o dia dentro de casa, ora com o celular, ora em cima do computador e da televisão", continua. "Eles ainda não têm a dimensão do perigo e de toda a maldade que existe na internet, então tenho que ficar em cima sim. Eu e minha esposa, a Nataniele, não saímos da volta. Acho que ser pai hoje é por aí. Tem que conversar muito. E se precisar explicar sete mil vezes a mesma coisa, a gente explica."

A lição que o papai Tiago Martini Wedman ensina: "Meu avô já dizia que criança sem cicatriz é criança sem história para contar. Tem que tirar esta gurizada de dentro de casa para ir brincar na rua, que é muito mais legal."

ENTREVISTA Gilca Lucena Kortmann

"Tem criança que tem pai sem ter", afirma especialista

Ser pai hoje é diferente do que era ser pai há 50 anos, certo?

Gilca Lucena Kortmann - É diferente em todos os parâmetros do que significava ser pai antigamente. A "presença paterna", aquela figura de austeridade, que era quem mantinha a casa e acabava sendo temido só com o olhar já acabou. Há 50 anos era comum ouvir da mãe dizer "olha, que eu vou contar para o teu pai." Só que isso está morto. Naquela época, o pai não tinha tempo para participar da educação do filho e também não havia qualquer influência para que buscasse interagir mais com a criança ou adolescente.

Mas então o pai é mais importante hoje?

Gilca Lucena Kortmann - Estudos com ênfase na estrutura familiar vem mostrando ao longo dos últimos anos o quanto a presença ou não do pai deixa marcas profundas no desenvolvimento das crianças. É comum hoje ver a mãe cumprindo os dois papéis, o de mãe e o de pai. No entanto, a ausência do pai, seja por causa de um acidente que resulta em morte ou mesmo da separação acaba impactando o comportamento da criança decisivamente sim. Talvez de uma forma que não fosse tão impactantes há décadas.

E estas mudanças são visíveis no dia a dia?

Gilca Lucena Kortmann - Claro, pode-se notar o baixo desempenho na escola, a teimosia, o relacionamento frágil com os colegas. E na adolescência a agressividade exaltada e a dependência química. E todas estas características não são notadas só por causa de trauma da perda do pai. Porque o pai precisa estar presente. E a gente sabe que tem criança que tem um pai sem ter um. A ausência dentro de casa, seja em atitudes ou no comprometimento com a educação, também acaba sendo bastante prejudicial.

Ouve-se de pais que os filhos estão mais fragilizados do que nunca. Você concorda?

Gilca Lucena Kortmann - A gente vem de uma cultura patriarcal que dizia que o homem deveria trabalhar, casar e ter filhos. Então era comum antes que o jovem, logo que chegava na adolescência, já ouvisse do pai: "Toma o teu rumo guri." Porém, este conceito também está datado. O cenário mudou e o que se vê hoje é uma grande fragilidade nas relações familiares e juventudes prolongadas para além da adolescência. São homens e mulheres que não conseguem cortar o vínculo e ficam morando com os pais até os 40 e 50 anos. E quando perdem o pai e a mãe, a aceitação é mais complicada ainda.

Você acha que há superproteção dos filhos passa da conta?

Gilca Lucena Kortmann - A rua antigamente significava liberdade, mas hoje ela significa perigo. É tendência dos pais manterem os filhos cada vez mais próximos dentro de casa porque a criança vai para escola hoje e a gente não sabe se volta. Todo este cuidado e esta proteção excessiva não é desmedida. Foi a própria sociedade que impôs pela falta de segurança. 

Mestrada e doutorada em educação pela Unisinos, Gilca Lucena Kortmann, 56 anos, é terapeuta, professora e coordenadora de pós-graduação em Psicopedagogia da Universidade La Salle. Ela coordena também o Núcleo de Atendimento Psicopedagógico da universidade. Tem especializações em Psicopedagogia Clínica, Educação Especial, Psicomotrocidade, Estimulação Precoce para Bebês, Terapia de Casa e Família e Neuropsicologia.


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