Quem nunca conheceu alguém que tenta conseguir o que quer no grito mal humorado? A voz alterada quase sempre gera efeito. O gritalhão aprendeu, por experiência repetida, que levantar a voz vale a pena, pois desestabiliza as vítimas, gerando sentimentos como medo. Atitude típica de quem quer manter a liderança e o domínio sobre o outro. No dia a dia é comum ouvirmos vozes mais ríspidas no tratamento com os alunos, os filhos, os cônjuges, os cães. As vítimas geralmente são próximas. Em sua fantasia, o alterado pensa sempre estar com a razão. Mudando o tom, o timbre e a altura da voz, será respeitado.
Entretanto, respeitar, do latim respicere, é a capacidade de olhar novamente, mais vagarosamente o outro. Ver como o outro é, em sua singular beleza. Se por um lado, o gritalhão quer ser respeitado, ironicamente, está desrespeitando profundamente a liberdade de ser do outro, gerando dependência ao invés de autonomia. Com seu míope olhar, nem consegue ver o outro que, em sua ótica, estaria na vida para servir sua vontade. Por outro lado, do lado de quem compartilha as alterações de humor do dominador, torna-se meio difícil reconhecer a beleza escondida sob os escombros de gritos, movidos pela vontade de poder.
As evidências estão me mostrando de que para respeitar, olhar de novo com mais nitidez, é necessário uma certa distância. O justo distanciamento capacita ver melhor o outro e entender melhor as coisas em diferentes ângulos. O pretenso excesso de intimidade e proximidade dificulta o olhar, posto que os desrespeitosos tendem sempre atingir os seus íntimos, mais próximos.
Você a de convir comigo que quando a gente olha duas vezes, olhamos com mais atenção. Quem presta atenção nos outros, vê detalhes quase imperceptíveis a primeira vista, passando a comportar-se de maneira muito mais respeitosa. E de maneira mais respeitosa utilizará o tempo que tem, especialmente quando estiver ao lado das pessoas que ama.
Olhando de novo e mais uma vez, é impossível manter-se refratário à infinita riqueza do outro e do mundo, com toda sua diversidade. Ao olharmos de novo sobre o mistério de todos os mistérios que é nossa própria existência, assombraremos. Porque a nossa própria vida sempre revela o novo e insondável que somos em essência. Indevassável. Finalmente, percebemos que, permitindo o desrespeito sobre nós, estaremos compactuando com a prepotência alheia. Desrespeitando nossa riqueza divina. Questão de olhar vendo.