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Gilson Luis da Cunha

O Dragão e as estrelas: o boom da ficção científica chinesa

Diário de bordo de um nerd no planeta Terra (DATA ESTELAR 19112017)
19/11/2017 07:30

Gilson Luis da Cunha - Blog Diário de Bordo de um nerd no planeta terra

Gilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura

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Sempre que perguntam o porquê de a literatura de ficção científica não ter criado raízes no Brasil, a resposta se prende a três motivos principais. O primeiro é que, no Brasil, o processo de industrialização não foi necessariamente espelhado por um aumento nos níveis de alfabetização e, muito menos, por incentivos à ciência ou à divulgação científica. Viramos uma nação urbana com uma mente simplória. "Por que construir máquinas, criar medicamentos, desenvolver novos materiais, se podemos comprar tudo de fora?", pensava boa parte de nossa "intelligentsia".

Outro motivo era o preconceito de nossas elites culturais, que viviam a exaltar a doce modorra desse país bucólico e agrário "onde canta o sabiá". O Brasil era uma "terra idílica de simplicidade, abençoada por Deus e bonita por natureza". E o outro, mais recente: a ficção científica era uma ferramenta de doutrinação do "inimigo ianque imperialista" e devia ser combatida energicamente pelas "mentes progressistas, em prol de um mundo melhor".

Pois um país agrário durante a maior parte de sua milenar existência, berço de uma das culturas mais antigas e tradicionais do planeta, e governado por um estado que pode ser qualquer coisa, menos um "fantoche do inimigo ianque", está virando esses três dogmas de cabeça para baixo e mandando o seu "tchauzinho" para o resto do mundo. Claro que estou me referindo à China.

A ficção científica internacional já teve muitas fases. Nos anos 60-70, a new wave se muniu de conceitos das ciências humanas, como a psicologia e a história para criar tramas inovadoras. Nos anos 80, foi a vez do cyberpunk e suas especulações sobre o futuro da conectividade e o controle da informação. Mais recentemente tivemos o steampunk e sua reinterpretação do passado, num universo onde a tecnologia a vapor atingiu níveis que chegam ao fantástico. Agora chegou a vez da ficção científica chinesa.

Mas o que tem de tão especial a ficção científica produzida pela China nesse início de século? Essa não é uma resposta fácil. Mas vamos lá. A China, como o Brasil, foi, durante séculos, uma nação agrária, que passou por um surto de industrialização acelerada na segunda metade do século 20. As semelhanças param por aí. Política e culturalmente, são nações bem diferentes. Mas a China, de um modo ou de outro, se tornou o parque industrial do planeta, fabricando, basicamente, qualquer coisa, desde bijuterias até supercomputadores.

Ocorre que, faz bem pouco, as indústrias de tecnologia chinesas, que prosperam na onda do "capitalismo de estado", começaram a sentir os efeitos da competitividade de suas contrapartes estrangeiras. Um executivo de uma dessas empresas chegou a afirmar ao site Gizmodo, que à indústria "faltava o DNA da inovação" e que "gerações de cientistas, engenheiros e tecnólogos chineses" foram educadas para reproduzir o conhecimento com perfeição, mas "não a gerá-lo". Isso tem motivado o governo chinês a estimular a ficção científica a se tornar um gênero de leitura popular entre os jovens, através da promoção de autores e eventos internacionais, como a recente conferência de Chengdu, que contou com a presença de vários autores premiados do gênero, como o canadense Robert J. Sawyer e o chinês Cixin Liu (foto).

Liu conseguiu o feito inédito de ser o primeiro autor asiático a conquistar o prestigioso prêmio Hugo, com uma tradução para o inglês de seu romance O Problema dos Três Corpos, originalmente escrito em chinês. Esse romance e o segundo volume da trilogia de Liu, A Floresta Sombria, já foram publicados no Brasil.

Ao contrário do que o leitor desavisado possa pensar, Liu não louva cegamente a tecnologia a serviço da máquina estatal. Pelo contrário. O início de O Problema..., é uma contundente crítica ao violento fanatismo ideológico que tomou conta de seu país durante a revolução cultural, em fins dos anos 60. É o tipo de coisa que certamente o jogaria na cadeia (se ele tivesse sorte) há coisa de vinte ou trinta anos. Ao que parece, as urgências do futuro soaram mais alto do que os dogmas do partido, ao menos, na China.

Boa parte da Ásia também entendeu o recado. O Japão, desde o fim do xogunato, em meados do século 19, se esforçou em modernizar-se e avançar cientificamente. Depois da segunda guerra mundial, esse ímpeto se acelerou. A Terra do Sol Nascente se tornou um país obcecado com o futuro. Antecipar-se às demandas, riscos e oportunidades dos tempos que virão, tornou-se quase uma parte da alma nacional.

A Coreia (do Sul), passou de um país quase medieval nos anos 50 a um dos maiores exportadores de tecnologia do mundo, graças a maciços incentivos à educação. Enquanto isso, num país onde canta o sabiá... Mas nem só de futurismo vive a ficção científica chinesa. O sucesso de autores como Liu não se limita à China, como prova seu romance premiado. O leitor ocidental também descobre uma prosa original, dotada de um novo ponto de vista, fruto da cultura do autor e de suas experiências pessoais.

Ainda estou no início de O Problema, mas estou gostando da trama. A China, em sua longa história, se notabilizou por criar tecnologias fundamentais, como a pólvora e a bússola, o papel-moeda, que foram, posteriormente, aperfeiçoadas no ocidente. Parece que agora o jogo se inverteu. O programa espacial chinês investe pesado em novas missões, que incluem, até mesmo um pouso tripulado na Lua, em um futuro próximo. O dragão despertou de seu sono milenar e agora almeja as estrelas. Esperamos que algum dia um certo gigante adormecido em berço esplêndido siga seu exemplo, antes que seja tarde demais. Vida longa e próspera e que a força esteja com vocês. Até domingo que vem.


Diário de Canoas
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