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Saúde pública

Resistentes a antibióticos, ''superbactérias'' são consideradas próxima ameaça global

Uso inadequado de medicamentos é um dos principais fatores para o surgimento de microrganismos resistentes mesmo aos mais potentes remédios

Gutemberg Brito/IOC/FIOCRUZ/Divulgação
Ana Paula Assef diz que desafio está em encontrar alternativas a antibióticos

Alimentadas, principalmente, pelo uso inadequado de antibióticos, as chamadas superbactérias se proliferam com a capacidade de resistir aos medicamentos mais potentes. Enquanto não surgirem medidas alternativas para contê-las, o mundo corre o risco de ir em direção a uma era pós-antibiótico, com mortes causadas por infecções comuns. O alerta parte da Organização Mundial da Saúde (OMS), que considera estes microrganismos a próxima grande ameaça global em saúde pública. Neste ano, a OMS lançou uma lista com as 12 principais bactérias resistentes a várias drogas, cobrando dos países mais investimentos em pesquisas e mais atenção no uso de antibióticos. “É um alerta para um problema mundial. Já há bactérias para as quais não há nenhuma opção de tratamento”, destaca Ana Paula Assef, pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz, da Fundação Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).

O maior problema, segundo o infectologista Alexandre Schwarzbold, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), está no cenário hospitalar, já que os microrganismos infectam pacientes geralmente debilitados, com imunidade baixa, e se espalham rapidamente pela falta de medicamentos capazes de contê-los. “Alguns pacientes estão mais propensos a estarem colonizados por essas bactérias do que outros, por exemplo, pacientes de UTI, que fazem quimioterapia, que passaram por transplantes ou cirurgia, que fazem uso de cateteres, sondas e dispositivos de ventilação mecânica. O que não quer dizer que qualquer paciente não possa ter contato e tê-la”, descreve.

O serviço de controle de infecção em hospitais e o uso racional de antibióticos já estão previstos em portaria do Ministério da Saúde de 1998. Além disso, segundo o médico, as instituições devem manter rigor nos padrões de desinfecções, como distanciamento correto de leitos. “O problema pode vir de fatores como superlotação de hospitais e inadequação nas técnicas de higiene e limpeza”, destaca. No entanto, Schwarzbold diz que os métodos de diagnósticos e identificação de germes são muito precários no País. “Os grandes hospitais têm, mas os baixos não têm uma boa identificação dessas bactérias”, alerta.

Sem motivo para pânico

O consultor da SBI enfatiza, porém, que o cenário não representa motivo para pânico. “É uma realidade histórica, as bactérias nunca vão perder para nós, estão há muito mais tempo na Terra do que nós, não vamos eliminar tudo. O que exige incorporar tecnologias mais rápidas e acessíveis e definir políticas mais intensas de precaução, de biossegurança”, observa Schwarzbold. À população cabe ter rigor com a higienização das mãos quando fizer visitas em hospitais e ajudar a pressionar governos para melhorar a qualidade das casas de saúde no rigor com questões de segurança. A pesquisadora Ana Paula acrescenta que são necessárias medidas políticas para reverter essa situação. A OMS lançou em 2016 um alerta e um pedido aos países para a elaboração de um plano nacional de combate a infecções, que no Brasil está a cargo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “A intenção é que a gente possa prevenir e controlar essas infecções”, diz a pesquisadora.

David Dorward/NIAID
Reprodução de imagem de microscópio de Klebsiella pneumoniae

Poucas alternativas para tratamento

Associadas principalmente ao ambiente hospitalar, as superbactérias estão presentes em diferentes superfícies como pisos, banheiros, maçanetas e utensílios hospitalares. Atualmente, entre as bactérias multirresistentes mais frequentes está a Acinetobacter sp., que pode causar infecções de urina, da corrente sanguínea e pneumonia e foi incluída na lista de alerta da OMS. Fazem parte da relação, ainda, a Pseudomonas aeruginosa e a Klebsiella pneumoniae – naturalmente encontrada na flora intestinal humana, foi a principal causa de infecções sanguíneas em pacientes internados em unidades de terapia intensiva em 2015, segundo dados da Anvisa.

Ana Knevitz/Universidade Feevale
Simone Ulrich Picoli, professora da Universidade Feevale
Todas são resistentes a carbapenens. “Os carbapenens são antibióticos muito potentes que são bastante utilizados para tratamento de infecções em pacientes hospitalizados”, explica a professora Simone Ulrich Picoli, do curso de Biomedicina da Universidade Feevale. Essa família de antibióticos é uma das poucas opções nos casos de infecções graves e, quando as bactérias se tornam resistentes a eles, praticamente não restam alternativas de tratamento.

Os antibióticos são utilizados desde a década de 1940, com a descoberta da penicilina, mas, de uma forma geral, a indústria farmacêutica parou o desenvolvimento destes medicamentos. Segundo a pesquisadora Ana Paula, há poucos remédios do tipo sendo lançados porque as bactérias vão se tornando muito resistentes muito rápido. “Então não é rentável produzir e nem útil, porque o investimento é muito grande, são vários anos de estudo até que vire um produto que seja lançado e rapidamente as bactérias se tornam resistentes”, analisa. Por isso, a OMS está pedindo estudos sobre novas formas de combater as bactérias, que não seja apenas produzir antibióticos.

