Olá leitor, tudo bem?

Use os ícones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, vídeos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.
VOLTAR
FECHAR

Rua Domingos Martins, 400 - Centro - Canoas/RS - CEP: 92010-170
Fones: (51) 3462.7000 - Fax: (51) 3462.7007

PUBLICIDADE
Gilson Luis da Cunha

Nadando contra a maré

Diário de bordo de um nerd no planeta Terra (DATA ESTELAR 28012018)
31/01/2018 15:51 31/01/2018 15:52

Gilson Luis da Cunha - Blog Diário de Bordo de um nerd no planeta terra

Gilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura

www.wattpad.com/search/Gilson%20Luis%20da%20cunha


Em um certo momento do filme Matrix o agente Smith (Hugo Weaving) revela que as primeiras versões da Matrix, o ambiente simulado em que boa parte da humanidade vive em estado de escravidão sem sequer desconfiar, eram felizes demais, verdadeiros paraísos. Tão felizes que os humanos morriam aos milhões. Privados da dor, da luta e do desafio, eles simplesmente definhavam e morriam.

Pode até ser que precisemos de desafio. Mas o outro extremo, o cultivo de uma visão de mundo amarga e desesperada, também é um exagero. E um exagero que parece cegar a humanidade a outros cenários que não a tragédia e a decadência da civilização. A coisa chegou a tal ponto que as distopias, esse subgênero da ficção científica e da fantasia, acabou virando um gênero à parte. Pior. Acabou gerando seus próprios subgêneros: distopia adolescente, distopia de horror, distopia satírica, e por aí vai.

Há quem diga que isso é um reflexo evolutivo. Experiências negativas marcariam muito mais, pois seriam um meio de ensinar ao cérebro o que evitar, algo como reconhecer a origem da dor e do perigo, para poder evitá-los no futuro? Será? Bom, há influências culturais. Tenho um amigo que estudou durante sete anos na Rússia e que certa vez me disse "se o filme tem final feliz, eles viram para o lado, com a maior cara de tacho e falam: não entendi". Deve ser difícil diagnosticar depressão na Rússia.

Na França pós-primeira guerra, obras de fantasia, como os filmes de Georges Mélliès, acabaram esquecidas. Afinal, como a fantasia poderia competir com a realidade dos soldados mortos ou mutilados que voltavam do conflito? A realidade parecia onipresente, asfixiante. Não havia lugar para o escapismo. Pois bem. Obras de ficção não pararam de ser produzidas. Mudava o contexto. O realismo prevalecia. Mas não há nada de bom na realidade ou em sua versão ficcional? Difícil acreditar que livros, Peças e filmes "realistas" devam se resumir a histórias sobre alcoolismo, famílias destruídas ou a miséria nas grandes cidades.

Passadas duas guerras mundiais e a guerra fria, o caos político, crises ambientais, o avanço das tecnologias de monitoramento e a incerteza quanto ao futuro passaram a alimentar o gênero que hoje conhecemos como distopia. Curiosamente, a primeira braçada contra essa maré de negatividade no campo da ficção científica veio, pasmem, do Brasil. Isso mesmo. Em 2012, o escritor brasileiro Gerson Lodi-Ribeiro (foto) publicou uma coletânea de contos intitulada Solarpunk: Histórias ecológicas e fantásticas em um mundo sustentável.

Nesse livro, uma série de autores brasileiros apresentam suas versões de um futuro que, se não é perfeito, está longe de ser como a Los Angeles hiperpoluída e esmagada pela superpopulação de Blade Runner ou a Manhattan agonizante de Soylent Green. Essas histórias encorajam o leitor de hoje a imaginar futuros melhores do que os propostos em livros como os das séries Divergente e Jogos Vorazes.

Dois anos depois, um autor chamado Adam Flynn escreveu Solarpunk: Notes Toward a Manifesto. (Solarpunk: Notas rumo a um manifesto). E a reação contra o pessimismo na literatura não parou por aí. Buscas pelo termo solarpunk encontraram oito vezes mais resultados em 2017 do que em 2014. No ano que passou, uma série de livros de ficção científica abordando temas de futuros otimistas e livres de degradação ambiental foram lançados em países de língua inglesa.

Seat 14C, uma dessas antologias, inovou pelo formato (online e grátis) e pela temática: Os autores deviam imaginar diferentes versões de um hipotético passageiro de um voo de Tóquio a Los Angeles cujo avião tivesse passado por uma brecha no tempo, indo parar vinte anos no futuro. Ao chegar, ele ou ela se depara com um novo mundo, radicalmente mudado para melhor. O desafio dos autores foi contar como cada personagem reage a essas mudanças.

Além dessas publicações originais em inglês, Solarpunk, o livro brasileiro que começou esse movimento está sendo traduzido para o inglês e lançado nos EUA pela World Weaver Press, uma editora do Novo México, especializada em fantasia e ficção científica. Nada mal para uma iniciativa que começou aqui mesmo no Brasil e que agora tem tudo para ganhar o mundo. Vida longa e próspera e que a força esteja com vocês. Até domingo que vem.


Diário de Canoas
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
Capa do dia

FOLHEIE O SEU JORNAL PREFERIDO NA TELA DO SEU COMPUTADOR.

ACESSE ASSINE AGORA
51 3600.3636
CENTRAL DO ASSINANTE

51 3591.2020
CENTRAL DE VENDAS DE ASSINATURAS