Novo Hamburgo - Com a retomada das atividades na indústria do couro no Brasil, o que demandará mais matéria-prima, a exportação de bois vivos tornou-se questão de preocupação. No ano passado, foram embarcados 518 mil animais, o que "significa que saíram do País 1,2% de peles sem que se agregasse valor", conforme o presidente da Associação das Indústrias de Curtumes do Rio Grande do Sul (AicSul), Francisco Gomes. O dirigente defende regras, a exemplo da taxação de 9% nas exportações de couro wet-blue, para estancar o crescimento de saída de bovinos sob o risco de afetar a disponibilidade de couro no mercado interno.
Quando foram iniciados os embarques para o Líbano (2.156 bois vivos em 2003),a alegação era de que se tratava de algo específico, sem risco de tomar proporção. Não foi o que aconteceu. Quatro anos depois, o número de bois vivos exportados, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do governo federal, saltou para 431 mil cabeças e agora passa da casa das 500 mil. O volume já é dito como significativo pela entidade, considerando que o Conselho Nacional de Pecuária de Corte estima que os abates tenham ficado em 43,6 milhões de cabeças no ano passado.
RETROCESSO - O presidente da AicSul adiciona que a perda é bem maior se feito o cálculo do quanto estas peles renderiam se tivessem sido transformadas dentro do Brasil em calçados, vestuário, móveis e outros artefatos. "É um retrocesso deixar de agregar valor ao boi. Nossas empresas são criativas e estão bem preparadas em tecnologia e pessoas para gerar produtos de excelente qualidade com essa matéria-prima nobre."
Crise mundial amenizou quadro até agora
O presidente da AicSul lembra ainda que até agora o quadro foi amenizado devido à redução da demanda internacional do produto por causa da crise financeira, que eclodiu no segundo semestre de 2008. "Os números de 2010 já apontam para uma recuperação nos negócios da indústria do couro", disse ele, indicando que as exportações de couros (volume físico) estão 48% acima neste primeiro bimestre ante o mesmo período em 2009. Razão pela qual reafirmou a necessadidade de se pensar em uma medida restritiva à exportação de bois vivos.
No campotambém houveinvestimentos
De acordo com Rodrigo Crespo, da Casarão Remates, em Pelotas, a exportação de gado vivo é secular no Uruguai, processo que ainda está engatinhando no Rio Grande do Sul. Crespo, que também é produtor, disse que assim como outras indústrias, eles também investiram para conseguir atender os importadores. "Investimos em touros, em matrizes. Tudo para agregar valor." Hoje, o boi vivo é vendido a R$ 2,50 o quilo, quando lá pelo ínicio de 2000 era pago R$ 1,30. Segundo ele, em abril deve ocorrer novo carregamento, sempre movimentados pela Angus Trading, exportadora de bovinos.