Multifatores de resistência

A resistência das bactérias é resultado de uma soma de eventos, entre eles o uso de antibióticos de forma inadequada, como utilizá-los em infecção que não seja bacteriana ou não tomar todos os comprimidos conforme orientação médica. Com isso, parte dos microrganismos é eliminada, mas outra parte permanece viva (o que é conhecido como pressão seletiva). “As bactérias que permanecerão vivas poderão sofrer modificações genéticas devido à exposição indevida aos antibióticos fazendo com que elas se tornem mais resistentes. Em casos extremos, as bactérias podem ser tornar resistentes a todos os antibióticos disponíveis”, alerta a professora Simone Ulrich Picoli.

Já houve mudanças, inclusive, na forma de resistência das bactérias aos medicamentos. Segundo a pesquisadora Ana Paula Assef, até pouco tempo atrás se sabia que os microrganismos se tornavam resistentes por mutações no seu cromossomo, se dividindo e formando novas “filhas”. “Mas no ano passado foi identificada uma resistência por transferência horizontal, de uma bactéria para outra. Aqui no Brasil já tem detecção desse problema, o que vai piorando a situação”, enfatiza.

Outro fator agravante para a multirresistência de bactérias é o uso de antibióticos na agricultura, na pecuária e atividades de produção de proteína animal, já que medicamentos são injetados em animais saudáveis como um aditivo de performance, o que acelera a seleção de bactérias no ambiente e em animais, que podem vir a contaminar humanos. Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, é proibido utilizar alguns antibióticos, como as penicilinas, para melhorar o desempenho dos animais. “A utilização excessiva de antibióticos é um problema presente no mundo inteiro. Além disso, com a globalização, se uma pessoa tem uma bactéria, leva para outro país. O fluxo de pessoas foi aumentando a capacidade de circular e levar bactérias”, finaliza Ana Paula.

Bactérias fazem parte do organismo humano

As bactérias estão presentes tanto na superfície corporal como em algumas regiões internas do corpo humano. “Por exemplo, na pele predominantemente está presente a bactéria Staphylococcus. Ela é considerada microbiota normal (ou seja, é um microrganismo que habita naturalmente alguma parte do corpo) da pele, do nariz e da boca, sendo inofensiva aos indivíduos saudáveis”, explica a professora Simone. Entre os microrganismos que trazem benefícios ao organismo está também a Escherichia coli que atua no intestino, na absorção de nutrientes.

Quando não são benéficas, as bactérias são chamadas de patogênicas e estão relacionadas a infecções, que são o resultado da multiplicação crescente de um determinado microrganismo em uma região do corpo. Os sintomas relacionados dependem do local onde está instalada: se for na urina normalmente surge dor ou ardência ao urinar, aumento da frequência urinária, odor forte na urina; se for uma infecção de pele podem estar presentes o inchaço, vermelhidão e dor, observa Simone.

As superbactérias afetam, principalmente, o sítio urinário, pulmonar e corrente sanguínea. “Como são muito resistentes a antibióticos, esses casos exigem uma combinação diferente e doses mais altas de antibióticos. O tratamento tem de ser o mais precoce possível, pois quanto mais tempo demora, aumenta a mortalidade”, alerta o infectologista Schwarzbold.

Lavar as mãos é principal arma

O modo mais eficaz para evitar a contaminação por bactérias não poderia ser mais simples: higienizar as mãos. Lavar as mãos com água e sabão e usar gel antisséptico (normalmente disponível em locais de grande trânsito de pessoas). “A disseminação de bactérias resistentes se dá através de contato com objetos ou superfícies contaminadas com essas bactérias. Desta maneira, a velocidade de disseminação desses microrganismos depende principalmente de medidas higiênicas após contato com pessoas infectadas ou superfícies contaminadas”, destaca Simone. Também é recomendado fazer visitas hospitalares somente se necessário.

Janice Haney Carr/CDC
Reprodução de imagem captada de microscópio de Pseudomonas aeruginosa

Pacientes são testados na hora da internação

Casos de infecção por bactérias multirresistentes já foram relatados no Rio Grande do Sul, mas, segundo o Centro Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs), do início de 2017 até agora, as doenças causadas por microrganismos estão em nível endêmico, isto é, dentro do esperado. A maioria das infecções ocorre em pacientes que já carregam consigo uma bactéria que evoluiu no organismo, tornando-se resistente a diferentes tipos de antimicrobianos. Por isso, a orientação aos hospitais é que os pacientes sejam testados antes, no momento internação, para saber se já chegaram à casa de saúde portando a bactéria ou se ela foi contraída em um ambiente hospitalar. Além disso, as instituições devem notificar, mensalmente, o número de infecções ocorridas em seus pacientes. Assim, o Cevs monitora a qualidade do serviço de controle de infecções. Quando há vários casos de infecção causada por uma mesma bactéria em um curto espaço de tempo, é feita uma investigação para identificar a causa. Em paralelo, os hospitais também notificam quaisquer bactérias multirresistentes identificadas.

Controle de infecção

Os hospitais devem obrigatoriamente contar com uma Comissão de Controle de Infecção, que será responsável pela implantação das medidas de controle e do monitoramento dos seus processos, de acordo com protocolos nacionais. Existe ainda o Plano de Contingência dos Mecanismos de Resistência, que estabelece as medidas de controle a serem aplicadas de acordo com número de casos e o perfil das bactérias identificadas em cada estabelecimento. Isso é chamado de cenário de risco: quanto maior o cenário de risco, mais restritivas são as medidas a serem aplicadas.


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