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Gilson Luis da Cunha

Nobel fantástico?

Diário de bordo de um nerd no planeta Terra (DATA ESTELAR 08102017)
08/10/2017 07:30

Gilson Luis da Cunha - Blog Diário de Bordo de um nerd no planeta terra

Gilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura

www.wattpad.com/search/Gilson%20Luis%20da%20cunha

E saiu o resultado do prêmio Nobel de literatura: Kazuo Ishiguro, autor de romances como Não Me Abandone Jamais e O Gigante Enterrado, foi agraciado com a honraria na última quinta-feira. Não Me Abandone Jamais, que foi adaptado para o cinema com Keira Knightley e Andrew Garfield, pode ser descrito como um drama de ficção científica sobre jovens cujo único propósito em suas existências é fornecer órgãos para seus “originais”, pessoas das quais eles teriam sido clonados.

Ao passo que O Gigante Enterrado é uma fantasia que, segundo muitos, invade sem cerimônia domínios tipicamente associados a autores como George R.R. Martin e J.R.R. Tolkien. E isso nos leva à questão: Será que a Real Academia Sueca tomou mais um passo na direção de uma conciliação entre a crítica e o gosto popular? Por mais que eruditos se espantem com a escolha de Ishiguro, o prêmio desse ano não deixa de ser mais coerente do que o do ano passado, quando o premiado foi Bob Dylan, um músico, mesmo considerando a poesia inerente às letras de suas canções.

Ishiguro, claro, não se considera um autor de fantasia ou ficção científica, do mesmo modo que não se consideram autores de ficção científica nomes do porte de Kurt Vonegut Jr. (Matadouro 5, Cama-de-gato), Margareth Atwood (O Conto Da Aia) ou Dóris Lessing (Shikasta). Mesmo em pleno século 21, parece que há um medo imenso, tanto da parte de autores quanto de editores, de se tornar identificado com ficção científica e fantasia. O engraçado é que, quanto mais esse medo aumenta, maiores são as tiragens de grandes sucessos desses gêneros.

Na América Latina, falar em ficção científica e fantasia chega a ser ofensivo. São gêneros identificados fortemente com o "invasor ianque", para uma boa parcela da intelligentsia que sequer sabe que existe uma riquíssima literatura dos gêneros em francês, italiano e vários outros idiomas. Nos países do assim chamado "primeiro mundo", esse preconceito é menor, mas ainda existe, provavelmente por causa de autores caça-níqueis, pobremente equipados, tanto de discurso quanto de temática.

Mas isso só acontece em literatura de gênero? Tenho lá minhas dúvidas. Já li pretensos trabalhos de "alta literatura", onde um autor se resume a fazer "autoficção", ou seja, narrar as agruras, reais ou imaginárias, de sua própria vida, e compartilhá-las com os leitores, por uma módica quantia, é claro. E a coisa fica pior quando ele resolve ser "no ar". Sim, não disse "noir". Disse "no ar", que é como muitos leitores se sentem ao terminar (milagrosamente) o livro após seguir os passos de protagonistas sem nome, perdidos em cenários genéricos, que passam metade do romance tentando descobrir o que estão fazendo (enquanto o leitor se pergunta porque jogou o seu dinheiro fora ao comprar o livro).

Literatura envolve conflito. O personagem precisa querer algo e o leitor precisa se identificar com ele. Infelizmente, não li Ishiguro. Mas, se o filme Não Me Abandone Jamais conseguiu manter parte da essência do livro, então, trata-se de uma grande história, cujas qualidades dramáticas são evidentes. No fundo, o problema maior é estético. Isaac Asimov já disse que as melhores histórias foram contadas em volta de fogueiras, milhares de anos antes da invenção da escrita. O que muda são as roupagens, o cenário. Mas a essência se mantém.

No final das contas, o grande apelo da fantasia e da ficção científica é o mesmo dos dramas de época: o de romper com as amarras do cotidiano, visitar cenários que já não existem mais, no caso do drama de época, cenários que nunca existiram, no caso da fantasia, ou cenários que poderiam existir, na ficção científica. Essa busca pelo "senso de maravilha", como dizem os de língua inglesa é tão antiga quanto a humanidade, e, certamente, não menos nobre do que a monotonia tão amada por boa parte da crítica. Vida longa e próspera e que a força esteja com vocês. Até domingo que vem.


Diário de Canoas
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