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Luiz Coronel

O desejo

"É aquele fogo escondido, ou se quiserem, o sopro que remove as cinzas e revela as brasas ainda ou sempre acesas"
26/11/2017 06:25

Luiz CoronelLuiz Coronel é poeta
www.luizcoronel.com.br

Para que o tema bem se ajuste ao zelo moral da tradicional família do Vale dos Sinos, sobe ao púlpito o Padre Antônio Vieira para quem “o universo era um desejo de Deus”. Com esta abertura de um sábio de tal investidura, posso caminhar tranquilo sobre o tema desafiador. E, já que estou no terreno fértil das citações, o nosso Quintana, de biografia tão pudica, escreveu que “os que fazem amor estão dando corda no velho relógio do mundo”. Ou seja, o desejo é o dínamo da vida.

O desejo é aquele fogo escondido, ou se quiserem, o sopro que remove as cinzas e revela as brasas ainda ou sempre acesas. Existe um universo de indagações sobre o desejo. Isto me conduz à fábula de Adão e Eva. Tudo se alinhavava qual um convite à desobediência humana. As formas de ambos se ajustavam magnificamente. Deu no que deu. O desejo biblicamente se antepôs ao teste divino. Por rebeldia ou soberba, pagaríamos construindo, a trancos e barrancos, a nossa história. E lá vamos nós pelas ruas e camas dos séculos, carregando a síndrome bíblica do pecado original.

Os filósofos às vezes complicam, mas lhes compete jogar luzes sobre o lusco-fusco da realidade. Gilles Deleuze, filósofo francês, coloca o desejo na “inquietude da matéria”. Não sei se por ter berço uma família puritana, guardo em mim a dualidade entre alma & corpo. Minha pequena poesia transborda essa inquietude. O corpo sempre sabe o que quer. A alma guarda tudo, como quem empilha camisas. O corpo é sempre safado. A alma sempre dengosa.

Nossos desejos são como crianças. Quanto mais lhes cedemos, mais exigentes se tornam. Os gregos, libertos dos preceitos judaico/cristão, podiam, como Pitágoras, anunciar que “o homem é mortal por seus temores e imortal por seus desejos”. A cultura grega estava noutro patamar. É sabido que o que mais se deseja é sempre o que nos é vedado. Em orações indianas, louva-se o ventre que se satisfaz com alguns legumes, mas não o coração maldito, que não se contenta com uma centena de desejos. Lacan, endeusado pelos psiquiatras, deixa bem claro: “só se deseja o que não se tem”. Por princípio, o desejo busca sua própria extinção. Porém, o que amarga a alma humana é não ter mais desejos. Estes ou aqueles.


Diário de Canoas
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