Canoas - Durante todo o dia de ontem, a equipe de investigação da 1.ª Delegacia de Polícia esteve no Hospital Universitário da Ulbra (HU) para ouvir depoimentos dos colegas de trabalho de Vanessa Pedroso Cordeiro, acusada de dopar com derivado da Morfina e Diazepan 11 bebês recém-nascidos. Segundo o chefe de Investigação, Sérgio Zolim, os depoimentos foram importantes para a conclusão do inquérito. "Confirmamos que a pochete onde encontramos a seringa era dela e que Vanessa teria tentado escondê-la no dia em que foi descoberta", afirmou. Os depoimentos que reforçam as suspeitas sobre a acusada, servirão ainda para a abertura de novos procedimentos. "Retrocederemos no tempo atrás de outros crimes que possa ter cometido."
Além disso, o delegado Guilherme Pacífico pediu à direção do HU informações da vida funcional da suspeita, como data de admissão e escala de trabalho, e atestados de óbitos dos recém-nascidos que morreram na UTI Neonatal no período em que Vanessa trabalhou no local. "Será possível verificar se ela usou o mesmo ‘modus operandi’ em outras situações", explicou. A expectativa agora é pelo resultado da perícia no líquido que estava na seringa.
De acordo com Pacífico, a defesa de Vanessa alega que a seringa teria sido colocada por qualquer pessoa junto às coisas da suspeita. "Por isso, estamos ouvindo os colegas, para saber as rotinas dela, a maneira como agia com colegas e pacientes." O delegado tem cinco dias para concluir o inquérito. O prazo pode ser prorrogado.
VISITA - O advogado de Vanessa, Sérgio Cadena Assumpção, ainda aguarda uma decisão da Justiça sobre o pedido de habeas-corpus de sua cliente. Até ontem à tarde a solicitação não havia sido avaliada. Ele esteve com a jovem na terça-feira e comentou que ela está em uma ala separada no Presídio Feminino Madre Pelletier, em Porto Alegre. "Ela está bem, mas bastante preocupada." Conforme ele, hoje os pais de Vanessa deverão buscar a autorização para visitar a filha domingo. "Mas até lá esperamos que o pedido de habeas-corpus tenha sido aceito. Esperamos que ela responda o caso em liberdade."
SAIBA MAIS
- Em todo o ano de 2008 morreram 56 bebês em Canoas, nos hospitais Universitário da Ulbra e no Nossa Senhora das Graças. De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde, esse número é considerado normal, ainda mais em um estabelecimento onde há Unidade de Tratamento Intensivo Neonatal, que recebe apenas casos considerados graves e de poucas perspectivas de recuperação.
- O chefe do Setor de Pediatria do Hospital Universitário da Ulbra, Paulo Nader, disse que a Comissão de Óbitos da UTI Neonatal acompanha diariamente os casos de mortes de recém-nascidos e não constatou nada de anormal no número de falecimentos no período em que a técnica Vanessa Pedroso Cordeiro trabalhava no local.
Pais planejam entrar na Justiça contra HU
Pais de sete bebês intoxicados no HU formaram uma comissão para acompanhar o trabalho da Polícia Civil em relação ao caso. Ontem pela manhã, o grupo reuniu-se com três advogados para verificar a possibilidade de entrar com uma ação conjunta contra a instituição por danos morais. Eles querem ainda que as famílias tenham acompanhamento psicológico e que os recém-nascidos sejam monitorados até os 10 anos de idade.
De acordo com um dos advogados, Marco Aurélio Zanotto, é necessário primeiro esperar a conclusão do inquérito policial para depois verificar quais serão as medidas judiciais cabíveis. "Após a conclusão do trabalho do delegado, que deve sair nos próximos dias, faremos outra reunião com os sete pais que estamos representando", comentou.
O pai de uma das crianças Alexandre Fagundes e Silva disse que a intenção não é conseguir dinheiro, mas garantir que os filhos não terão nenhuma sequela mais para frente. "Ninguém pode nos garantir que os bebês não terão algum problema. Sem contar o desgaste emocional que todos nós tivemos com essa situação", argumentou. Ele e os outros pais temem ainda que a suspeita de ter cometido o crime, a técnica em Enfermagem Vanessa Pedroso Cordeiro, 25 anos, seja posta em liberdade. "Se isso ocorrer, vamos fazer uma manifestação contrária", alertou Janaína Luzia Soares, avó de outro bebê.
Por enquanto, corpos não serão exumados
O delegado Guilherme Pacífico disse que até o momento não tem em mãos nenhum caso concreto de óbito de recém-nascidos suspeito. E por isso ainda não deve ser solicitada a exumação de nenhum corpo de criança que tenha morrido no Hospital Universitário da Ulbra e nem no Hospital Regina, de Novo Hamburgo.
O médico pediatra José Adroaldo Oppermann explicou que medicamentos como morfina e Diazepan não deixam traços em crianças após algumas horas (no caso da morfina são 48 horas e do Diazepan cinco dias). "Esses tóxicos se decompõe da matéria orgânica e são ingeridos por bactérias e vermes", explicou. Segundo ele, esses medicamentos também não ficam acumulados nos ossos. "Mesmo que ficassem, os ossos das crianças recém-nascidas são só cartilagem, que também sofre a mesma ação dos vermes e bactérias." Na opinião dele, a exumação seria apenas mais um sofrimento para as famílias.
Delegado vai ao Ministério Público
O Ministério Público de Canoas recebeu ontem à tarde a visita do delegado Guilherme Pacífico e do chefe de investigação da 1.ª DP de Canoas, Sérgio Zolim. Os dois foram falar sobre o caso de Vanessa Pedroso Cordeiro, 25 anos – acusada de tentativa de homicídio qualificado por envenenamento em 11 bebês do Hospital Universitário da Ulbra (HU). Também durante o dia foram apreendidos materiais no HU e tomados depoimentos de em torno de dez pessoas.
Conforme Zolin, a visita ao MP é feita sempre que a Polícia acredita ser necessária. "Trabalhamos em conjunto, inclusive em diligências, para que o inquérito atinja a excelência necessária", explicou. Sobre os trabalhos, o investigador destaca que, para o caso mais recente, do HU, estão sendo realizadas diligências, principalmente para rebater as teses de defesa de Vanessa, sobre coação e arbitrariedade na prisão.