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Berço vazio

O drama da mortalidade infantil na região

Em 2016, 264 famílias em 48 municípios da região perderam seus bebês
04/02/2018 09:53 04/02/2018 10:29

Um berço vazio, roupinhas que nunca foram usadas e pilhas de fraldas que se acumulam dentro do armário. Toalhas bordadas com o nome e uma manta fofinha guardada dentro da bolsa. Tudo preparado para acolher o bebê que infelizmente não viveu. A mortalidade infantil é uma triste realidade que deixou em luto 264 famílias em 48 municípios da região no ano de 2016. O índice de mortes para cada mil nascidos vivos com até 1 ano de idade ficou em 9,54%, inferior a média do Rio Grande do Sul, que no mesmo período foi de 10,16% conforme dados da Secretaria Estadual de Saúde. De outro lado temos a morte de mulheres por conta de complicações na gestação e no parto. No Estado, em 2016, 52 óbitos maternos foram registrados, sendo 12 nas 48 cidades da região. 

As estatísticas de mortalidade infantil no Brasil vem caindo ano a ano. Conforme números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mortes de crianças com até um ano passaram de 4% do total de óbitos registrados em 2005 para 2,5% em 2015. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), salienta que o Brasil é uma das nações que têm se destacado por solucionar o problema Entre 1990 e 2015, a taxa de mortalidade de crianças de até um ano caiu 73,67%, de acordo com dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc) do Sistema Único de Saúde. No entanto, bebês nesta faixa etária ano ainda morrem no País por causas que poderiam ser evitadas.


Na opinião dos médicos, os óbitos que poderiam ser evitados têm como ponto de partida o acompanhamento adequado da gestante desde o início da gravidez. Em contrapartida, há situações que são tratadas como fatalidades, em que a medicina ainda não encontrou uma maneira de intervir. É isso que defende o presidente da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Rio Grande do Sul (Sogirgs), Breno José Acauan Filho. Ele ressalta que qualquer procedimento médico apresenta riscos. “A função dos obstetras é minimizar esses riscos. É como escolher a faixa segurança para atravessar a rua. Ajuda, mas não é garantia de que nada vai acontecer”, compara.


Até onde vai a atuação do obstetra? 


De acordo com Acauan, atualmente a principal causa de morte de gestantes no parto é a hemorragia, causada na maioria dos casos pela pré-eclâmpsia. “Sabemos quais são as complicações da doença, mas a medicina ainda não descobriu como prevenir e porque ela acomete uma mulher e não a outra. A gestante está muito bem e daqui a pouco está muito mal”, comenta. Segundo o profissional, um pré-natal bem feito diminui as chances de haver problemas, mas há situações em que os médicos não conseguem prever.


Conforme o obstetra, existem falhas no atendimento médico, especialmente na rede pública, quando mulheres são encaminhadas para emergências obstétricas já em situação grave porque não receberam o direcionamento adequado no momento certo. “Mas a intenção do médico é sempre ajudar. Quando acontece a morte, o que ninguém quer, seja da mãe ou do bebê, normalmente alguém precisa ser o culpado”, lamenta. Para ele, esse tipo de situação pode acontecer porque não há como prever o futuro. “Mas eu quero pedir que as secretarias da saúde, principalmente das periferias, melhorem o pré-natal. Isso faz a diferença”, finaliza.

Os números da Mortalidade Materna


Em 28 de maio é lembrado no País o Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna, os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que cerca de 830 mulheres morrem de complicações com a gravidez ou relacionadas com o parto todos os dias. Dados do Ministério da Saúde apontam que a mortalidade materna no Brasil caiu 58% entre 1990 e 2015, de 143 para 60 óbitos maternos por 100 mil nascidos vivos. No Japão, por exemplo,o índice é de seis óbitos de mulheres por 100 mil nascidos vivos.


