03 de Julho de 2009 - 08h51

Michael, o astronômico

Por Mauro Blankenheim

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Há 50 anos, nos primeiros minutos da madrugada nevada de 3 de fevereiro de 1959, um avião carregado de notas musicais estridentes caiu num milharal nos Estados Unidos matando de uma só vez três das mais promissoras carreiras do rock americano: Buddy Holly, Richie Valens e JP Richardson, o Big Bopper. Os três saíam de uma mesma apresentação e o destino os levou juntos, a centenas de quilômetros por hora, ao mesmo lugar.


Cartaz do tríplice show em Clear Lake, Iowa

A data mereceu o batismo de - O DIA EM QUE O ROCK MORREU - tal o impacto do acidente na pauta da mídia. No ano anterior, por obra Divina, a família Jackson, nos arredores de Chicago, Illinois, mais precisamente em Gary, Indiana, pobre periferia da capital automotiva, reduto de gângsters e posteriormente da incomparável e fecunda cultura musical negra, trazia ao mundo a megaestrela que partiu na semana passada como um acorde desafinado na garganta de todos os seus incontáveis fãs.

Michael era do tamanho da NASA, da Formula 1, de Pelé, um verdadeiro astro global e dos maiores que se tem notícia, só podendo ser comparável a estrelas de primeira grandeza, visíveis a olho nu. Tanto que a família percebeu que o menino nascido em agosto de 1958 era, desde cedo, de outra galáxia. Desde a mais imberbe infância, Michael já mostrava, aos 5 anos, uma afinidade com a arte e uma afinação com as partituras, incomum para a idade, pois é raro encontrar crianças, cujo talento dramático, ouvido e cordas vocais respeitem as agruras dos semitons. A sua performance já adolescente em "Ben" ilustra bem este aspecto.

Como muitos pais que hoje em dia profetizam aos filhos carreiras futebolísticas de sucesso internacional, Daddy Jackson pensou: "é esse menino que vai nos tirar da favela". O Jackson 5 se encaminhava à pista de decolagem. Iniciava-se uma vida bem "Music and Me". Michael era um artista mais que completo. Era tudo. Era figurinista. Sua excentricidade que invadia sua vida privada era testada no palco, pois dali saíram entre outros adereços impensáveis para um ícone pop, o braço engessado, os esparadrapos nas últimas falanges dos dedos, as polainas engatadas às calças-pescador e outros acessórios que viraram verdadeiros logotipos cênicos do músico.

Michael era impossível. Dançava com o paletó, com a jaqueta, com o chapéu, criava coreografias que alguns atribuem à sua sensualidade difusa, mas que tem na sua essência a música pulsando em todos os seus músculos. Michael era um inventor, um visionário. "We are the world" nada mais é do que um libelo antecipado em muitos anos de tudo que os ecologistas dizem hoje, sob a ótica sócio-humanitária, na defesa da índole do planeta. Michael era um gênio. Inaugurou, com sucesso, a linguagem do vídeoclipe, tão comum hoje em dia, quando a música de qualidade facultativa e minimalista em suas harmonias carece da muleta do visual.

Michael só não inventou sua felicidade, porque escolheu mal seus inspiradores. Não teve a mesma perspicácia nem o melhor discernimento para definir seu guru. Michael produzia e publicizava seus próprios shows e discos. Usava o cinema como código de comunicação. Michael era um showman total. Seu desempenho em "A stranger in Moscow" no concerto do lançamento do álbum HIStory em Munique é antológico. Michael era inovador. Sempre supernovo. Atraía talentos, como os mais modernos preceitos de gestão apregoam. Não os retinha com a mesma intensidade, pois sua sede pelo novo era insaciável e consumista das pessoas.

Nunca engoliu não ter repetido a força do sucesso de Thriller com a mesma densidade, mas isso o empurrou para frente numa busca imorredoura pela perfeição. Michael era um coreógrafo arrojado e um bailarino só equiparável a Fred Astaire, Gene Kelly e John Travolta nos seus apogeus. Michael era um ilusionista. Um prestidigitador. Um palhaço intelectual, de talento requintado e ousado, que se arriscava no trapézio da vida sem rede, mas teimava em não cair.

Michael sempre brincou com fogo. Nos shows, nos comerciais de cachês estratosféricos e na vida. Às vezes saiu chamuscado. Outras vezes ferido e doente. Na quinta-feira saiu de cena.
O circo pegou fogo.
O pop morreu.
1 Comentários
Raquel Reckziegel
Novo Hamburgo, 03/07/2009 às 15:54
Michael deixou a Terra, talvez para rumar para a sua própria "Neverland", quem sabe? Mas quando se foi, definitivamente levou grande parte do pop com ele.
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