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Acessibilidade e envelhecimento andam lado a lado

As cidades e as casas estão preparadas para moradores que vivem mais, mas que naturalmente diminuem a sua mobilidade? Reportagem: Débora Ertel

Se há dois anos 12% dos gaúchos tinha mais de 65 anos, em 2060 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) projeta que 29% da população do Rio Grande do Sul fará parte deste grupo. Daqui a menos de 40 anos, a cada dez pessoas pessoas, três serão idosas no Estado. Diante deste novo cenário que se anuncia, as cidades e as casas estão preparadas para moradores que vivem mais, mas que naturalmente diminuem a sua mobilidade?

A especialista em ergonomia e professora da Feevale, Jacinta Renner, diz que não. O resultado dessa realidade, tem reflexo direto na vida do idoso.

 


Nós vivemos em um mundo criado para pessoas com mobilidade plena, onde todos capacidade para driblar obstáculos, como as calçadas irregulares. Precisamos modificar isso com urgência - Jacinta Renner

Dados do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), do Ministério da Saúde, indicam que, para cada três pessoas com mais de 65 anos, uma sofre uma queda anualmente. De cada 20 idosos que caíram, ao menos um sofre uma fratura ou necessita de internação. Dentre os mais idosos, com 80 anos ou mais, 40% caem anualmente.

De acordo com Jacinta, a ergonomia tem total relação com essa realidade, pois trata da adaptação do trabalho, produtos, processos e sistemas ao homem, proporcionando o bem-estar e a qualidade de vida. “Na maioria das situações do nosso cotidiano, acontece o contrário - o homem se adapta a estas situações”, analisa.

Jacinta Renner, especialista em ergonomia e professora da Feevale
Jacinta Renner, especialista em ergonomia e professora da Feevale Foto: Divulgação

Para Jacinta, o poder pública tem a obrigação de pensar a mobilidade plena, ainda mais diante do fenômeno mundial do envelhecimento que não é uma doença, mas uma fase diferente da vida.
Ela ainda chama atenção que nos projetos de construção domésticos as pessoas já deveriam planejar a obra levando em conta a longevidade e as necessidades da velhice. “Ter portas largas, com chaves de luz acessíveis, menos degraus. Quanto mais plano, melhor”, aconselha.

Estabelecimentos comerciais, repartições públicas e praças também são listados como ambientes que ainda não se adaptaram para acolher o idoso.

Conforme a professora, um bom exemplo de acessibilidade são as obras de revitalização do Centro do Município, onde o Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência foi consultado.

Ouça aqui a entrevista com a Professora Jacinta Renner


 

Double Comparison
Infogram
A casa do seu Celestino

Na casa de Celestino Rohr, 95 anos, morador do bairro São Jorge, em Novo Hamburgo, a casa mudou para oferecer mais segurança ao idoso. Há dois anos, foi cometido por herpes zóster, uma doença infecciosa que causa intensa dor e bolhas na pele.
Ele, que apesar da idade avançada tinha uma vida independente, passou a sofrer com quedas. A funcionária pública aposentada Bernadete Rohr, 62, que desde sempre morou com o pai, rapidamente adaptou a moradia.

O banheiro recebeu barras para o idoso poder se apoiar, a área de circulação ficou livre de obstáculos e um sensor de presença foi instalado na lâmpada do corredor, de modo que as idas à cozinha durante a noite para beber água tenham mais segurança. Já a cama, foi trocada três vezes até que Bernadete encontrou o modelo ideal para atender as necessidades do pai, relacionadas ao conforto e à mobilidade. Bernadete destaca que a fisioterapia é fundamental para a recuperação do pai e também para o fortalecimento da musculatura. Sobre caminhadas no bairro, ela diz que por enquanto estão suspensos. “Não tem condições de caminhar por aqui, com essas calçadas todas irregulares. Essa é a maior armadilha para o idoso”, diz. Já Celestino, diz que não tem medo de sofrer novas quedas e que vai chegar aos 100 anos.

Projeto calçada legal

Em 2017, o grupo Pensando Novo Hamburgo lançou o projeto Calçada Legal. A iniciativa teve o objetivo de orientar, de forma gratuita, sobre como devem ser dispostas as calçadas no Município. A intenção era padronizar os passeios públicos, garantir acessibilidade para toda a comunidade e evitar quedas. Além disso, esclarecer que a responsabilidade pelo passeio público é do proprietário do imóvel.

Rosana Opptiz
Rosana Opptiz Foto: Divulgação
Segundo a coordenadora do Pensando e presidente da Associação de Arquitetos e Engenheiros de Novo Hamburgo (Asaec), a arquiteta Rosana Opptiz, o projeto, que conta com parceria do Ministério Público, será retomado a partir de agora. 

De acordo com ela, é possível ter uma cidade mais acessível e as obras de revitalização do Centro, que se tornaram referência de mobilidade, podem ser estendidas a todo o Município.
"Uma calçada bem-feita favorece o trânsito de ir e vir de qualquer pessoa, não somente de deficientes, mas de idosos e gestantes", pondera. 

Em 2019, Novo Hamburgo elaborou o Plano de Mobilidade Urbana de Novo Hamburgo, uma ferramenta de planejamento exigida por lei que pensa a cidade como um todo. Um dos pontos do plano, é a garantia de acessibilidade. "No caso do idoso, ele precisa ser ambientado à cidade. Ele não quer ser segredado, quer ser incluído", aponta a profissional. 

A cada dois dias, um atendimento hospitalar

Cláudia Kist é fisioterapeuta do Hospital Municipal de Novo Hamburgo e diariamente atende idosos internados porque sofreram quedas. De setembro de 2020 a setembro deste ano, a casa de saúde acolheu 183 idosos com atendimentos relacionados a fraturas ósseas.

Com o envelhecimento do corpo, ocorrem alterações de fraqueza muscular e perda de massa óssea, o que faz o idoso mais propenso à queda, pois há perda de equilíbrio. “Quanto mais idoso, maior é o risco e normalmente uma queda resulta em hospitalização”, comenta.

Cláudia Kist, fisioterapeuta do Hospital Municipal de Novo Hamburgo
Cláudia Kist, fisioterapeuta do Hospital Municipal de Novo Hamburgo Foto: Divulgação/HMNH

Aliado a isso, a falta de exercício colabora para uma piora no condicionamento físico. Pesquisa da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde feita em 2018 mostrou que 69,2% dos idosos praticam atividades físicas em níveis insatisfatórios. Segunda ela, a fisioterapia foca no paciente como um todo e não somente na recuperação da fratura.

“Para que ele se recupere e consiga fazer suas atividades diárias sozinho, sem depender de outras pessoas”, explica. De acordo com ela, a maioria dos pacientes que sofre queda e vai parar no hospital fica com medo de repetir o tombo. Por isso é importante o acompanhamento da família, de modo que o idoso não perca sua independência e se movimente.

Quedas que levam à morte

No Rio Grande do Sul, de janeiro a julho 5.539 internações decorrentes de quedas foram registradas no Sistema Único de Saúde - 4,8% maior do que no mesmo período de 2020. Isso representa uma média de 26 quedas ao dia.


Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2017, no Rio Grande do Sul, 651 pessoas com 70 anos ou mais morreram vítimas de quedas. Já da faixa etária dos 50 aos 69 anos, foram 187 óbitos. Em todo o Brasil, ocorreram 10.223 mortes de pessoas com 70 anos ou mais por causa de quedas. 


 

cuidados para uma casa segura

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