Um levantamento da Sociedade Internacional de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez (ISSHP), mostra que anualmente quase 76 mil mães e 500 mil bebês no mundo morrem por causa da pré-eclâmpsia. A doença afeta de 8% a 10% das gestações no mundo e responde por 20% de todas as hospitalizações para tratamento intensivo neonatal.

A luta pela vida dos bebês 


Coordenador Médico da Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) neonatal do Hospital da Unimed Vale dos Sinos, o pediatra Fábio Schmitz convive de perto com a mortalidade infantil neonatal, aquela registrada até os 28 dias de vida. “A maioria das vezes a morte dos bebês está relacionada a doenças da mãe e, por isso, temos que tirar o bebê antes”, explica. Schmitz também cita a pré-eclâmpsia e as alterações na pressão arterial causada pela doença. O profissional também aponta outras patologias maternas como diabete gestacional, quadro infeccioso, uso de álcool e drogas, tabagismo e a hipertensão prévia da mãe, já adquirida.

Ainda existem causas de mortalidade que são próprias do bebê, como má formação congênita e infecções que a criança adquire depois da primeira semana de vida, como as respiratórias, além de um problema conhecido como taquipneia transitória do recém-nascido. Para o pediatra, o leito de UTI será um fator determinante para salvar a vida do recém-nascido. “Neste ponto, quem sofre mais são os pacientes do SUS. Às vezes a gente escuta que um bebê precisou viajar quilômetros para conseguir o leito e isso é um grande problema”, avalia. No entanto, Schmitz acredita que o Vale dos Sinos ainda leva vantagem em relação a outras regiões, pois tem cinco hospitais com leitos de UTI neonatal. De acordo com ele, o que define se uma UTI é eficaz ou não é o índice de mortalidade em bebês abaixo de 1,5 quilo. No Rio Grande do Sul e no Brasil, a média de óbitos com este perfil é de 30%, enquanto que na casa de saúde onde atua Schmitz fica entre 12% e 15%.

Entrevista com a mestre em em Psicologia da Saúde e coordenadora do grupo de Atenção em perdas e luto (Apelu), Janete Ritter

1) O luto de uma mãe que perde o bebê sem ter podido conviver com o filho, no caso de um recém-nascido ou ainda dentro da barriga, sem ter completado os nove meses de gestação, é diferente de uma mãe que enterra um filho maior? Por quê?

Na verdade cada perda é sentida de uma forma diferente, mesmo nas perdas com semelhanças, cada pessoa tende a enfrentar o seu processo de luto de acordo com seus recursos internos. No caso das perdas gestacionais e neonatal, a mãe passará pelo processo de luto mesmo não tendo enterrado seu filho. Ao gestar ela cria expectativas, faz planos, tem sentimentos antes não sentidos, faz o enxoval, monta o quarto do bebê acreditando que ele voltará para casa depois do parto. Quando este percurso é alterado, a mãe perde todas as possibilidades pensadas. Neste tipo de perda há o que se denomina de "luto não reconhecido", isto porque socialmente esta mãe não tem o reconhecimento da perda por não ter levado seu bebê para casa, ou té mesmo não ter gestado até o fim. É importante que nestes casos a mãe possa elaborar seu luto, não importa o tempo de gestação, se pegou ou não no colo ou se pode enterrar seu filho, sempre será a perda de um filho. Não há como medir se uma sofre menos que a outra, não há dor maior ou menor, "há dor", e cada uma será sentida de forma diferente.

2) É comum conhecer pais que se tornam superprotetores porque passaram pela experiência de perda do primeiro bebê? Por que isso
ocorre? Quais são as consequências deste comportamento para os pais e as crianças?


