Publicidade
Botão de Assistente virtual
Opinião Opinião

Passado que é presente

Por Débora de Oliveira
Publicado em: 23.10.2021 às 03:00

Cada dia eu escolho um caminho diferente para vir para a rádio. Não tem uma manhã sequer, nos últimos dois meses, que sigo a mesma rota de casa até ABC e da ABC até em casa. Talvez circular pelos cantinhos me remete aos lugares que vivi algo especial e aos amigos que fizeram parte do meu passeio de vida.

Nem tudo segue no mesmo lugar. Mas jamais sairão daquele espaço eternizado do meu coração e das minhas maiores lembranças desse ir e vir que a nossa caminhada de escolhas nos proporciona. E mesmo tudo tão diferente, ainda encontro a cidade tão próxima de tudo que deixei quando precisei me despedir lá em 2008.

Eu fui ver um móvel no centro e, descendo do carro, encontrei dois amigos que não via há mais de uma década. A casa segue bagunçada porque eu sequer entrei na loja e deixei a compra para outro momento. Preferi ficar relembrando e atualizando as pessoas queridas sobre nosso tempo distante, que não foi capaz de mudar o sentimento e nem a alegria de compartilhar aqueles minutinhos juntos.

No super não dá para ir correndo. A cada pessoa que encontro nos corredores já tenho assuntos que estavam guardados e que, entre um arroz e uma massa no carrinho, são resgatados. E nessas paradinhas lá se vai um tempo bem maior do que o planejado, mas jamais desperdiçado.

Esses dias fui levada por uma amiga para conhecer um dos lugares novos da cidade e, sentadas ao ar livre, já fomos vistas por um casal de grandes e queridos amigos dando uma caminhada. Eles pararam, conversamos rapidinho, sorrimos com os assuntos que não faltavam, e seguiram em frente levando mais um pouquinho de mim, enquanto fiquei mais uma vez com uma sensação boa de os ter encontrado.

E assim a gente dá uma passadinha na tia, encontra o ex-colega na hora do almoço, recebe uma prima para um chimarrãozinho, vai se aproximando de quem nunca ficou longe do coração, mesmo com a distância da vida.

Ainda falta rever tanta gente. Descobrir outros espaços para serem eternizados com a renovação do que ficará na lembrança. Tropeçar pelos conhecidos com a ajudinha do destino. Mas, aos pouquinhos, tudo vai se encaixando e se reencontrando dentro de mim.

Acho que nossa maior saudade é sempre aquela que já não temos mais como reviver. Todo resto talvez não percebemos a falta porque temos em mente que está ali, prestes a ser renovado. Mas nem tudo se renova mesmo que ainda exista. Tem coisas que um dia foram e se foram. Apenas algumas foram, e ficaram.

E tem aquelas que ainda nem chegaram, mas que certamente talvez logo cruzem pelo meu caminho. Aquele mesmo caminho que não repito, mas que talvez volte mais vezes, para que se tornem destinos de paisagens que eu queira parar, contemplar e eternizar.

A cada dia eu volto para lugares de onde parti, mas que sempre me fizeram inteira. Porque as melhores lembranças que tenho do passado são o presente.


O artigo publicado neste espaço é opinião pessoal e de inteira responsabilidade de seu autor. Por razões de clareza ou espaço poderão ser publicados resumidamente. Artigos podem ser enviados para opiniao@gruposinos.com.br
Gostou desta matéria? Compartilhe!
Encontrou erro? Avise a redação.
Publicidade
Matérias relacionadas

Olá leitor, tudo bem?

Use os ícones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, vídeos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.