Foto: Neia Dutra/GES
Adolescente mostra arroio onde jogou arma depois do crime
Novo Hamburgo - Com a mesma frieza com que descarregou uma pistola calibre 380 executando um casal e o filho à luz do dia na terça-feira e baleou outras duas vítimas, dois dias depois, um adolescente de 15 anos, conhecido como Facção, se entregou à Polícia e confessou a autoria dos crimes na Vila Palmeira, bairro Santo Afonso, em Novo Hamburgo. “Eu não sei mirar. Eu só apontava na direção deles e atirava”, relatou o acusado. De bermuda, tênis, camisa polo e um olhar de tranquilidade estampado no rosto, o menor contou que teve medo de se entregar na 4.ª Delegacia de Polícia e procurou a Polícia Civil de Portão, por volta das 9 horas de ontem.
De lá foi conduzido à delegacia do bairro Santo Afonso, onde cometeu os crimes, e assumiu a culpa. Ele contou em detalhes durante horas de depoimento como executou a família e o que teria motivado a chacina e, dois dias depois, o segundo tiroteio que feriu outras duas pessoas. Na tarde de ontem, o menor foi apresentado ao Ministério Público onde reafirmou a confissão. A Promotoria orientou a internação no Centro de Atendimento Socioeducativo (Case).
Relatos dos crimes
- Em mais de uma hora de depoimento, o adolescente, conhecido como Facção, segundo a Polícia devido à fama de briguento, narrou com muita tranquilidade e com os mesmos detalhes apurados pela perícia, como matou o vigilante Almiro Terres, o Miro, 51 anos, a esposa Lorena Rodrigues da Silva, 45, e o filho Vitor Matheus da Silva Terres, 13, na tarde de terça-feira na Rua da Divisa, bairro Santo Afonso. Vitor chegou a ser socorrido, mas morreu no fim da tarde de quinta-feira.
- Segundo o menor, a desavença com a família Silva Terres iniciou em 2010, quando ele e Vitor teriam se estranhado na escola. O jovem homicida relata que constantemente era agredido por Vitor e pelo irmão de 16 anos e passou a receber ameaças de outro irmão que está recolhido na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc). Diante das agressões e ameaças, teria avisado os pais dos agressores, Almiro, padrasto, e Lorena, mãe. Como não teve resultado, segundo ele, decidiu por fim na vida do casal, mas ainda precisava de uma arma.
- Duas semanas antes do crime, Facção acompanhou à distância uma abordagem do Pelotão de Operações Especiais (POE), próximo ao dique no bairro Santo Afonso, onde diversos suspeitos foram revistados. Um deles, ao avistar a viatura dispensou uma pistola calibre 380 em um matagal. Facção pegou a arma e colocou na cintura.
- Às 16h15 da última terça-feira foi até a casa de Miro e o encontrou do lado de fora da casa sentado em uma cadeira e disparou contra ele. Entrou na residência e se deparou com Lorena, que foi alvejada várias vezes. Segundo o menor, ela teria se agarrado a Vitor, que acabou baleado na cabeça. “Eu não queria atirar nele (Vitor). Eu só queria matar o Miro e a Lena. Ela que puxou ele”, conta.
- Ao entrar dentro da casa, o garoto teria visto a arma do vigilante em cima da mesa e a colocou na cintura. “Quando eu ia saindo vi que Miro ainda estava se mexendo e queria se levantar, daí dei mais três tiros na cabeça dele e saí”, relata. Miro e Lorena morreram na hora. Vitor foi socorrido até o Hospital Municipal de Novo Hamburgo onde morreu às 18h30 de quinta-feira.
- Após deixar o local do crime, Facção teria se escondido por cerca de quatro horas próximo às bombas do bairro Santo Afonso e em seguida decidiu se desfazer da arma após enrolá-la em uma camisa suja de sangue, atirando em um arroio a 200 metros do local da chacina. Depois foi para a casa da avó. “Eu dormia com o 38 debaixo do travesseiro”.
- “Achei que ninguém ia descobrir que era eu, mas daí alguém me ameaçou e disse que iam me matar. Acho que a ordem partiu do irmão deles que tá no presídio”. Na madrugada de quinta-feira, pouco após a meia-noite, Facção voltou ao ponto onde foi ameaçado com a arma do vigilante e atirou contra três pessoas que estavam no local.
- Dois homens, um de 31 e outro de 26, foram baleados. Um deles foi ferido no pé e outro no tórax. Ao deixar o beco, o menor voltou ao arroio e dispensou a segunda arma. O objetivo era se livrar do flagrante.
“Vi o Miro na rua e ela dentro de casa. Decidi. É agora.”
Somente na manhã de ontem, o adolescente de 15 anos criou coragem para se apresentar na Delegacia de Portão. No fim da manhã voltou ao local onde se desfez das armas e contou à reportagem do Jornal NH como praticou o triplo homicídio.
Por que decidiu matar?
Facção - Decidi matar só a Lena e o Miro, por causa de uma bronca entre eu e o filho dela e mais um que está na cadeia e disse que ia me matar. Daí eu pensei, já que ele vai me matar, eu vou matar toda a família dele. O Vítor morreu só porque a mãe dele colocou ele na frente.
Tinha mais alguém naquele pátio?
Facção - Tinha mais uma criancinha em uma piscina.
E você pensou o quê?
Facção - A criança não iria me reconhecer depois que crescesse. Eu não fiz nada.
Quando decidiu matar?
Facção - Se tivesse pensado não ia fazer. Nem pensei.
Como adquiriu arma?
Facção - No dique. Os vagabundos deram pinote e eu vi um deles dispensando a arma. Esperei a Polícia sair e peguei a pistola. Tava usando na cinta. Na hora que passei na Rua da Divisa, vi o Miro na rua e ela dentro de casa. Decidi. É agora.
E quando soube que os três morreram?
Facção - Já era. Ninguém saberia que era eu. Mas o filho dela descobriu e mandou os caras me matar. Eu preferi me entregar para não morrer. Assim assumo o erro que eu fiz e vou pagar.
E depois?
Facção - Eu baleei mais dois caras que falaram que iam me matar. Eles diziam não vai, não vai que nós vamos te matar. Daí eu peguei o revólver que estava com o Miro.
Por que se desfez das armas?
Facção - Para não ficar flagrante.
Sente arrependimento?
Facção - Sinto, mas agora não tem como voltar atrás.
Tem medo de morrer?
Facção - Sim. Por isso tô assumindo o meu erro.