Sim, é comum que após a perda do primeiro filho os pais passem a superproteger os demais. Isto ocorre porque houve uma experiência de perda, de sofrimento e o medo de perder novamente faz com que os pais se comportem desta forma. Os pais acreditam que são eles que protegem, cuidam ou até salvam um filho. Na perda do filho desperta um sentimento de fracasso, de ter errado e, muitas vezes até o sentimento de culpa, e são estes sentimentos que irão interferir nas experiências seguintes. É bastante delicado este tipo de relação, pois os pais vivem num estado de alerta e ansiedade. A superproteção para os filhos podem impedi-los de se desenvolverem de forma saudável e, muitas vezes, tendo que corresponder às expectativas e fantasias dos pais em relação a perdas anteriores.

3) Na situação de um homem que se vê sozinho, com o filho nos braços, porque a esposa morreu no parto, como se dá esse luto? Ele tem tempo de viver essa dor? Também tem a situação de perda de mãe e bebê. Gostaria que comentasse sobre isso.


São casos delicados. É importante ressaltar que o homem, o pai quando perde um filho, também precisa elaborar seu luto. Nestes casos é fundamental que a família e a rede de suporte dê auxílio para que este "homem" possa assimilar e ressignificar a perda da esposa, podendo assim se vincular de forma saudável com seu filho. É importante lembrar que cada pessoa enfrentará a dor da perda do seu jeito, de acordo com as experiências que teve ao longo da vida. É preciso dar espaço e reconhecer o sofrimento. Muitas vezes a dor e a alegria podem até se misturar, a dor por ter perdido a esposa e a alegria pela vida do filho, ambos os sentimentos são importantes e não há um tempo para viver um e depois o outro.


Quando morre a esposa e o filho num parto, o homem enfrentará o processo de luto tendo que elaborar muitas perdas, a perda da esposa e de tudo que significava aquela relação, com todo os planos e sonhos que sonharam juntos. A perda de um filho e também daquilo que significaria para ele e sua família. Casos como estes podem ser experiências traumáticas e requerem todo cuidado possível.

4) Em algumas situações, os familiares acabam culpando os médicos pela perda das vidas, independente do quadro clínico. Por que é difícil compreender que realmente houve um problema de saúde, nos casos em que isso acontece?


A culpa está presente no processo do luto, assim como a raiva, a tristeza ou a negação. Culpar o médico pela perda pode ser uma tentativa de justificar o ocorrido, assim como culpar a Deus é bastante comum. É importante que nestes casos o médico possa compreender que a culpa pode estar fazendo parte do processo de elaboração destes pais e não quer dizer de fato que ele é culpado. Na maioria das vezes, durante o processo do luto, este sentimento vai dando lugar a outros. É importante reforçar que independente da perda, do tempo da gestação, houve algum tipo de vínculo e todos passarão pelo processo do luto. É fundamental a rede de apoio, o suporte da família e até a ajuda de um profissional para que novos vínculos possam ser construídos.

“Ela me ensinou muita coisa” 


Faz três semanas que Aline Becker da Veiga, 27 anos, viveu um dos mais momentos mais difíceis de sua vida. O coração de Luiza, com 27 semanas de gestação, parou de bater. A menina era o primeiro filho dela e de Alexandre Siqueira da Veiga, 32. Quando estavam com três meses de casados, tiveram a sorte de engravidar, como descreve Aline. Com 12 semanas de gestação o obstetra detectou que a bebê tinha um problema de formação e já alertou os pais que talvez a gravidez seria interrompida de maneira repentina. No dia 12 de janeiro veio o diagnóstico que nenhum pai gostaria de ouvir e no dia 13, por volta das duas horas, Luiza nasceu, mas sem vida. A mãe conta que quando recebeu a notícia da morte da bebê em seu ventre começou a pensar na parte prática, de como seria o parto, como sua família iria reagir e de que maneira poderia cuidar da sua própria saúde. “Foi um momento muito difícil”, relembra. Aline já voltou a trabalhar e conta que o casal já planeja em ter outros três filhos. “Eu acredito muito em Deus e ela nos ensinou muito. Então eu quero mostrar isso com alegria”, diz.



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